Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MONITOR DA IMPRENSA > REDE GLOBO

O Bom-dia Brasil e o mau jornalismo

Por Fabio de Oliveira Ribeiro em 01/12/2009 na edição 566

Na manhã de sexta-feira (27/11/2009) ficou evidente que não existem limites para os pupilos de Ali Kamel. Ao fazer a cobertura das panes na distribuição de energia na cidade do Rio de Janeiro, o âncora do Bom Dia Brasil relacionou estes episódios diretamente ao apagão em 19 estados da federação provocado pela falha na transmissão de energia de Itaipu ocorrida há alguns dias.

Os jornalistas da Globo ainda não aprenderam que há uma diferença entre a geração, transmissão e distribuição de energia elétrica? Impossível, pois todas as informações necessárias sobre a estrutura do setor elétrico brasileiro estão disponibilizadas na internet.

As empresas que operam na geração, transmissão e distribuição de energia são distintas. Algumas são públicas, outras têm capital público e privado e a maioria é de capital privado. As relações comerciais e técnicas entre as diversas empresas são evidentes e indispensáveis. Afinal, as distribuidoras não podem distribuir uma energia elétrica que não foi gerada ou transmitida. Mas a falha na distribuição não está necessariamente ligada a defeitos na geração e transmissão de energia.

O conteúdo da matéria levada ao ar pelo Bom Dia Brasil evidencia que os problemas no Rio de Janeiro são locais. Portanto, sem qualquer relação com o apagão ocorrido por defeito na transmissão de energia de Itaipu. Não havia motivo técnico ou jornalístico para o âncora relacionar os dois episódios.

O deslize do pupilo do Ali Kamel, que me pareceu proposital, é um excelente exemplo de argumento inválido.

Comportamentos antiéticos e nocivos

‘Uma forma de argumento é válida quando não é possível que um argumento com essa forma tenha premissas verdadeiras e uma conclusão falsa. O conceito de validade tem, então, certa generalidade – podemos dizer, a respeito de qualquer argumento que tenha forma válida que, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão tem que ser verdadeira. A validade de uma forma garante a validade de todos os inúmeros argumentos que tenham essa forma. Por exemplo, qualquer argumento que tenha a forma de modus ponens é valido, seja qual for o assunto de que trate.

Nos argumentos inválidos, no entanto, a forma não tem a mesma garantia de generalidade. Essa assimetria entre validade e invalidade existe porque é possível que um argumento tenha mais de uma forma’ (Lógica informal, Douglas N. Walton, Martins Fontes, 2006).

O argumento do ancora do Bom Dia Brasil pode ser reduzido à seguinte fórmula: a falta de energia durante o apagão é igual à falta de energia em alguns bairros do Rio de Janeiro. Portanto, as mesmas autoridades são responsáveis pelos dois episódios.

Como vimos acima, as empresas que exploram a geração, transmissão e distribuição de energia são distintas. Em razão das características do setor elétrico brasileiro (cujas informações estão à disposição, inclusive, dos jornalistas da Globo), a ausência de energia elétrica no Rio de Janeiro durante o apagão (que ocorreu por falha na transmissão da energia gerada por Itaipu) é diferente da falta de distribuição de energia elétrica em alguns bairros do Rio de Janeiro (que ocorreu por falha na distribuição local de energia).

Com apoio de Walton, podemos concluir que o argumento do âncora do Bom dia Brasil é inválido. Culpar as autoridades federais por um problema local não é só mau jornalismo; é um exemplo grosseiro de má-fé. Eu não ficaria triste se a legislação fosse mudada de maneira a permitir a punição da empresa jornalística e do jornalista por comportamentos tão antiéticos e nocivos.

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Advogado, Osasco, SP

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