Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Morre, aos 95 anos, o Garganta Profunda

19/12/2008 na edição 516

Morreu na quinta-feira (18/12), aos 95 anos, o ex-agente do FBI Mark Felt, que entrou para a História sob o codinome ‘Garganta Profunda’. Felt era o número dois do bureau de inteligência dos EUA, no início da década de 70, quando ajudou o jornalista Bob Woodward, do Washington Post, a derrubar o presidente americano Richard Nixon. O ex-agente tinha problemas cardíacos, mas não foi divulgada a razão da morte.


Felt acabou se tornando a mais famosa fonte anônima do jornalismo americano. Ele se encontrava com Woodward em um estacionamento e confirmava informações sobre o Caso Watergate. O escândalo, que terminou com a renúncia de Nixon, teve início em junho de 1972, quando cinco pessoas foram flagradas ao invadir o escritório do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington. Os invasores tentavam fotografar documentos e instalar escutas nas salas. Em uma série de reportagens, Woodward e seu colega Carl Bernstein, com a ajuda da fonte anônima, foram traçando a ligação da estranha invasão com a Casa Branca.


A identidade do Garganta Profunda só foi conhecida em 2005. Felt decidiu solucionar o mistério, que durava mais de 30 anos, em um artigo na revista Vanity Fair. Na ocasião, Woodward e Bernstein ficaram surpresos com a decisão da fonte, pois haviam prometido que só revelariam a identidade depois de sua morte. Woodward, curiosamente, só apresentou Bernstein a Felt este ano. Os três se encontraram na Califórnia, onde o ex-agente morava.


Nixon sabia


Em gravação feita no Salão Oval em 1972 e tornada pública anos mais tarde, Nixon aparece conversando com seu chefe de Gabinete, H.R. Halderman, sobre o caso. O diálogo ocorreu quatro meses depois da invasão do escritório democrata. Nixon renunciou em 1974, depois que investigações revelaram que ele tinha conhecimento das operações de espionagem contra a oposição.


‘Nós sabemos o que foi vazado, e sabemos quem vazou’, diz Halderman.


‘Alguém no FBI?’, pergunta Nixon.


‘Sim senhor’, responde o chefe de Gabinete.


‘Quem?’


‘Mark Felt’


‘Mas por que diabos ele faria isso?’, diz Nixon, em tom de surpresa.


Esta é, de fato uma resposta que morreu com Felt. O agente teve papel precioso na queda de Nixon: como informante secreto, mantinha a pauta viva na imprensa; e como membro do FBI, lutava contra os esforços do presidente para minar a investigação do bureau sobre o Caso Watergate. Felt sabia que Nixon queria que o caso desaparecesse, e viu nisto uma tentativa do governo para obstruir a justiça.


Frustração


Felt esperava suceder J. Edgar Hoover na direção do FBI. Hoover dirigiu o bureau por 48 anos e morreu em junho de 1972. Nixon, por sua vez, apostou em uma nomeação política e indicou o leal L. Patrick Gray, do Departamento de Justiça, ao posto. A escolha enfureceu Felt, que escreveu posteriormente que o objetivo do presidente era colocar um político no cargo de Hoover para transformar o bureau em uma extensão da Casa Branca. Em junho de 1973, Felt foi forçado a sair do FBI e passou a ser investigado por suspeita de vazar informações ao Post e ao New York Times. Ele passou grande parte da década de 70 testemunhando no Congresso sobre abusos de poder enquanto estava no bureau .


William Mark Felt nasceu em Twin Falls, Idaho, em agosto de 1913. Formado pela Universidade de Idaho, entrou para o serviço público em Washington e trabalhou para o senador democrata James Pope. Casou-se em 1938 com sua namorada de escola, Audrey Robinson. O casal teve dois filhos e quatro netos. Audrey morreu em 1984. Felt entrou para o FBI em janeiro de 1942, e passou grande parte da Segunda Guerra Mundial perseguindo espiões alemães.


Mito


O trabalho de Woodward e Bernstein no Caso Watergate foi representado no filme Todos os Homens do Presidente, de 1976, e os dois repórteres – até hoje na ativa – tornaram-se lendas do jornalismo. No longa, Felt aparece como uma figura enfumaçada, e o personagem dá a Woodward, interpretado por Robert Redford, um das mais famosas dicas do jornalismo investigativo: ‘Siga o dinheiro’. Reza a lenda que, na vida real, Felt nunca teria dito a frase. Informações de Tim Weiner [The New York Times, 19/12/08].


 

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