Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > LUTO

Moacyr Scliar (1937-2011)

01/03/2011 na edição 631


Folha de S. Paulo, 28/2


Aos 73, morre escritor gaúcho e membro da ABL Moacyr Scliar


O escritor e colunista da Folha Moacyr Scliar morreu na madrugada de ontem aos 73 anos, em Porto Alegre.


O Hospital das Clínicas de Porto Alegre anunciou que Scliar morreu por volta da 1h, por falência múltipla de órgãos. O autor estava internado desde janeiro por conta de um acidente vascular cerebral isquêmico.


Scliar, que deixa mulher, filho e netos, foi velado ontem na Assembleia Legislativa do RS e deve ser sepultado hoje, às 11h, no Cemitério Israelita de Porto Alegre.


VIDA E OBRA


Autor de mais de 70 livros e traduzido para mais de 40 idiomas, o porto-alegrense Scliar era reverenciado na sua terra natal, na qual cresceu em bairro da comunidade judaica. Nascido em 23 de março de 1937, formou-se médico e se especializou em saúde pública.


Ganhou importantes prêmios no Brasil e no exterior, como o Jabuti (quatro vezes) e pertencia, desde 2003, à Academia Brasileira de Letras. Entre seus livros, destacam-se títulos como ‘O Centauro no Jardim’, obra de temática judaica, ‘Sonhos Tropicais’, romance sobre o sanitarista Oswaldo Cruz, ‘O Exército de um Homem Só’ e ‘A Majestade do Xingu’.


Desde 1993, publicava em sua coluna na Folha crônicas baseadas em reportagens veiculadas pelo jornal.


VELÓRIO


Presente ao velório, o governador Tarso Genro (PT-RS) anunciou a criação de um prêmio literário que levará o nome do autor. O velório reuniu personalidades do mundo literário. Entre as coroas de flores, estava a da presidente Dilma Rousseff.


‘O título do último livro, ‘Eu Vos Abraço, Milhões’, representa um pouco a postura que ele teve na vida’, disse Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.


Amigo de décadas, o escritor Luis Fernando Veríssimo viu na morte de Scliar o surgimento de uma lacuna da temática literária do judeu na sociedade brasileira.


 


 


Folha de S. Paulo, 1/3


Carlos Heitor Cony


Moacyr Scliar


Ao longo de muitos anos no ofício, raríssimas vezes comentei os livros lançados no mercado editorial. Não faz muito, abri uma exceção para Moacyr Scliar, escrevi sobre seu último romance, ‘Eu vos abraço, milhões’. Partindo de um verso de Schiller na ‘Ode à alegria’, o mesmo poema que Beethoven aproveitou para compor sua ‘Nona Sinfonia’, ele contou a história de uma geração atraída pelas conquistas sociais do comunismo romântico que se espalhou pelo mundo após a revolução soviética de 19l7.


A mesma geração que mais tarde se desencantou e se arrependeu de ter queimado o ‘Dom Casmurro’ -um ‘romance burguês para burgueses’. Uma geração que não chegou a ser perdida, como o próprio Scliar nunca se perdeu em sua honesta e brilhante trajetória humana e intelectual.


A repercussão de sua morte, no último domingo, que continuará por muito tempo ainda, lembrou seus méritos como escritor de primeiríssimo time, dono de uma obra que engrandece o nosso tempo cultural e literário. Para os que conviveram com ele, a perda foi funda e dolorosa.


No meu caso, perdi uma referência afetiva e posso dizer que clínica. Nos últimos anos, ele foi uma espécie de âncora que tomava conta de minha saúde. Ele queria saber tudo, ver os exames que eu fazia, examinar os remédios que me receitavam. Uma amizade mais do que fraterna, quase paternal da parte dele. Embora mais moço, tomava conta de mim -e será difícil, agora, frequentar a ABL sem ele.


Viajamos pelo mundo, Paris, Barcelona, Guadalajara, Buenos Aires, praticamente por todas as capitais brasileiras, era impressionante a maneira modesta, mas eficiente que sabia usar com os diversos auditórios que o buscavam. Valeu, Scliar, valeu muito, valeu tudo.


 


 


O Estado de S. Paulo, 1/3


Elder Ogliari


O último adeus a Moacyr Scliar


O corpo do escritor Moacyr Scliar foi sepultado por volta do meio-dia de ontem no Cemitério do Centro Israelita de Porto Alegre. A cerimônia de despedida seguiu o rito judaico e foi restrita aos familiares e amigos mais próximos do escritor e médico especialista em saúde pública morto no domingo, aos 73 anos, de falência múltipla de órgãos.


O rabino Guershon Kwasniewski destacou que a própria convalescença de Scliar, de certa forma, se transformou em literatura. ‘A cada informação médica ele escrevia um novo capítulo e, como escritor, cativou seus admiradores até o último dia.’ Scliar estava internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre desde 11 de janeiro. Após cirurgia de pólipos intestinais sofreu um acidente vascular cerebral e não se recuperou mais. O rabino lembrou ainda que, sem ser religioso, Scliar ‘era um embaixador da cultura judaica’.


Ao final da cerimônia, a família distribuiu uma nota de agradecimento a todos que manifestaram carinho e solidariedade pela morte do escritor. ‘Neste momento de dor e tristeza, permanece em cada um de nós a lembrança de um homem digno, dono de uma mente brilhante e criativa, que viveu a vida em toda a sua plenitude. Aos 73 anos, Scliar obteve sucesso em todas as atividades às quais se dedicou, seja como médico sanitarista ou como escritor’, destaca um trecho do texto. Em outro parágrafo, a família lembra que ‘o guri criado no bairro do Bom Fim escrevia pelo simples prazer de contar boas histórias, que nunca pararam de nos fascinar. Os mais de 80 livros publicados, os inúmeros prêmios literários, as crônicas e os artigos revelam o trabalho de um humanista, sempre fiel às suas origens’.


Na parte final, a nota reitera que ‘em família, Scliar foi um homem generoso, apaixonado e de uma dedicação ímpar’. Na sequência, destaca: ‘Todos aprendemos com ele a cultivar nossos sonhos como admiração e peito aberto, pois eles são a matéria-prima da vida. Que possa descansar em paz, seu legado é imortal. Moacyr, hoje somos nós que te abraçamos. Milhões!’.


Entre os escritores, artistas e políticos que foram se despedir do escritor estavam Luis Fernando Verissimo, Zoravia Bettiol, Tabajara Ruas, José Fogaça, Pedro Simon e Henrique Fontana.


 


 


O Estado de S. Paulo, 28/2


Raquel Cozer


Todos os caminhos da ficção


O escritor gaúcho Moacyr Scliar, que havia sofrido um acidente vascular cerebral isquêmico ) e estava internado no Centro de Tratamento Intensivo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre desde 17 de janeiro, faleceu, aos 73 anos, na madrugada de sábado para domingo, vítima de falência múltipla de órgãos. O velório foi realizado na tarde de ontem, no salão Júlio de Castilhos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O sepultamento, aberto apenas para familiares e amigos, estava previsto para a manhã de hoje, no Cemitério Israelita de Porto Alegre


‘Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais. Preciso só de um teclado.’ Em meio a dezenas de depoimentos de autores sobre as mais diferentes manias no momento de escrever, publicados desde o início do ano passado no blog do escritor Michel Laub, o de Scliar se destacou pelo pragmatismo: para o criador prolífico e naturalmente inspirado, o único impedimento para a escrita seria a falta da ferramenta com a qual levá-la a cabo.


Tanto era assim que, em quase 50 anos de carreira literária, o porto-alegrense publicou mais de 80 livros – o primeiro, Histórias de um Médico em Formação, em 1962, mesmo ano em que concluiu a faculdade de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e o mais recente, o romance Eu Vos Abraço, Milhões, em setembro do ano passado. Entre um e outro, publicou romances e livros de crônicas, contos, literatura infantil e ensaios, numa média de mais de um livro por ano, com destaque para O Ciclo das Águas, A Estranha Nação de Rafael Mendes, O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim.


Tudo isso mantendo os critérios que o tornaram um dos mais reconhecidos autores brasileiros contemporâneos em solo nacional, com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras desde 2003 e três Jabutis (1988, 1993 e 2009); no exterior, teve obras publicadas em 20 países e recebeu honrarias como o Prêmio Casa de Las Americas, em 1989.


Isso, sem deixar de lado a carreira na medicina. Na área, destacou-se desde 1969 em cargos como chefe da equipe de Educação em Saúde da Secretaria da Saúde do RS e diretor do Departamento de Saúde Pública. Entre o lançamento do livro de contos que Scliar preferia considerar como sua primeira obra profissional, O Carnaval dos Animais, em 1969, e o primeiro romance, A Guerra no Bonfim, em 1971, encontrou tempo ainda para cursar pós-graduação em medicina comunitária em Israel. Ainda no início da década passada, em 2002, concluiu doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública, com a tese Da Bíblia à Psicanálise: Saúde, Doença e Medicina na Cultura Judaica.


A tradição judaica o acompanhou em toda a carreira literária, assim como o imaginário fantástico – nascido em 23 de março de 1937 no bairro do Bom Fim, que até hoje reúne a comunidade judaica de Porto Alegre, e alfabetizado pela mãe, Sara, que era professora primária, Scliar chegou a ter o romance O Centauro no Jardim incluído numa lista com os cem melhores livros relacionados à história dos judeus dos últimos dois séculos, elaborada pelo National Yiddish Book Center. Também se tornou um grande porta-voz do País sobre temas relativos ao judaísmo, mantendo laços de amizade com alguns dos maiores autores israelenses no mundo contemporâneo, como David Grossman, A.B. Yehoshua e Amos Oz.


A especialização em saúde pública, por sua vez, deu a Scliar a oportunidade de vivenciar temas como a doença, o sofrimento e a morte – características que podem ser percebidas tanto em sua ficção, em obras como A Majestade do Xingu, quanto na não ficção, caso de que A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura é um dos exemplos mais claros.


Casado desde 1965 com Judith Vivien Oliven e pai de Roberto, nascido em 1979, Scliar também dedicou atenção especial às obras infanto-juvenis. Costumava dizer que, escrevendo para os jovens, reencontrava o jovem leitor que havia sido. Boa parte de sua produção nessa área foi considerada ‘altamente recomendável’ pela Fundação Biblioteca Nacional.


Além de produzir textos para vários jornais e revistas, o autor também teve trabalhos adaptados para o cinema, caso do romance Um Sonho no Caroço do Abacate, adaptado em 1998 por Luca Amberg sob o título Caminho dos Sonhos, em cujo elenco apareceram atores como Taís Araújo, Caio Blat e Mariana Ximenes. Em 2002, o romance Sonhos Tropicais também virou filme, sob direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.


REPERCUSSÃO


Marcos Vilaça


presidente da ABL


‘Foi um acadêmico múltiplo. Trabalhador incansável da cultura, produziu uma obra respeitável e de grande poder de comunicação com o leitor. Vai nos fazer muita falta.’


Cristovão Tezza


escritor


‘Foi o grande narrador brasileiro dos anos 80. A leitura de O Centauro… foi um choque para mim, pela novidade temática, pelo poder da fantasia.Foi um clássico contador de histórias.’


Fabrício Carpinejar


escritor


‘Ele estava sempre ao nosso lado, disposto a entender e a investigar a alma das coisas. Como nos quadros de Chagall, seus textos encontravam alegria e cor nas desventuras.’


Dilma Rousseff


presidente da República


‘Ele representou nossa sociedade em diversos gêneros, sem perder de vista sua condição de filho de imigrantes e médico. É com tristeza que nos despedimos de um mestre.’


Luiz Schwarcz


escritor e editor


‘Sua imaginação trabalhava sem parar. Moacyr Scliar tinha um olhar único, com ele criava um mundo fantástico no qual o humano estava sempre a serviço da literatura.’


Daniel Galera


escritor


‘Ele sempre foi muito generoso comigo e com os autores da minha geração. Um cara de uma energia admirável. Sentirei falta dele, mas foi um grande autor e sua obra está aí’



 


 

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