Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > RESCALDOS DO CASO SNOWDEN

‘NYT’ resiste a pressão do governo e faz parceria com ‘Guardian’

Por Margaret Sullivan em 12/09/2013 na edição 763

Tradução integral de Inacio Vieira, edição de Leticia Nunes. Informações de Margaret Sullivan [“Decision to Publish Against Government Request Was ‘Not a Particularly Anguished One’”, Public Editor’s Journal, The New York Times, 6/9/13]

New York Times foi criticado no passado por aceitar pedidos do governo para protelar matérias ou informações sensíveis, mas resistiu aos mais recentes pedidos publicando um artigo de primeira página na edição de sexta-feira (6/9).

A editora-executiva do jornal, Jill Abramson, disse que, ainda que ela e o chefe de redação, Dean Baquet, tenham ido a Washington para se reunir com funcionários do governo e os tenham “ouvido respeitosamente”, a decisão de publicar “não foi particularmente angustiante”.

O artigo diz que a Agência de Segurança Nacional (NSA) tem a capacidade – e faz uso dela – de decifrar a criptografia usada em grande parte das comunicações através da Internet. O texto é parte importante de um conjunto de matérias sucessivas sobre a vigilância da NSA e suas consequências para a privacidade, muitas das quais foram publicadas no jornal britânico The Guardian e no americano The Washington Post, resultado do enorme vazamento de Edward Snowden, ex-técnico da agência.

Utilidade pública

Editores do alto escalão do New York Times consideraram as preocupações dos funcionários do governo sobre a segurança nacional, mas decidiram não acatar o pedido dos oficiais, já que os documentos eram de interesse público.

“Nossa postura padrão é a de informar o público”, declarou Jill Abramson. “É nossa obrigação democrática publicar informações de utilidade pública”. O equilíbrio entre a segurança nacional e o direito de saber do público deve ser considerado, argumentou. Neste caso, o segundo evidentemente prevaleceu.

Abramson conta que as conversas – nas quais os editores do New York Times descreveram “de forma fervorosa” a importância do direito de informação do público e a necessidade de um debate fundamentado – “foram úteis na criação de um contexto de compreensão” por parte do governo.

New York Times nem sempre tomou esse tipo de decisão, acatando por vezes os pedidos do governo e sendo atacado por isso. Na realidade, Snowden indicou que sua decisão de fornecer os documentos ao Guardian e ao Washington Post deu-se, em parte, por não acreditar que o New York Times resistiria às pressões governamentais.

Proteção do conteúdo

Abramson disse que a parceria, no artigo em questão, entre New York TimesGuardian e ProPublica explora os pontos fortes de cada um dos veículos.“Tenho enorme respeito por Alan Rusbridger e Janine Gibson, então aceitei com toda a confiança” depois de ser abordada pelo Guardian, contou ela. Rusbridger é editor-chefe do Guardian e Janine é editora do jornal nos EUA.Abramson faz parte do conselho consultivo da ProPublica, e conhece bem seu editor, Stephen Engelberg, então declarou também ter confiança nessa relação. 

“O Guardian, no início, estava extremamente preocupado em trabalhar de uma forma que mantivesse o material seguro. Fizemos de tudo para proteger o material”, contou a editora, acrescentando que o New York Times restringiu rigorosamente o número de pessoas com acesso aos documentos a “um grupo de jornalistas bem pequeno”. O artigo que foi publicado na Internet na quinta-feira, 5/9, e no jornal de sexta-feira, 6/9, foi escrito por Scott Shane, Nicole Perlroth, Jeff Larson e John Markoff.

Juntamente com sua versão do artigo, a ProPublica publicou um extenso editorial sobre as motivações por trás dele. O New York Times lidou com esse aspecto – adequadamente, em minha opinião – através de um parágrafo dentro de seu próprio artigo. O Times concordou em excluir alguns documentos da matéria, declarou Abramson, descrevendo-os como possuindo “um nível de detalhes que gerou preocupação”. “Os poucos documentos que não publicamos não eram essenciais”, ressaltou.

Abramson acrescentou que o New York Times vai continuar a reportar com base no material e indicou que há mais por vir.

Evolução

Minha interpretação: eu critiquei o New York Times no passado por ter acatado os pedidos do governo muito prontamente, incluindo a grande demora em publicar o que foi, possivelmente, a reportagem sobre vigilância mais importante da década passada – o artigo vencedor do Prêmio Pulitzer, de James Risen e Eric Lichtblau, sobre as escutas telefônicas sem ordem judicial por parte do governo, em 2005. Também escrevi sobre as tentativas do New York Times de se recuperar do atraso nas reportagens da NSA que não publicou em primeira mão.

O artigo sobre a criptografia – uma reportagem importante, publicada corajosamente – é uma evolução muito bem-vinda. O público americano tem o direito de saber e debater o que seu governo está fazendo. Os editores e repórteres do New York Times, assim como os do Guardian e da ProPublica, merecem crédito pela forma como trataram o assunto.

***

Atualizado às 12h08m (6/9/2013) – A Reuters reportou na sexta-feira (6/9) pela manhã que oficiais do serviço de inteligência americano opõem-se aos artigos, afirmando que eles fornecem um “manual de instruções” para adversários dos Estados Unidos.

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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