Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MONITOR DA IMPRENSA > IMPRENSA CHINESA

Liberdade para dizer tudo bem

Por Giulio Sanmartini, de Belunno (Itália) em 17/10/2005 na edição 351

O grande conflito entre duas nações, entre duas linhas de pensamento antagônicos, aconteceu na segunda metade do século 20 entre a marxista União Soviética e o capitalista Estados Unidos. Essa ‘guerra’ não teve armas convencionais – fuzis, baionetas, canhões, carros de combate, bombas atômicas e soldados –, mas foguetes, satélites artificiais, cabinas espaciais e homens no espaço.

Os soviéticos partiram na frente surpreendendo o mundo no dia 4 de outubro de 1957, ao anunciar terem colocado em órbita o primeira ‘lua artificial’, o Sputinik 1, que em russo significa ‘companheiro de viagem’. Não chegou a passar um mês completo e outra surpresa, o Sputinik 2 (3/11/57), levando o primeiro ser vivo ao espaço, a cadela Laika.

Até o final de 1965 – isto é, por mais de 8 anos –, os soviéticos colecionaram um imenso número de vitórias: em 12 de abril de 1961, na nave Volstok 1 foi colocado o primeiro homem no espaço, Yuri Gagarin; em agosto do mesmo ano, Gherman Titov fez uma viagem de mais de 24 horas (a de Gagarin foi de 1h48). Em agosto de 1962, a URSS coloca duas cosmonaves simultaneamente no espaço – a Volstok 3, com Adrian Nicolayev e a Volstok 4, com Pavel Popovich –, que conseguem uma aproximação de 5 quilômetros.

A Volstok 6 (16/6/1963) leva a primeira mulher no espaço sideral, Valentina Tereshkova. Dela, que era operária e pára-quedista amadora, contou-se mais tarde que se apresentara como voluntária pois estava apaixonada pelo cosmonauta Adrian Nicolayev, com quem casou e constituiu família.

Parecia que os russos estavam fazendo doutorado enquanto os americanos continuavam no maternal. Os estadunidenses começaram a dar o ar de sua graça em 1965, com sinais de que ultrapassariam os adversários, quando com as astronaves Gemini 6 e 7 fizeram o primeiro acoplamento espacial – tarefa indispensável para o grande objetivo: chegar à Lua.

Foi criado o projeto Apollo, que em dezembro de 1968 realizou o primeiro vôo circulunar tripulado (Apollo 8), com os austronautas Frank Borman, James Lovell e William Anders. Finalmente com a Apollo 11, em 16 de julho de 1969, Neil Armstrong pisou na Lua.

Os Estados Unidos haviam vencido a ‘guerra’; pouco de novo se tinha a conquistar, foram criados os ônibus espaciais e, notícia mesmo, só dois acidentes com toda a tripulação morta.

Olho na lua

A União Soviética acabou e o mundo olha hoje para uma China com aspectos capitalistas, mas com política comunista. Na quarta-feira (12/10), os chineses colocaram o seu primeiro homem no espaço. Na China, os ‘cosmonautas’ (como preferem os russos) ou ‘astronautas’ (como os chamam os americanos) são chamados ‘taikonautas’ (taiko significa espaço). O feito chinês só foi anunciado depois de tudo ter corrido bem. A cápsula Shenzhou-6 (fragata divina) levou Fei Junlong e Nie Haisheng. O premier chinês Wen Jiabaologo declarou: ‘É uma gloriosa e sagrada missão, que atrai a atenção do mundo inteiro’.

Ao contrário do primeiro lançamento, a televisão estatal CCTV esteve por 54 horas seguidas no ar, em transmissão direta, e vendendo espaços publicitários a US$ 1 milhão por 30 segundos. Apesar dessa abertura comercial, a mídia teve suas informações censuradas: o nome dos ‘taikonautas’ ficou em segredo até o momento da partida.

Para assistir ao evento desde as preliminares foi convidado um restrito grupo de jornalistas chineses, sob duas condições: não usar celulares (três não respeitaram a regra e foram expulsos) e, caso houvesse um acidente, as máquinas fotográficas deveriam ser entregues às autoridades.

Por sorte tudo correu bem. Alguns correspondentes de Hong Kong, que haviam sido convidados, na hora H foram ‘desconvidados’. A imprensa estrangeira foi excluída e todo repórter que tentou aproximar-se da base foi identificado e bloqueado numa distância de 80 km.

Os ‘taikonautas’ ficarão em órbita por 5 dias. Os chineses planejam construir uma estação orbital e pensam também desembarcar na Lua em 2020. Espera-se que, quando esse fato ocorrer, a censura à imprensa já tenha sido banida da China.

[Textos de apoio: Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica, de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (1995); e ‘I cinesi tornano nello spazio’, de Giovanni Caprara, Corriere della Será (13/10/05)]

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