Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > LUTO

Moacyr Scliar: o mestre da ironia

04/03/2011 na edição 631


O Estado de S. Paulo, 2/3


Felipe Fortuna


Moacyr Scliar, o mestre da ironia


Convidado para participar dos debates literários da Conferência sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, em Brasília, em março do ano passado, Moacyr Scliar aceitou de pronto. E fez melhor: saiu a tempo de uma feira literária no interior do Rio Grande do Sul e, tendo falado sobre o seu processo criativo para o público brasiliense, ainda conseguiu seguir para Goiânia, onde havia outro evento no qual sua presença fora requisitada. Como percorria o País por gosto, nunca estava mal-humorado ou demonstrava cansaço. Pelo contrário: enquanto muitos escritores já se acomodavam nas poltronas de um saguão de hotel na capital, eis que Moacyr Scliar adentrava buliçoso, de calção e camiseta, suado e sorridente, pronto para abraçar seu amigo da Academia Brasileira de Letras, que vestia um paletó de três botões bem aprumado.


Ao longo do dia, mantinha-se atencioso com as pessoas e misturava seus talentos de escritor e médico. Durante o almoço, falou sobre a dieta dos brasileiros pobres, em muitos casos aliada à baixa educação, o que produziria gerações e gerações de pessoas sem futuro. Controlava com rigor o que ele mesmo comia, e criticava as escolhas nutricionais dos amigos à mesa, que não sabiam dosar quantidade e qualidade. No meio da conversa, surgia então um provérbio judaico, uma explicação qualquer sobre um fato, fosse político ou religioso, à qual lembrava de adicionar uma anedota. Muitos comentaristas lembram que, nos livros de Moacyr Scliar, haveria perceptível influência de Franz Kafka – sobretudo nas parábolas e nos relatos curtos e altamente metafóricos. Mas a conversa naquele dia revelou a forte admiração do escritor brasileiro por Isaac Bashevis Singer, cuja ficção conhecia no mesmo nível de profundidade com que lembrava fatos da biografia e da correspondência do autor de Zlateh, o Bode (1969).


Moacyr Scliar compartilhava com o escritor judeu-americano, nascido na Polônia, algumas características que logo o fariam menos identificado com Franz Kafka: em especial, o gosto do contador de histórias, do fabulista que evitava maior sofisticação, sem perder criatividade e crítica. Lembre-se, por exemplo, do conto O Bolso não Esqueceu, de Isaac Bashevis Singer, no qual o narrador impiedoso expõe os conflitos existentes na prática da religião e no uso do dinheiro, tudo imbuído da peculiar cultura judaica contida num provérbio. E compare-se o que o conto possa exibir de autoironia cultural com a novela A Mulher Que Escreveu a Bíblia (1999), no qual o humor de Moacyr Scliar serve para tornar patética a ideia da existência de ‘vidas passadas’ e, ao mesmo tempo, de tornar verossímil a vida de uma mulher escriba, a mais feia das esposas de Salomão, que teria redigido páginas memoráveis da humanidade. Moacyr Scliar, mestre da ironia, manipula o conhecimento bíblico e os estereótipos mais sólidos da cultura judaica para, justamente, deslocá-los do seu centro gravitacional. O resultado são narrativas focadas nas sutilezas e nas tresloucadas dimensões da ação humana.


Sim, a matriz ficcional de Moacyr Scliar é a Bíblia – e no reino do texto hebraico o escritor brasileiro opera por meio de desvios, questionamentos e revelações de incógnitas. Essa operação pode estar num conto que flagra a humanidade literalmente faminta de Esaú, como em Diário de Um Comedor de Lentilhas, ou na descoberta de outra dimensão, muito menos aterrorizante, do castigo divino, como se lê em As Pragas. Paralelamente, porém, a sua ficção também é percorrida pelo exame da identidade – que pode assumir diversas feições: a identidade judaica, a identidade sexual, a identidade humana contraposta à animal, entre tantas identidades. Para a história contada em O Centauro no Jardim (1980) converge um complexo aparato de alusões e memórias literárias. O bicho mitológico tem um quê de Gregor Samsa, metamorfoseado ‘numa espécie monstruosa de inseto’, que agride primeiramente a ordem familiar. Mas também lembra o relato Do Diário de Alguém Que Não Nasceu, no qual Isaac Bashevis Singer cria um personagem ‘meio espírito, meio demônio, meio ar, meio sombra, provido de chifres como um bode (…). Existo e não existo’.


Guedali, o mitológico centauro, é a humana besta que busca entender cada uma das suas conflitantes metades. A sua monstruosidade o leva a conhecer, como se lê naquele livro, a monstruosidade praticada pelos nazistas, que tentaram transplantar metades de homens a metades de mulheres. E quando Guedali encontra sua cara-metade – uma mulher também centauro -, entra em cena a mãe dele, que exige uma mulher judia para levar o casamento adiante… É assim que Moacyr Scliar, escritor realizado, apresenta o chiaroscuro humano, com palavras de um mestre que eu conheci em ação.


FELIPE FORTUNA É POETA E DIPLOMATA, AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ESTA POESIA E MAIS OUTRA (TOPBOOKS)

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