Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > CASO VALERIE PLAME

Libby soube por Russert, que soube por Novak…

Por Edição de Leticia Nunes (com Larriza Thurler) em 31/10/2005 na edição 353

Judith Miller foi presa, Matthew Cooper escapou no último minuto de cumprir pena, mas foi Tim Russert o responsável por minar o testemunho do chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Lewis Libby – indiciado na sexta-feira (28/10) –, no caso Valerie Plame. Junto com Judith, do New York Times, e Cooper, da revista Time, Russert, que apresenta o programa Meet the Press na rede NBC, foi intimado a depor na investigação do vazamento da identidade da agente da CIA.

Depois de resistir, o jornalista acabou prestando seu testemunho diante do grande júri em agosto de 2004. Durante os 20 minutos sob juramento, declarou que soube da identidade de Valerie pelo artigo do colunista Robert Novak, na primeira vez que a informação apareceu na imprensa. Em seu testemunho, prestado alguns meses antes, o chefe de gabinete disse que havia conhecido a informação por Russert.

No documento que explicita o indiciamento de Libby é dito que ele ligou para Russert quatro dias antes da revelação da identidade de Valerie por Novak para reclamar sobre um outro assunto, mas não falou nada sobre a agente da CIA. Segundo artigo de Todd S. Purdum [The New York Times, 31/10/05], o promotor responsável pelo caso, Patrick Fitzgerald, confiou na credibilidade do jornalista da NBC para indiciar Libby. Ainda de acordo com o documento, o chefe de gabinete teria falado com seis pessoas sobre Valerie Plame, incluindo Cheney, antes de falar com Russert.

Se as acusações feitas contra Libby forem verdadeiras, não fica claro por que o chefe de gabinete disse para o grande júri, em março do ano passado, que o jornalista era sua fonte. O advogado de Libby afirmou que ele testemunhou de acordo com o que lembrava, e culpou a passagem do tempo como justificativa para ele poder ter contado uma informação errada.

Mostrando-se incomodado com o fato de ter seu nome em destaque no caso, Russert comentou as acusações a Libby no domingo (30/10), na NBC. ‘Claramente, o promotor fez seu julgamento. Contrapondo os depoimentos de Matt Cooper e Judy Miller e o meu com o de Libby, ele decidiu que Libby não estava dizendo a verdade’, concluiu.



Promotor justifica intimação de jornalistas

Em uma coletiva de imprensa na sexta-feira (28/10), após o anúncio do indiciamento de Libby, Patrick Fitzgerald falou sobre Judith Miller e o papel da imprensa na investigação do caso Valerie Plame.

Segundo ele, a única maneira de se fazer uma investigação deste tipo é através da colaboração dos jornalistas. ‘Nós não poderíamos resolver este caso se tivéssemos esquecido dos repórteres. Isso teria sido negligente’, defendeu.

Perguntado sobre Judith Miller, Fitzgerald afirmou que nunca desejou que a repórter do New York Times fosse presa. ‘Ninguém quer entrar numa briga com o Times‘, disse. Ele completou, entretanto, que há alguns momentos em que não há opção, e a justiça precisa impor sua força sobre a imprensa. ‘Eu não acho que jornalistas devam ser intimados rotineiramente; deve haver uma razão extraordinária. Mas se um repórter é testemunha de um crime e você não enfrenta o problema, você está sendo descuidado’, concluiu ele.

Por outro lado, a relação entre jornalista e fonte é abalada por este raciocínio. Inicialmente, os três jornalistas intimados a depor no caso Valerie Plame resistiram à ordem, evitando não só ter que testemunhar diante do grande júri como ter que participar de um julgamento como testemunhas. Os três perderam, cederam em momentos diferentes e finalmente todos testemunharam – com a justificativa de que Libby havia dado permissão para que revelassem à justiça suas conversas confidenciais. ‘Isto é o mais temido pelos jornalistas – que eles se tornem um braço investigativo do governo e sejam forçados a testemunhar contra as fontes que cultivaram’, afirma Jane Kirtley, professora de ética na mídia e direito na Universidade de Minnesota.



Publisher do Times culpa ‘falha institucional’

Em discurso sobre os desafios das organizações de mídia tradicionais na era digital durante a convenção anual da Associação de Notícias Online, em Nova York, na sexta-feira (28/10), o publisher do New York Times, Arthur Sulzberger Jr, respondeu a algumas questões sobre a polêmica com a repórter Judith Miller.

‘A história não acabou’, afirmou ele, referindo-se à investigação do caso Valerie Plame, que levou Judith a passar três meses na prisão. ‘Esta história ainda vai crescer mais, e não há dúvidas de que a reputação do Times sofreu com ela’.

O publisher disse que o jornal precisa voltar às suas ‘raízes jornalísticas’, e elogiou a expansão da cobertura sobre o caso desde a libertação de Judith. ‘Quando você tem uma repórter presa, há limites [do que pode ser divulgado]’, explicou, completando agora que estes limites não existem mais.

Perguntado sobre as lições que o Times tirará da experiência, Sulzberger disse acreditar que o problema começou antes do vazamento da identidade da agente da CIA. ‘Fica claro, olhando para trás, que nós fomos muito lentos em corrigir nossa cobertura sobre armas de destruição em massa’. Ele ressaltou, porém, que não se pode colocar toda a culpa em Judith Miller. ‘Foi uma falha institucional’, defendeu. Informações de Jay DeFoore [Editor & Publisher, 28/10/05], Greg Mitchell [Editor & Publisher, 28/10/05], Katharine Q. Seelye e Adam Liptak [The New York Times, 29/10/05].

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