Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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DOSSIê MURDOCH - PARTE 2 >

Murdoch e a dívida pública americana

Por Moisés Naím em 25/07/2011 na edição 652

Dois acontecimentos chamaram a atenção do mundo nesta semana. Um muito importante, mas chato, e outro menos importante, mas fascinante. Embora não pareça, os dois estão relacionados.

O primeiro, o entediante, é a negociação para permitir que o governo americano possa continuar a pedir empréstimos. O segundo, menos importante mas mais divertido, foi o comparecimento diante de um comitê do Parlamento inglês de Rupert Murdoch e seu filho James. Como é sabido, os tabloides de Murdoch foram acusados de ter feito escutas ilegais de conversas telefônicas de líderes políticos, estrelas de cinema, de uma menina assassinada e de vítimas dos atentados de 11 de Setembro em Nova York. Também de terem pagado policiais para obter informações escandalosas.

O comparecimento dos Murdoch foi boa TV. Como não assistir a um dos homens mais poderosos do mundo pedindo perdão, explicando que não sabia nada sobre os malfeitos de suas empresas e colocando a culpa em seus empregados? Como desgrudar-se da tela quando Wendi Deng (42 anos), a atraente esposa chinesa de Murdoch (80), se atirou sobre um homem que tentou jogar um prato de creme de barbear sobre seu marido? Imperdível.

Enquanto esse melodrama acontecia em Londres, em Washington democratas e republicanos levavam adiante suas negociações entediantes para evitar que em 3 de agosto falte dinheiro ao governo para pagar suas contas, o que requer elevar o limite do endividamento público.

Alguns republicanos enxergam nesta negociação uma oportunidade para reduzir os gastos públicos. Os democratas querem elevar os impostos cobrados dos mais ricos.

Tea Party e Fox News

Os dois lados têm razão; ambas as reformas são necessárias. Quem não tem razão são os deputados do Tea Party, que tentaram utilizar essa circunstância para tentar mudar o Estado radicalmente.

Segundo eles, sua missão é canalizar as frustrações da classe média afetada pela recessão. De passagem, também buscavam impor uma grande derrota a Barack Obama.

Estridente, radical e intransigente, o Tea Party não é uma ala a mais do Partido Republicano. Antes, representa uma tomada hostil desse partido, que inclui o desejo de privar de poder os líderes tradicionais que aceitam que a política obriga a que se façam concessões.

Os muitos parlamentares do Tea Party eleitos ao Congresso pela primeira vez em 2010 não veem assim. Não teriam se importado em causar o fracasso destas negociações, nem que isso pudesse ter provocado uma crise financeira mundial. O que tudo isso tem a ver com Rupert Murdoch? Acontece que o Tea Party deve sua ascensão rapidíssima e sua influência atual à Fox, a rede de televisão de Murdoch.

A Fox promoveu o Tea Party quando, em 2009, este surgiu como um agrupamento microscópico de descontentes. A cobertura, o estímulo e a promoção fizeram com que esses grupos, cuja mensagem populista obviamente encontra apoio no país, crescessem rapidamente. São estes os deputados que puseram em risco o acordo. E são bom exemplo de como um indivíduo, Murdoch, pode influir na economia mundial, algo nada entediante.

 

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