Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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MONITOR DA IMPRENSA > ARTHUR OCHS SULZBERGER (1926-2012)

“Punch” e seu tempo, na visão do ex-editor-executivo Max Frankel

Por lgarcia em 03/10/2012 na edição 714

Tradução: Jô Amado (edição de Larriza Thurler)

 

Quando Arthur Ochs Sulzberger sentia algum tipo de preocupação com o que era impresso no New York Times, “Punch”, como todo mundo o chamava, descia onze andares até o escritório do editor e, humildemente, aguardava a vez de ser atendido. “Poderíamos, por favor, dar a notícia do casamento da filha de um anunciante importante? Não seriam os projetos de caridade de Bill Scranton, um dos diretores do NYTimes, dignos de uma matéria? Tínhamos que ser tão maldosos com a resenha da música de Andrew Lloyd Webber?”, Max Frankel, editor de opinião de 1977 a 1986 e editor-executivo de 1986 a 1994 do jornalão, relembra os questionamentos do publisher e presidente do New York Times Co..

Sulzberger, que morreu no sábado aos 86 anos, era um magnata da imprensa que jamais mandou publicar ou suprimir um artigo das colunas de notícias de seu jornal. Nos 25 anos em que Frankel tratou diretamente com ele, ele nunca o chamou em seu escritório para se queixar das decisões jornalísticas. Como sempre insistia, o NYTimes não vendia apenas notícias, mas uma avaliação sobre a importância e o interesse das notícias e, uma vez que investia na escolha de seus subordinados, ele queria que se sentissem seguros em seu trabalho, confortáveis com suas opiniões. E tinha o apoio dos editores.

O próprio “Punch” mostrava ser o mais seguro de todos. Sem muito preparo para assumir o cargo de publisher, o que ocorreu aos 37 anos, ele superou rapidamente seus receios. Ele mudou e tornou a mudar seus executivos, abandonou estratégias não lucrativas, buscou novas formas de receita para além do alcance das restrições dos sindicatos e encantou novos leitores e anunciantes com um novo e criativo design do NYTimes. Ele podia ser audacioso, pois seu casamento nada tinha a ver com os negócios, tal como ocorrera com seu pai e cunhado, que o precederam como publishers; sentia o direito de dirigir o jornal. Continuava estudando as teorias sobre administração de corporações, mas respirava os valores jornalísticos do NYTimes desde a infância. Como disse seu avô, seu negócio era dar as notícias com imparcialidade e credibilidade, sem medo ou favor, e garantir a sobrevivência de uma instituição preciosa. Tinha que ganhar dinheiro – não para enriquecer a família ou os acionistas, mas principalmente para proteger a integridade e a independência do jornal.

Debates fascinantes e reveladores

Com certeza de sua missão e confortável com sua herança, ele era um patrão extraordinário. Frankel se lembra de uma vez em que uma importante corporação cancelou todos os seus anúncios em protesto contra alguns artigos – constrangedores, mas verdadeiros. Chapéu na mão, “Punch” procurou, durante semanas, conseguir os anúncios de volta, mas só meses depois nos falou da tristeza que, inadvertidamente, havíamos causado. Lembro-me de sua firmeza quando, então curador do Metropolitan Museum of Art, deixou o departamento de notícias questionou a origem de uma linda tigela grega que o museu adquirira por vias suspeitas. Lembro-me de sua paciência quando nenhum dos jornais de finanças que haviam zombado de suas estratégias administrativas se incomodou em reconhecer o enorme sucesso que conseguira com a qualidade do NYTimes e o preço de suas ações.

A tranquilidade interna de “Punch” possibilitava-lhe permitir-se um encanto brincalhão, uma disposição a confessar ignorância onde outros fingem sofisticação e oferecer opiniões chocantes sobre negócios públicos. Se os japoneses e chineses não estivessem agindo corretamente no comércio, ele perguntava a uma autoridade americana que o visitasse por que não deixar suas pilhas de mercadorias apodrecendo em cais da costa ocidental? Se os traficantes de drogas estavam arruinando as cidades do país, ele perguntava a um juiz, ou a um professor de Direito, o que há de errado com a solução saudita de cortar suas mãos? Sua despreocupação provocava debates fascinantes e reveladores.

Insistia que o NYTimes triunfaria no novo mundo

Quando “Punch” queria compartilhar uma opinião forte com o mundo, às vezes escrevia um editorial curto – sobre o tratamento execrável que os jurados recebiam nos tribunais de Nova York ou sobre o barulho intolerável das paradas na Quinta Avenida, embaixo de sua janela. Mas quando entregava seus comentários ao departamento editorial, apenas pedia que fossem levados em consideração, talvez reescritos ou simplesmente jogados no lixo, o que muitas vezes acontecia. Um dia, quando soube que a página editorial havia decidido opor-se a um candidato ao Congresso com quem ele e sua mulher frequentemente jantavam domingo à noite, ele engoliu em seco, constrangido, e rapidamente concordou. No dia seguinte, quando o veredicto apareceu impresso, ele enviou ao candidato uma dúzia de rosas. Ele deixava sua página editorial deslizar um pouco à esquerda de suas crenças centristas, mas também insistia que a página de opinião (ao contrário da página editorial) oferecesse pontos de vista de grande abrangência, uma inovação que foi amplamente copiada.

As decisões mais famosas de “Punch” só parecem fáceis olhando retrospectivamente. Imagine-se um publisher inexperiente, com os lucros da empresa diminuindo, dirigir-se ao público para poder usar as ações da empresa para comprar novas fontes de receita. Ou um ex-fuzileiro naval, condecorado por serviços prestados em duas guerras e com a nação em guerra no Vietnã, tendo que autorizar a divulgação de inúmeros documentos altamente confidenciais envolvendo as desilusões sobre a política no Vietnã – disseram-lhe que ele corria o risco de ser processado, num litígio bastante caro, e talvez a própria reputação do NYTimes como instituição patriótica e respeitada. Os editores queriam a glória de enfrentar o governo; o risco era só dele.

Quando uma batalha era vencida, “Punch” esperava, confiante, pela próxima. Quando os computadores passaram a entregar a informação mais rapidamente do que qualquer rotativa, ele dizia-nos que deveríamos ficar calmos até o problema ser claramente definido. “Acordem-me quando pudermos jogá-lo no lixo.” Ele viveu para ver esse dia nascer e, com a respiração falha durante uma doença que o debilitava, insistia que o NYTimes triunfaria no novo mundo. Tinha certeza disso quando morreu. Com informações de matéria publicada no New York Times [1/10/12].

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