Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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MONITOR DA IMPRENSA > BEN BRADLEE (1921-2014)

Morre o lendário editor do ‘Washington Post’ no caso Watergate

Por lgarcia em 22/10/2014 na edição 821

Tradução e edição: Leticia Nunes. Informações de Robert G. Kaiser [“Ben Bradlee, legendary Washington Post editor, dies at 93”, The Washington Post, 21/10/14] e Marilyn Berger [“Ben Bradlee, Editor Who Directed Watergate Coverage, Dies at 93”, The New York Times, 21/10/14] 

Morreu na terça-feira (21/10), aos 93 anos, o ex-editor Ben Bradlee, que chefiou o Washington Post durante a cobertura do escândalo Watergate na década de 70. Bradlee assumiu a redação do Post em 1965 e, ao longo de 26 anos, transformou-o em um dos mais importantes jornais do mundo.

Sob o comando de Bradlee, primeiro como chefe de redação e depois como editor-executivo, a circulação do Post quase dobrou, assim como o tamanho de sua redação. Sua tática era simples: “contrate pessoas mais inteligentes do que você”, dizia, e as encoraje a florescer. Ele distribuiu correspondentes pelo mundo, abriu sucursais nos EUA e criou novas editorias. Com isso, levou ao Post um senso de ambição. O jornal, que até então havia ganhado quatro Pulitzers, apenas um por reportagem, ganhou mais 17 nos anos seguintes – incluindo a mais importante categoria da premiação, de Serviço Público, pela cobertura de Watergate.

O escândalo político teve início quando dois repórteres do Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, desconfiaram de uma invasão à sede do Partido Democrata em Washington, em 1972, minimizada pela Casa Branca republicana de Richard Nixon como uma simples tentativa de assalto – Watergate era o nome do edifício onde ficava o escritório. Sob a liderança de Bradlee, Woodward e Bernstein expuseram um vasto esquema de espionagem que chegava até a Casa Branca, o que acabou levando à renúncia de Nixon, em 1974.

“Ele tinha presença, era uma força”, lembra Woodward sobre o papel de Bradlee durante a cobertura do escândalo. “E ele era um cético”. O objetivo de Bradlee, como editor, era fazer com que o Post fosse notado. Neste sentindo, ele adorava Watergate porque o caso deu ao jornal “impacto” – sua palavra preferida nos primeiros anos de chefia da redação. A cobertura inspirou jovens americanos, que passaram a lotar as escolas de jornalismo querendo ser novos Woodwards e Bernsteins. O jornalismo também mudou; tornou-se mais cético. “A partir de Watergate, eu comecei a procurar a verdade depois de ouvir a versão oficial da verdade”, escreveu Bradlee.

“O melhor editor de seu tempo”

Mas talvez a decisão mais importante do editor tenha sido a de publicar, em 1971, as informações contidas nos chamados Papéis do Pentágono, um documento ultrassecreto do governo dos EUA sobre o planejamento da guerra do Vietnã que foi vazado para o New York Times e para o Post. Bradlee a tomou em conjunto com a então publisher do Post, Katharine Graham. O governo Nixon foi à justiça tentar proibir a divulgação, mas a Suprema Corte sustentou a decisão do Post e do New York Times de publicar as informações vazadas. A publicação dos Papéis do Pentágono, lembrou Bradlee anos mais tarde, criou “entre os Grahams e a redação um senso de confiança no Post, um sentido de missão”.

Em 1994, três anos após a aposentadoria de Bradlee, Katharine Graham afirmou que “muito do Post é Ben”, completando: “Ele o criou como o conhecemos hoje”. Para Donald E. Graham, que sucedeu a mãe, Katharine, no posto de publisher, Bradlee foi “o melhor editor de jornais dos EUA de seu tempo”.

Em 2013, o ex-editor foi homenageado pelo presidente Barack Obama com a Medalha Presidencial da Liberdade, maior condecoração civil dos EUA. “Ele transformou aquele jornal em um dos melhores do mundo”, destacou Obama, na ocasião.

O menino Jimmy

A força motivadora de Bradlee na redação criou um ambiente tão jornalisticamente ambicioso que acabou, de certo modo, cegando todos os que faziam parte dele. Em um dos episódios mais vergonhosos da história do jornal, Bradlee e os editores abaixo dele foram enganados por uma jovem repórter que inventou uma história sobre um menino de oito anos viciado em heroína.

Só depois que a reportagem ganhou um Pulitzer, descobriu-se que a repórter, Janet Cooke, não apenas havia inventado o personagem, Jimmy, como também era falso o currículo que apresentou para ser contratada pelo Post. Pressionada por Bradlee e por seus editores, Janet acabou confessando suas mentiras, e o editor-executivo devolveu o Pulitzer.

Foi Bradlee quem criou, em 1970, o cargo de ombudsman no Post, tornando-o o primeiro grande jornal americano a empregar um crítico independente. Diante do episódio do “menino Jimmy”, ele deu ao então ocupante do posto, Bill Green, sua maior missão: investigar como a falha aconteceu. Green produziu um relatório detalhado onde descrevia uma redação onde a ânsia pelo “impacto jornalístico” era tão grande que passou por cima de qualquer dúvida que experientes repórteres e editores pudessem ter sobre a existência de Jimmy. Bradlee ofereceu seu cargo, mas o publisher Donald Graham não aceitou a demissão.

De copy boy a editor-executivo

Bradlee teve sua primeira experiência jornalística aos 15 anos, quando o pai arranjou para ele um emprego como “copy boy” – espécie de estagiário que tirava as fitas de papel do telégrafo e as levava para as mesas dos jornalistas – no Beverly Evening Times, de Massachusetts. O jovem conseguia aumentar seu salário, que era de cinco dólares por semana, reportando eventos da vida de cidadãos locais. Em seu livro de memórias A Good Life, Bradlee conta que, nesta época, aprendeu uma lição vital: “as pessoas falam quando se sentem confortáveis”.

Ele estudou em Harvard, onde se graduou, em 1942, em inglês e grego, e passou os três anos seguintes na Marinha, lutando na Segunda Guerra Mundial. Ao voltar, fundou um jornal semanal com um amigo. O New Hampshire Sunday News acabou fechando por falta de dinheiro, e, por indicação de um conhecido, Bradlee conseguiu um emprego no Washington Post. Ele gostava do jornal, mas sabia que estava em um momento financeiramente ruim e que não cresceria nos anos seguintes. Por isso, aceitou quando um amigo o indicou para trabalhar na embaixada americana em Paris.

Apesar de amar a vida na capital francesa, Bradlee não se encontrou na diplomacia, e acabou retornando ao jornalismo dois anos e meio depois. Tornou-se correspondente da Newsweek na Europa, quando cobriu guerras na Argélia e Oriente Médio, conferências pela paz em Genebra e até o casamento da atriz Grace Kelly e o príncipe Rainier, de Mônaco.

A Newsweek, que no início da década de 60 ia mal das pernas, acabou comprada por Philip e Katharine Graham, por influência de Bradlee, que ouviu rumores de que a revista seria posta à venda e ligou para eles. Em troca, recebeu do casal ações do Washington Post, uma espécie de “comissão” por tê-los alertado da oportunidade. Ao longo dos anos, as ações passaram a valer milhões de dólares. Philip Graham também o nomeou chefe da sucursal de Washington da Newsweek. Bradlee tinha uma das melhores fontes da capital: era amigo do presidente John Kennedy, de quem havia sido vizinho.

Em 1963, além do assassinato de Kennedy, outra morte trágica o abalou: Philip Graham cometeu suicídio. Katharine assumiu o lugar do marido na empresa e, a partir daí, começou a perceber que seu jornal não era tão bom quanto pensava ou gostaria. Assim, em um processo de mudança na tentativa de dar novo fôlego ao Post, Bradlee voltou, em 1965, ao diário.

Bradlee foi casado por três vezes. Ele deixa a mulher, a jornalista e escritora Sally Quinn; o filho deles, Quinn Bradlee; três filhos dos casamentos anteriores, Benjamin Bradlee Jr., Dominic Bradlee e Marina Murdock; 10 netos e um bisneto. 

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