Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

MONITOR DA IMPRENSA > CASO FLORENCE AUBENAS

Notícia de um seqüestro misterioso

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 15/03/2005 na edição 320

Depois da libertação rocambolesca da jornalista italiana Giuliana Sgrena, a diplomacia e os serviços de informação franceses ainda estão envolvidos num nó difícil de desatar para chegar aos seqüestradores de Florence Aubenas, enviada especial do jornal Libération ao Iraque, desaparecida com seu guia desde o dia 5 de janeiro, em Bagdá.


O caso de Florence é muito complicado. Ao contrário da jornalista italiana, seu seqüestro não foi reivindicado por nenhum grupo. Quem são os seqüestradores e por que não fizeram nenhuma exigência até hoje?


Tudo ficou ainda mais confuso quando, quase 60 dias depois do desaparecimento da jornalista e de seu intérprete Hussein Hanoun, um vídeo divulgado pela televisão francesa, em 1º de março, mostrou Florence Aubenas magra, abatida e com ar desesperado dizendo um texto que tinha tudo para ter sido ditado por seus seqüestradores:


"Meu nome é Florence Aubenas. Sou jornalista francesa do jornal Libération. Faço um apelo ao deputado francês Didier Julia. Por favor, senhor Julia, me ajude".


A pista síria


O deputado Didier Julia, da maioria gaullista que apóia o presidente Jacques Chirac, ficou conhecido em todo o mundo quando se envolveu na libertação dos jornalistas franceses Christian Chesnot e Georges Malbrunot – no que a imprensa francesa julgou ser um golpe publicitário disfarçado em ação humanitária, dado por um personagem ambíguo.


O deputado, que tinha boas relações com o antigo regime iraquiano e mantém ligações não muito claras na Síria, foi ao Oriente Médio e voltou à França sem nenhum sucesso na sua empreitada. Dois de seus colaboradores estão sob controle judiciário por conta do fiasco das negociações que envolveram mentiras comprovadas e histórias mal contadas.


Depois do pedido desesperado de socorro de Florence, Didier Julia voltou às manchetes, apesar de ter sido muito criticado por toda a imprensa francesa no affaire dos dois jornalistas libertados em dezembro. Agora, numa declaração à TV, Julia acrescentou uma pitada de mistério ao caso Aubenas: admitiu que os seqüestradores da repórter do Libération são "pessoas que o conhecem" e que ele provavelmente conhece.


O primeiro-ministro Jean-Pierre Raffarin, que não disfarça sua antipatia por Julia, viu-se na obrigação de pedir ao deputado que colabore com os serviços de informação franceses para ajudar na libertação de Florence.


A mídia francesa voltou a mencionar a Síria como suspeita do seqüestro. Vários analistas árabes, estudiosos do problema do terrorismo islâmico, declararam à imprensa francesa, off the records, que a pista síria não está excluída no seqüestro nunca reivindicado.


Diplomacia paralela


O deputado Alain Marsaud – do UMP, mesmo partido de Julia – declarou que o caso parecia uma "enorme manipulação da Síria". Por que a Síria se envolveria nesse caso? Elementar: a França, juntamente com os Estados Unidos, apoiou a resolução do Conselho de Segurança da ONU pedindo a saída das tropas sírias do Líbano.


No meio da semana passada, Didier Julia lançou publicamente um "apelo solene" aos seqüestradores da jornalista e de seu intérprete, pedindo-lhes que os libertem "o mais rapidamente possível".


Ele se disse pronto a atender ao pedido dos seqüestradores de iniciar uma mediação e voltar ao Oriente Médio. Falastrão, Julia foi repreendido pelo líder de seu partido por ter declarado à televisão italiana que se Florence Aubenas fosse filha de Raffarin, as negociações para sua libertação já teriam sido iniciadas e talvez tivessem até mesmo sido concluídas.


Irritado, o primeiro-ministro Raffarin excluiu toda e qualquer possibilidade de intervenção do deputado Julia nas negociações secretíssimas mantidas pelos serviços de inteligência franceses com a ajuda do Ministério das Relações Exteriores. No mesmo dia, Raffarin lançou um apelo direto aos seqüestradores de Florence Aubenas para uma libertação rápida, mas alertou-os a tratarem apenas com os serviços oficiais do governo francês. Era um recado direto ao deputado Didier Julia e a qualquer tentativa deste de manter sua diplomacia paralela. Antes, os serviços secretos interrogaram o deputado para que ele fornecesse toda informação útil à libertação dos seqüestrados.


Jacqueline Aubenas, mãe de Florence, declarou-se "indignada" com toda a querela político-diplomática em torno da libertação de sua filha.

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