Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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DOSSIê MURDOCH - PARTE 2 >

Não é a queda do Muro de Berlim

Por Simon Jenkins em 25/07/2011 na edição 652

James e Rupert Murdoch apresentam-se ao comitê para cultura, mídia e esporte da Câmara dos Comuns. A Grã-Bretanha enlouqueceu – ou, pelo menos, a pequena franja da Grã-Bretanha nas cercanias da abadia de Westminster. O Pentágono descreveria o fato como uma reação em cadeia abrangente e incontrolável que parece não ser possível deter. Os novos teóricos do êxtase denominam um “jato” [whooshing] quando a razão dá lugar à paixão e o pensamento dá lugar à imaginação. Como por ocasião da morte da princesa Diana, quando todos os políticos e comentaristas gritavam: “O mundo jamais voltará a ser o mesmo.” Normalmente, o mundo volta a ser o mesmo.

Hoje, Rupert Murdoch e seu filho foram convocados a comparecer perante o Parlamento e desempenharam o papel surrealista de um pai já velho que fica vagamente sabendo que seu filho fez algo lamentável no recesso familiar. Paralelamente, o primeiro-ministro David Cameron foi forçado a voltar de uma viagem ao exterior, tal como um ditador é convocado às pressas pelo comitê central quando demonstra instabilidade. As principais chefias da polícia metropolitana e da polícia de combate ao terrorismo foram obrigadas a renunciar. Foram abertos dois inquéritos governamentais. Dois comitês criados na Câmara dos Comuns estão em sessão permanente. A polícia está por toda parte. Jornalistas e membros do parlamento vão ao chão e chutam alegremente suas pernas para o ar.

Teria alguém sido assassinado? Teria alguém perdido tudo? Estaria a nação às voltas com uma crise financeira, com uma pandemia, com um terremoto, com a fome? Teriam milhares ou milhões de sem-teto ido à ruína? Uma sórdida vigilância desse tipo, que há muito vinha sendo feita pela imprensa de tabloides, foi muito além do que neste ofício se chama humoristicamente bom gosto e constitui um crime.

Policiais que vendem dicas

O fato de todo mundo saber que jornalistas e policiais estavam envolvidos em transações ilegais de pouca monta não o torna aceitável – muito menos, legal. Também não é edificante saber até que ponto políticos e editores frequentam as casas uns dos outros. Mas não se trata da queda do Muro de Berlim ou dos julgamentos de Nuremberg. O público pisoteado não faz passeatas contra o Grande Satã, Rupert Murdoch, descrito pelo programa Today, da BBC, como o “mais maléfico homem do mundo”. Possivelmente, o público está com mais raiva por ter perdido seu jornal preferido. Existe um limite quanto à amplitude do significado que qualquer acontecimento possa acarretar sem implodir em histeria insana.

Há anos que o Parlamento tem conhecimento dos truques sujos dos tabloides. O relatório de 2006 do tão citado Departamento de Informação da Polícia examinou o uso pela imprensa (e outros) de detetives particulares e listou nomes e jornais. No caso das subempreiteiras do News of the World, quando uma agressão criminosa era revelada e cercada de mentiras e evasivas, a investigação que Nick Davies fez para o Guardian foi totalmente apropriada, mesmo antes da violação do celular de Milly Dowler ter provocado tamanha raiva no público.

Foi acertado que os editores responsáveis pela escuta ilegal tenham se demitido. E foi errado que Cameron tenha contratado Andy Coulson, supostamente aceitando uma sugestão de George Osborne. Ele deveria saber que todos os editores do News of the World têm um passado. Outra coisa que, sem dúvida, deveria ser feita é quanto aos policiais que vendem dicas, uma prática de há muito tempo. Essas coisas são erradas, mas no espectro da maldade nacional, nem tanto assim.

“O monopolista todo-poderoso”

Mas há o lado positivo dessas erupções. O furacão da morte de Diana tirou a família real de sua introversão. A guerra do Iraque revelou a corrupção alarmante da informação pela política. O caso do News of the World arrastou os donos de jornais a responderem por sua segurança perante um comitê parlamentar. Não há perigo algum em chamar aqueles que dominam a mídia a prestar contas.

Assim como não há perigo algum na rivalidade comercial que levou esta história a ser intrinsecamente ruim, se comprovada sua autenticidade. Nada há de surpreendente que os críticos mais duros de Murdoch sejam também seus mais ferozes competidores – o Guardian e a BBC. A emissora Sky, de propriedade de Murdoch, é a única que preocupa o domínio absoluto da BBC no rádio, na televisão e no mercado online. A BBC deu destaque ao caso todos os dias, nas duas últimas semanas, apesar do estado das finanças da Europa, da fome que se dissemina por toda a África e do desafio feito por David Cameron ao Estado de bem-estar social. A BBC pagou caro pelos ataques que sofreu da parte da imprensa de Murdoch e, evidentemente, não resistiu em revidar.

A pele do corpo político, às vezes, pode precisar de ser depilada para erradicar o enxame de micróbios que está por baixo. A porta giratória entre mídia, política e polícia nada tem de edificante ou de legal. Mas, com certeza, o crédito para que suas atividades sejam esclarecidas se deve à imprensa britânica e sua força competitiva, e não a uma regulação externa ou do governo. Se Murdoch porventura já foi “o monopolista todo-poderoso que governa a Grã-Bretanha”, definitivamente não o parece.

O “equilíbrio” da imprensa

O grande perigo da atual badalação do escândalo das escutas clandestinas pode estar no que virá a seguir. Raramente se viu a lei das consequências não propositais pairando de forma tão ameaçadora quanto hoje, na sala do comitê da Câmara dos Comuns. A imprensa inglesa deveria ser prudente quanto ao que aparentemente deseja – caso isso lhe seja concedido.

Rindo à toa com a possível queda de Murdoch proporcionada por seus rivais, os partidos Trabalhista e Liberal Democrata já pedem freios estatutários para a propriedade dos meios de comunicação. Ed Miliband, líder trabalhista, quer que o grupo News International, de Murdoch, seja separado, supõe-se que para impedi-lo de ter a propriedade de dois jornais diários. Talvez ele tenha que vir a enfrentar a família Lebedev, que detém dois títulos, e o Daily Mail, que alguns consideram atualmente o maior grupo de imprensa britânico.

É difícil compreender o verdadeiro motivo para tirar, por exemplo, o Times do controle de Murdoch. Diz-se que suas perdas são tão grandes que poderia até fechar, ou ser dilapidado por um novo dono. Houve sugestões de que fossem banidos os jornais que são mantidos mais por vaidade que por lucro, por meio de subsídios entrecruzados ou por proprietários estrangeiros. Para qualquer dessas propostas, seria mais provável ver jornais fechando as portas do que abrindo. Neil Kinnock, o antecessor de Miliband, pediu hoje uma regulação que garanta o “equilíbrio” da imprensa. Não dá para compreender claramente o que ele pretende.

Tentativa de reestruturar a indústria

A propriedade de jornais sempre foi insana e excêntrica, dominada pelo ego e pelo desejo de glória. Raramente tem algo a ver com lucro. Se tivesse, a história recente dos jornais britânicos teria sido uma miséria. A influência de Murdoch sobre os tabloides foi calamitosa, embora ele não tenha sido o único a fazê-lo. Sua influência sobre a indústria da mídia, de uma maneira geral, foi inovadora – enfrentando sindicatos, cortando custos de produção, televisão paga etc. Todos os jornais ganharam com isso, embora detestem ter que reconhecê-lo.

Nada disso justifica enganar o parlamento ou grampear telefones. Esses são erros sérios. Mas a nuvem de histeria de hoje é um prelúdio ruim daquilo que pode vir a emergir – não uma tentativa sensata de redefinir a ética jornalística, mas uma tentativa desajeitada de reestruturar uma indústria. De outra maneira, talvez os amplos recursos políticos e da imprensa que atualmente são exibidos pudessem ser re-dirigidos para o estado crítico da nação, da Europa e do mundo, que precisam disso.

P.S.: Este artigo foi corrigido no dia 19 de julho de 2011. Anteriormente, constava que Rebekah Brooks teria provavelmente sugerido a David Cameron a contratação de Andy Coulson. Isso foi mudado.

***

[Simon Jenkins é jornalista do Guardian]

 

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