Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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O dia em que tremi diante do poeta

Por Rogério Marques em 08/02/2011 na edição 628

Foi ele, o grande poeta e jornalista Reynaldo Jardim, que perdemos no dia 2 de fevereiro, que cometeu o desatino de me empregar num jornal pela primeira vez, o Correio da Manhã. Estava eu na inexperiência dos meus 19 anos e fazia um estágio na revisão do velho diário, que já não era o mesmo após o Ato 5. O Correio era dirigido então por Mário, Marcelo e Maurício Alencar. Com fins políticos, eles arrendaram o jornal de Niomar Bittencourt depois que o Correio foi silenciado pelos militares em 1968. Mas a verdade é que os irmãos Alencar introduziram no jornal algumas reformas interessantes, na área da cultura. Não foi à toa que mantiveram Reynaldo Jardim como um dos diretores.

O poeta já era então um nome respeitadíssimo como jornalista e artista gráfico. Havia participado da famosa reforma do Jornal do Brasil nos anos 1950, onde criou o Suplemento Dominical, que logo se tornou uma referência na área da cultura em todo o país. Em 1967, outra experiência inovadora do poeta: o jornal O Sol, que nasceu como um suplemento do Jornal dos Sports, onde Reynaldo trabalhava, e depois ganhou vida própria. O Sol era um jornal-laboratório onde os chefes eram jornalistas experientes e os repórteres, universitários, a maioria das faculdades de Jornalismo. No Correio da Manhã também introduziu e incentivou mudanças de vanguarda no setor cultural.

A fuga pelos fundos do prédio

Nas escadas e elevadores, eu achava o máximo esbarrar diariamente com figuras como Torquato Neto, Luiz Carlos Sá e Waly Salomão – na época, Sailormoon –, que faziam o caderno de música ‘Plug’, de curta existência, editado por Sá, do qual talvez apenas a Biblioteca Nacional possua alguns exemplares. Os ventos modernos levados ao jornal por Reynaldo Jardim sopravam em todos os cantos e também nas imediações.

Nos bares em frente ao Correio eu via, em carne, osso e cabelos, os irreverentes atores de Hair, em cartaz no Teatro Novo, onde hoje funciona a TV Brasil. Foi ali que a peça estreou no Rio. O Teatro Novo ganhou este nome após uma grande reforma do velho Teatro República, palco de bailes gay, já naqueles tempos, onde um certo malandro desfilou com a fantasia de Madame Satã e assim ficou conhecido até o fim de seus dias.

Em meados de 1968, eu já tinha tentado uma vaga no Correio. Passei três meses estagiando, mas era menor de idade e tinha pela frente o serviço militar. O chefe alegou que, por lei, teria que guardar minha vaga durante esse período. Por isso não me contratou. Pior que não ter conseguido o emprego foi perder, ao vivo, a famosa invasão do jornal em dezembro de 1968. Com o jornal cercado pelos milicos, armários e gavetas foram esvaziados às pressas, um tiro foi disparado na portaria e chefes da redação e a própria dona do Correio, Niomar Bittencourt, fugiram pelos fundos do prédio, que dava para a Rua do Lavradio, onde ainda hoje funciona uma loja de móveis antigos. Os trilhos dos carrinhos que transportavam as imensas bobinas de papel continuam lá e os clientes nem imaginam o que é aquilo, ou os momentos dramáticos vividos naquele ambiente há pouco mais de quatro décadas.

A festa acabou em 1974

Voltei ao Correio aos 19 anos, depois de conseguir ser dispensado do serviço militar. Após novo estágio, e nada de contratação, recorri a um tio querido, o radialista Paulo Roberto, demitido da Rádio Nacional junto com Mário Lago, Jorge Goulart e tantos outros, na famosa caça às bruxas de 64. Meu tio era velho amigo do Reynaldo Jardim e bastou um telefonema dele para o poeta. No dia seguinte lá estava eu em sua ampla sala no quarto ou quinto andar do prédio da Avenida Gomes Freire. Tímido, inseguro, cheguei a tremer diante de um enorme desafio: convencer o diretor de que o jornal que um dia teve em sua equipe de revisores intelectuais como Graciliano Ramos faria um bom negócio contratando um foca com um português claudicante.

Reynaldo me ouviu com paciência, foi simpático, talvez por consideração ao meu tio. No pouco tempo em que estive diante dele uma coisa me chamou atenção: o poeta era moderno também na maneira como se vestia. É bom lembrar que naquela época quem tinha mais de 40 anos era considerado quase um velho. Nos despedimos sem que ele me prometesse nada. Uma semana depois, finalmente, minha carteira foi assinada. Depois de dois anos, fui promovido a secretário gráfico e tive meu salário triplicado. Mais dois anos e a festa acabou: em 1974, o jornal que em 64 apoiou a deposição de Jango – e logo depois se arrependeu – parou as máquinas, desta vez para sempre, vítima do regime que ajudou a encastelar no poder.

Reynaldo Jardim não presenciou o fim melancólico do Correio da Manhã. Deixou o jornal dois anos antes de seu fechamento para continuar fazendo o que sempre fez na vida: criar, inovar, espalhar cultura por onde passou.

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Jornalista

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