Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > LUTO

Morre Sidnei Basile, vice-presidente da Editora Abril

17/03/2011 na edição 633


Valor Econômico, 17/3


Cynthia Malta


Morre Sidnei Basile, um civilizador


Sidnei Basile, jovem estudioso e bem-humorado, chegou ao Largo São Francisco para cursar Direito com o código de conduta dos alunos na ponta da língua. Eram os primeiros anos do regime militar e a vontade de protestar contra excessos era forte. Basile decide ir à aula sem gravata. O professor, sem pestanejar, lhe diz: ‘O senhor se retire’. Basile pergunta ‘por que, excelência?’. ‘O senhor está sem gravata!’, responde o professor. ‘Eu estou decentemente trajado’, observa o aluno, citando o código da faculdade, que não exigia gravata dos alunos, mas determinava beca preta aos professores. O professor, que estava sem a beca, insiste e Basile, também: ‘Eu não me retiro pois eu não reconheço em vossa excelência legitimidade para ser juiz de moda.’ Levou uma semana de suspensão, mas deslanchou o movimento que, anos depois, aboliria de vez a gravata nas aulas da mais tradicional faculdade de Direito do país.


Nada contra a gravata, acessório que Basile – formado em Direito, na São Francisco, e em Ciências Sociais, também pela USP – usava com elegância. Mas a defesa da liberdade de expressão era um sentimento forte no jovem que acabou ‘fisgado’ pelo jornalismo. Trabalhou como jornalista por 43 anos e faleceu ontem, à 1h45, aos 64 anos, no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Lutava contra um câncer no cérebro desde dezembro. Deixa a mulher Beth, três filhos e noras, e dois netos.


‘Fomos a muitas passeatas [contra a ditadura] juntos’, lembrou o advogado Arnaldo Malheiros Filho, que conheceu Basile em 1968, na São Francisco. ‘Mas ele gostava muito de jornalismo. Naquela época, já trabalhava na ‘Folha de S. Paulo’. O pai de Sidnei, Ovídio Basile, que dirigia a Móveis Teperman, tentou atrair o filho de volta ao Direito. Pediu uma vaga ao advogado da Teperman. ‘Ele ficou uns dois meses comigo. Aí, liguei para o senhor Ovídio e disse: ‘Deixe seu filho ser jornalista’, relembra Eros Grau, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. Ovídio acabou concordando.


Na ‘Folha de S. Paulo’, Basile passou, no início dos anos 70, pelas editorias de Cidades e Economia. Foi nessa época que Matías M. Molina, que editava as revistas técnicas da Abril e a ‘Exame’, conheceu Basile. ‘Ele era muito cuidadoso com o texto’, lembrou Molina.


Basile foi em seguida para a revista ‘Expansão’, convidado pelo editor Roberto Müller Filho. Quando este deixou a revista, que acabaria sendo comprada pelo grupo Abril, Basile a dirigiu. Os três jornalistas – Basile, Molina e Müller – acabariam trabalhando juntos na ‘Gazeta Mercantil’, jornal que ganhava importância e acabaria sendo considerado o mais importante de economia e negócios do país. Basile, nos anos 80, escrevia uma coluna sobre política na página 3. ‘Era analítica e tinha muita influência’, disse Molina.


No início dos anos 70, em plena ditadura militar, o governo negou credencial para que Basile, então chefe da sucursal da ‘Gazeta’ em Brasília, fosse fazer a cobertura da visita do presidente Ernesto Geisel ao Japão. Basile foi, mesmo assim. Em Tóquio, encontrou-se com Molina, que fora de Londres para ajudar. Os dois foram ao Foreign Press Club e Basile fez sua credencial de correspondente estrangeiro. ‘Quando um diplomata do Itamaraty tentou barrar Sidnei, ele olhou firme, apontou para o crachá e disse: ‘Leia aqui’. E entrou na coletiva do Geisel’, disse Molina. A convicção de Sidnei falou mais alto do que o curioso crachá, escrito em japonês. E, mais uma vez, ele conseguiu defender um princípio que lhe foi caro durante toda a vida: a liberdade de expressão.


Basile evitava falar do assunto, mas chegou a ser preso três vezes, e numa delas foi torturado, durante o regime militar. A defesa pela democracia, em tempos de ditadura, era algo perigoso. Quando serviu o Exército, fez amizade com Carlos Lamarca. Os dois, como segundos-tenentes, dirigiam, cada um, o seu batalhão. Mas, ao contrário de Lamarca, Basile era contra a luta armada. Teve que fugir de um enviado de Lamarca que o queria levar à força ao Vale da Ribeira para que treinasse guerrilheiros.


Basile acreditava no poder da palavra. Seu filho Juliano, repórter deste jornal, diz que seu pai ‘definia a comunicação como a estratégia de sobrevivência das pessoas’. Para ele, ‘o ato de se comunicar é fruto da necessidade de se viver em sociedade. Para que a comunicação seja possível, é necessária a liberdade de expressão.’ Essa liberdade, dizia Basile, representa ‘a possibilidade da sociedade se organizar melhor.’


Ao sair da ‘Gazeta’, em meados dos anos 1990, Basile foi para o Citibank chefiar o departamento de economistas. José Guimarães Monforte, então vice-presidente do Citi, queria montar um departamento de pesquisa que fizesse análises e soubesse explicar, ao emissor do papel, o custo/benefício, e, ao investidor, o risco/retorno das operações. ‘Foi assim que Sidnei assumiu a chefia da área de Research do Citi Brasil’, disse Monforte. ‘O produto que Sidnei trouxe ao mercado foi um sucesso’.


Basile voltou ao grupo Abril em 2000 para chefiar a revista ‘Exame’ e as publicações em torno dela. Em 2004, assumiu a direção editorial e de relações institucionais do grupo Abril, e desde 2007 era vice-presidente de relações institucionais do grupo. ‘Conheci Sidnei nos anos 70 e no ano 2000 fui atrás dele de novo. Disse a ele que era hora de voltar para casa. Ele foi um extraordinário embaixador da Abril e das entidades que representou’, disse Roberto Civita, presidente do conselho de administração da Abril, referindo-se à Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner) e à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). ‘Vai ser impossível encontrar outro Sidnei. Vamos sentir muito a sua falta’, disse. Para o filho de Roberto Civita, Giancarlo, presidente executivo do grupo, Sidnei, que sempre defendeu a imprensa livre, deixa ‘um legado de excelência e correção’.


Sobre o período que Basile editou a ‘Exame’, o professor de jornalismo da USP Eugênio Bucci diz que ‘sua gestão era baseada no diálogo, mas sem assembleísmo. Sob a gestão dele, as pessoas prosperavam.’ Para Bucci, ‘Sidnei foi um civilizador no ambiente da imprensa. Era um educador, elevava os padrões.’


Fora das redações e dos escritórios do Citibank e da Burson Marsteller, empresa de relações públicas que comandou no Brasil, Basile é lembrado pelos amigos que, como ele, gostavam de conversar em torno de uma boa mesa. Magno Vilela, professor de história, lembra com carinho de uma sobremesa italiana que o amigo costumava fazer para o grupo de gourmands: os ‘cuscinetti’, pasteizinhos em formato de meia lua, recheados de chocolate, nozes e figo.


Jorge Lucki, enólogo que escreve para o Valor, lembra-se do capricho com que Sidnei e Beth montaram uma criação de cordeiros em Guaratinguetá (SP). Para Vilela, o ponto alto dessa experiência foi um almoço oferecido ao papa Bento XVI, em 2007, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo. ‘O papa, rodeado de cardeais e assessores, saboreou os cordeiros. Sidnei ficou muito contente’. Na redação do Valor, ele deixa um grande número de amigos, que lamentavam ontem perda tão súbita.


 


 


MíriamLeitão.com, O Globo, 17/3


Míriam Leitão


Sidnei Basile: um defensor do jornalismo e da liberdade


Quando vi Sidnei Basile pela última vez, ele me disse: ‘Eu vou morrer. Você sabe, não?’ Ele queria dar a notícia, exercendo mais uma vez a atividade que o mobilizou por 43 anos. Em seguida, falamos do que o animava, apesar do câncer fulminante: a segunda edição do seu livro ‘Elementos de jornalismo econômico.’ Queria atualizar com os novos desafios, a presença da mulher na imprensa, e enfatizar a defesa da liberdade de expressão.


A imprensa para Sidnei era sacerdócio, trincheira de defesa de valores, função para ser exercida com olho no interesse público. Nas reuniões de pauta, ele falava de princípios. Isso era em plena ditadura, e ele chefiava a ‘Gazeta Mercantil’, em Brasília. O sonho que ele tinha era de fazer um jornal econômico moderno, preciso, mas com visão social e política. Montou uma redação com nomes que marcam a imprensa, como Lillian Witte Fibe, Cláudia Safatle, Celso Pinto, Célia de Gouvêa Franco, entre outros. Apesar da pouca idade na época, sua maturidade era notável, seu olhar, surpreendente, sua generosidade, rara.


Quando o vi pela primeira vez, em 1977, buscava emprego em Brasília. Tinha saído do Espírito Santo depois de episódios de perseguição política, não tinha registro profissional, estava grávida do meu segundo filho e ninguém me conhecia na cidade. Entrei na sala tremendo. Precisava de emprego, mas pensei que seria recusada. Havia duas vagas no jornal, tentava a mais modesta.


Conversamos sobre variados assuntos, ele me perguntou de livros que eu tinha lido, tudo como se não fosse uma entrevista de emprego. Aí, ele me ofereceu a melhor vaga. Eu disse: ‘Queria dizer que estou grávida de quatro meses.’ Ele me deu parabéns e pediu que voltasse no dia seguinte já com a carteira.


Essa foi a primeira delicadeza. Nos anos seguintes, Sidnei me ensinou o ofício como nenhuma outra pessoa. Me orientou sobre ter objetivos e persegui-los. Me mostrou falhas; passou truques de textos, apuração e entrevista. Foi a pessoa mais importante na minha formação profissional; e foi referência para inúmeros outros jornalistas pelas lições de rigor na apuração e noção de que servimos a quem consome a nossa informação. ‘Corra o risco de perder o furo; não corra o risco de dar uma notícia errada’, dizia aos repórteres.


O jornalismo econômico no final dos anos 1970 estava no meio de discussões sobre liberdade das empresas, do mercado, e da cidadania. O Estado, que de tanto crescer sufocava e capturava as empresas, era o mesmo que restringia as liberdades individuais e fechava a economia. Sidnei ensinava que o jornalismo econômico deveria ser exercido dentro desse contexto.


Quando enfrentou a censura, soube estar do lado certo. Na última vez que falou na Associação Nacional de Editores de Revistas, da qual era vice-presidente, avisou: ‘A luta pela liberdade de expressão não acabou ainda no Brasil.’


Sidnei dirigiu a ‘Gazeta Mercantil’; foi executivo no Citibank, na Burson-Marsteller. Era vice-presidente institucional da Editora Abril. Foi professor. Era do Comitê de Liberdade de Expressão da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).


Numa de suas aparições públicas, em 2010, Sidnei fez uma defesa intransigente da liberdade de imprensa e avisou: ‘Não é o Estado que fiscaliza a imprensa, é a imprensa que fiscaliza o Estado.’


Em novembro, numa reunião da SIP no México, foi homenageado de surpresa. Defendeu de novo os valores democráticos. Lutou, com risco pessoal, por esses valores desde os tempos de estudante de Direito e de Sociologia da USP.


Sidnei morreu ontem, aos 64 anos; deixa Beth, a mulher, os filhos Alexandre, Juliano e Felipe, noras, dois netos e inúmeros amigos, alunos e pessoas gratas a ele pelo apoio em momentos decisivos.


 


 


O Estado de S. Paulo, 17/3


Morre em SP, aos 64 anos, vice-presidente da SIP


Depois de várias semanas internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, morreu ontem, vítima de um tumor no cérebro, o jornalista Sidnei Basile, vice-presidente do Comitê de Liberdade de Expressão da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).


Aos 64 anos, dos quais 43 no jornalismo – embora formado em Direito e Ciências Sociais -, Basile era também vice-presidente da Editora Abril, na área de Relações Institucionais. Como entusiasmado militante da defesa ambiental, fazia parte dos conselhos da WWF-Brasil, do Instituto Akatu e do Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.


Depois de uma carreira bem-sucedida nos jornais Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, Basile tornou-se nome de destaque no jornalismo econômico como diretor de negócios da revista Exame – posto do qual saiu para se tornar secretário editorial e vice-presidente da Abril. Sua paixão pelo jornalismo o levou a dar aulas na Faculdade Cásper Líbero e a lançar, em 2002, o livro, Elementos de Jornalismo Econômico.


No subtítulo do livro ele já desenhava o que se tornaria uma nova cruzada: ‘A sociedade bem informada é uma sociedade melhor’. Na última década, Basile mergulhou na defesa da ética no jornalismo e do direito à informação – militância que o levou, enfim, aos quadros da SIP. Tornou-se um adversário radical das investidas do governo contra a mídia. ‘É incrível que, depois de 43 anos de uma Lei de Imprensa imposta pela ditadura e um ano e meio depois do julgamento dessa lei como inconstitucional, as forças da treva continuem se levantando a favor de um suposto controle social da mídia’, dizia ele em palestra em dezembro passado.


Basile deixa a mulher, Beth, três filhos e dois netos. Será sepultado hoje, no Cemitério Gethsêmani, às 12 horas.


 


 


Folha de S. Paulo, 17/3


Vice-presidente do Grupo Abril morre em SP


O jornalista Sidnei Basile, vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Abril, morreu ontem aos 64 anos em São Paulo, em razão de um tumor cerebral descoberto no final de 2010.


Formado em direito (1970) e ciências sociais (1975) pela USP, Basile começou a trabalhar como jornalista em 1968, na Folha. Seu primeiro chefe foi Cláudio Abramo.


Em 1972, Basile deixou o jornal para trabalhar na revista ‘Expansão’, voltada para a área de negócios, que foi comprada em 1975 pela revista ‘Exame’, da Abril.


O jornalista se transferiu então para a ‘Gazeta Mercantil’. Chefiou a Sucursal de Brasília do jornal de 1975 a 1980 e renovou a cobertura jornalística sobre economia.


De volta a São Paulo, em 1983 Basile assumiu a área comercial, aumentando o faturamento da empresa de US$ 13 milhões para US$ 100 milhões em quatro anos.


Afastou-se em 1993, por divergências com a família de Herbert Levy, dona do jornal. Trabalhou então no Citibank e depois na agência de comunicação Burson Marsteller.


Em 2000, assumiu as revistas ‘Exame’ e ‘Você S.A’, da Abril. Em 2004 ganhou o Prêmio Ayrton Senna de editor do ano. Tornou-se vice-presidente de Relações Institucionais do grupo em 2008.


Era ainda vice-presidente do Comitê de Liberdade de Expressão da Sociedade Interamericana de Imprensa e conselheiro da WWF-Brasil e do Instituto Akatu. Lecionou na Faculdade Cásper Líbero. É autor de ‘Elementos de Jornalismo Econômico’ (2002).


Basile deixou a mulher, Beth, os filhos e as noras Alexandre e Renata, Juliano e Viviane, Felipe e Maíla, e os netos Lucas e Thales.


O velório será realizado hoje a partir das 9h no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo. O enterro será às 12h.


 


 


Veja.com, 16/3


Morre o vice-presidente de Relações Institucionais da Abril, Sidnei Basile


Morreu nesta quarta-feira, aos 64 anos, o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Abril, Sidnei Basile. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Basile lutava contra um câncer no cérebro desde o final de 2010. O velório está marcado para a quinta-feira, às 9 horas, no Cemitério Gethsêmani, em São Paulo, e o enterro, no mesmo local, ao meio-dia.


Basile era formado em Direito e Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e tinha 43 anos de carreira no jornalismo, destacando-se na área de economia. É o autor do livro Elementos de Jornalismo Econômico, publicado em 2002, e foi professor da Fundação Cásper Líbero. Também trabalhou no Citibank e na Burson Marsteller.


Na Editora Abril, foi diretor secretário editorial e superintendente da Unidade de Negócios Exame. Era conselheiro do World Wildlife Foundation (WWF-Brazil), do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e do Instituto Akatu para o Consumo Consciente e Vice-Presidente do Comitê de Liberdade de Expressão da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP/IAPA).


Sidnei Basile deixa a mulher, Beth, os filhos e as noras Alexandre e Renata, Juliano e Viviane, Felipe e Maíla, e os netos Lucas e Thales.

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