Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O Estado de S. Paulo

06/05/2008 na edição 484

CASOS CÉLEBRES
Miguel Reale Júnior

Mídia e Justiça

‘Em valioso livro, Casos Criminais Célebres (RT, 1998), René Ariel Dotti alerta para as dúvidas em que navegam a liberdade e a responsabilidade da imprensa. Básicos numa sociedade democrática, a liberdade de informar e o direito de ser informado podem, no entanto, transbordar ao se transformar a mídia em tribunal sem apelação. Nos casos criminais mais famosos a imprensa tomou partido, presumiu culpas, decretou inocências.

Caso ainda hoje duvidoso foi o crime do Sacopã. Na manhã de 7 de abril de 1952, num Citroën preto, largado na Ladeira do Sacopã, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas, jazia o corpo do bancário Afrânio Arsênio de Lemos, abatido com três tiros de revólver.

As investigações dirigiram o foco para a antiga namorada, Marina de Andrade, moça charmosa e elegante. A imprensa cercou Marina de todos os lados. O jovem tenente-aviador Alberto Bandeira era o namorado dela na época. Marina passou a ser vista pela polícia e por parte da imprensa como o ‘pivô’ do crime e Bandeira como o assassino.

O advogado Leopoldo Heitor, depois envolvido no desaparecimento da milionária Dana de Teffé, dizia à imprensa que um seu cliente fora testemunha ocular dos fatos. Foco das atenções, Leopoldo Heitor revelou ter Walton Avancini testemunhado o crime. Este declarou, por sua vez: ‘Eu me encontrava no Citroën quando se deu o crime e foi o tenente Bandeira quem matou Afrânio.’

Havia, por outro lado, fortes boatos de que influente senador da República estaria manobrando para incriminar o tenente Bandeira. Segundo boatos, a filha do senador, conhecida no ‘café society’ como Mimi, teria tido um namoro com Afrânio, que certa feita a espancara no Clube Caiçaras. Constava que o irmão de Mimi teria contratado dois homens para matar o bancário, um dos quais o próprio Walton.

A imprensa dividiu-se: a famosa revista O Cruzeiro transformou-se em tribuna de defesa; o jornal O Globo, em assistência da acusação. Como resultado, o tenente Bandeira foi condenado a 15 anos de prisão, dos quais cumpriu sete. Em 1972, o Supremo Tribunal Federal anulou o julgamento e o crime prescreveu em 1973.

Há 50 anos, Copacabana foi o palco de morte que convulsionou o País: Aída Curi, mocinha de 18 anos, terminou os seus dias no asfalto da Avenida Atlântica, provavelmente jogada do último andar do Edifício Nobre, aonde fora a convite de dois playboys que personificavam a então juventude transviada: Ronaldo Guilherme de Castro e Cássio Murilo Ferreira, menor de 18 anos, sobrinho de um coronel do Departamento de Ordem Política.

A imprensa, pelo envolvimento de jovens de classe média, passou a cobrir o fato com sofreguidão. O jornalista David Nasser veio a ser, na revista O Cruzeiro, o assistente de acusação em defesa da memória da jovem.

O laudo necroscópico revelava apresentar o cadáver ‘escoriações e equimoses provocadas por unhadas e socos. No peito, no lado esquerdo, havia sinais de profundas unhadas. Arranhões nas coxas, ventre, pescoço e equimoses no abdômen. Houve ruptura interna do lábio superior devido a um soco. Tentativas de estrangulamento. Sinais de bofetão no queixo. Marcas de defesa nos braços, antebraços, punhos e dorso das mãos, bem como no tórax que podiam ser conseqüência de mordida’.

Ronaldo veio a ser impronunciado pelo juiz Souza Neto, que não viu indícios suficientes de autoria a justificar o julgamento pelo Júri. Houve inconformidade popular. A imprensa colocou o juiz no banco dos réus. A emoção tomara conta do País. O Tribunal de Justiça modificou a sentença e Ronaldo enfrentou o Júri, no qual veio a ser condenado a 37 anos de reclusão. Ao sair, populares gritavam: ‘Assassino!’ Dias depois, surgiu uma testemunha-bomba: uma senhora confirmava ter estado num banco da praia ao lado de um rapaz e de uma moça, a Ziza, quando depois se percebeu aglomeração diante do corpo caído de Aída. O rapaz era Ronaldo, conforme depois vira na imprensa. A condenação injusta a fizera depor, rompendo o receio de se envolver.

Em novo julgamento Ronaldo foi, então, absolvido e aplaudido ao sair do Júri. Em terceiro julgamento veio a ser condenado a oito anos de prisão.

Já presente a televisão na vida nacional, a força da imprensa mostrou-se ativa no julgamento do homicídio de Ângela Diniz. A Rede Globo, coincidentemente, entre o primeiro julgamento, quando reconhecida a legítima defesa, e o segundo, em que houve condenação, aderiu aos movimentos feministas contra o acusado, Doca Street.

Agora, em face da triste morte da pequena Isabella, há imenso delírio da mídia, gerando o paroxismo da morbidez na curiosidade e na raiva intensas da população, que grita: ‘Assassinos!’ A audiência de noticiários cresceu mais de 40%. As emissoras contrataram profissionais para a cobertura jornalística. Especialistas de toda ordem

dão palpites na mídia. O promotor vai ao Fantástico, lá vão os indiciados. O processo corre diante das câmeras televisivas.

A mídia entra diretamente em competição com a Justiça. A imprensa pretende revelar a verdade para que a opinião pública seja o juiz, sem as precauções do devido processo, sem a presunção de inocência, sem as regras estritas do contraditório.

É difícil ter a garantia de que a busca de elevação dos índices de audiência coincida com a revelação objetiva da verdade. São interesses inconciliáveis numa imprensa sensacionalista. Como, então, enfrentar o impacto da mídia na Justiça, que dita condenações, elegendo apressadamente autores, ou promove absolvições injustas?

Só pela prudência a ser alcançada pela efetiva auto-regulação da mídia e pela eficácia de preceitos éticos, tal como dispõe o Código de Ética dos Advogados, segundo o qual o advogado deve evitar na imprensa a promoção profissional, o debate de caráter sensacionalista, bem como a manifestação acerca de causa sob seu patrocínio ou de colega.

Miguel Reale Júnior, advogado, professor-titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça’

 

CUBA
O Estado de S. Paulo

Cubanos agora fazem fila para comprar computador

‘As lojas de artigos eletrônicos de Cuba começaram ontem a vender computadores à população, encerrando formalmente uma restrição anterior que só permitia a aquisição desses produtos por empresas ou estrangeiros.

A liberação da venda de produtos eletrônicos como computadores e aparelhos de DVD foi anunciada em 13 de março pelo governo de Raúl Castro, que prometeu eliminar o ‘excesso de proibições’ da ilha quando assumiu a presidência no lugar de Fidel Castro, em fevereiro.

Assim que uma loja do centro de Havana anunciou por meio de alto-falantes a venda de computadores – o único tipo de produto eletrônico que começou a ser comercializado ontem -, uma fila de curiosos e interessados formou-se do lado de fora. Muitos cubanos se aglomeraram em frente das vitrines para ver de perto os produtos.

CORRIDA

O gerente Javier Sánchez afirmou que quatro equipamentos foram vendidos em apenas uma hora e meia. No entanto, para a maioria da população, cujo salário médio é de 409 pesos cubanos (US$ 17), ter um computador em casa demandará paciência e tempo. Os preços variam de 555 a 711,5 pesos conversíveis (US$ 599 a US$ 768) – unidade monetária usada pelos estrangeiros que vale 24 vezes mais do que o peso cubano.

Até agora, os cidadãos cubanos só conseguiam adquirir computadores no mercado negro ou no exterior. ‘É uma oportunidade que não tinha antes. Até tenho um ano de garantia’, comemorou Caridad Paz, de 42 anos, uma das primeiras a comprar um micro.

Segundo a imprensa oficial, mais de 3,7 milhões de cubanos usaram computador no ano passado, mas apenas 5% desse total o fizeram em sua própria casa.

Desde que assumiu o poder, Raúl vem adotando uma série de pequenas reformas. Além de liberar a venda de eletrodomésticos, também permitiu o comércio de celulares e suspendeu uma proibição que impedia cubanos de se hospedar nos hotéis do país.

Para estimular a produção de alimentos, também descentralizou o setor agrícola, transferindo seu controle do Ministério do Agricultura para instâncias municipais.

RELIGIÃO

O papa Bento XVI defendeu ontem uma maior abertura dos meios de comunicação estatais cubanos à Igreja Católica. O pedido foi feito a representantes cubanos em visita ao Vaticano.’

 

MERCADO
Marianna Aragão

‘The Economist’ elogia o Brasil, mas consultoria não eleva nota

‘A revista inglesa The Economist, em reportagem publicada ontem, afirma que a elevação da nota de crédito de BB+ para BBB- pela Standard & Poor?s ‘surpreendeu o mercado financeiro’ e que ‘poucos investidores acreditavam que isso ocorreria antes do fim do ano, devido à atual incerteza global’. O texto diz que o grau de investimento é ‘um reconhecimento do importante progresso em gestão macroeconômica’ do País.

Ainda assim, a consultoria Economist Intelligence Unit (EIU), unidade de pesquisa do grupo que edita a revista inglesa, informou que vai manter a nota BB+ para o País – pouco abaixo do grau de investimento. Segundo o texto, um dos motivos da conservação é o enfraquecimento da conta corrente brasileira e os riscos que indicadores macroeconômicos básicos sofrem por causa do impacto da recessão norte-americana. A revista não descarta que a EIU possa fazer a elevação da nota brasileira no médio prazo.

Ainda segundo a The Economist, a conquista do grau de investimento evidencia que o País reduziu sua vulnerabilidade externa. ‘Em vez de reduzir de forma agressiva as taxas de juros durante os anos de bonança financeira e baixa inflação, o Banco Central manteve uma cautelosa política monetária’, informa.’

 

TELES
Leonardo Goy

Governo abre mão de deter ‘golden share’ na Oi-BrT

‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, disse ontem ao Estado que ‘está superada’ a questão de uma possível golden share (ação especial com direito a veto) que o governo poderia ter na supertele que será criada a partir da compra da Brasil Telecom (BrT) pela Oi.

‘A necessidade de golden share não existe mais. Isso está superado, resolvido. Olhando o que foi estabelecido no acordo da compra, para qualquer venda, em qualquer circunstância, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tem de ser ouvido. Desse modo, a golden share não se faz mais necessária’, explicou Costa.

Na prática, a declaração do ministro das Comunicações significa que, como o BNDES, na condição de acionista da Oi, tem de ser consultado sobre eventuais futuras transferências societárias, o governo já dispõe de mecanismos para evitar que o controle da nova empresa seja vendido a um grupo estrangeiro. Essa era a principal preocupação que vinha levando o governo a argumentar que deveria ter uma golden share na futura supertele.

Costa reuniu-se ontem, no Palácio do Planalto, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, e o presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Ronaldo Sardenberg. Eles discutiram as mudanças que precisam ser realizadas no Plano Geral de Outorgas (PGO) para permitir a concretização da operação Brasil Telecom/Oi. Atualmente, a legislação do setor impede que uma concessionária do serviço de telefonia fixa compre o controle de outra concessionária.

Costa disse ainda não ter idéia de quando serão concluídas as alterações no PGO. ‘Vai depender da posição da Anatel. Na hora em que ela decidir, terá de realizar audiência pública por 30 dias’, lembrou. O conselheiro da Anatel relator das mudanças no PGO, Pedro Ziller, já adiantou que concluirá seu parecer no final do mês.

Como haverá audiência pública por 30 dias para discussão do seu parecer, que terá de passar pelo Conselho Consultivo e pelo Conselho Diretor da Anatel para ser encaminhado ao Palácio do Planalto, prevê-se que só em julho o PGO estará modificado, por decreto do presidente da República, permitindo a oficialização da compra da Brasil Telecom pela Oi.

ACORDO

A operação de compra da Brasil Telecom pela Oi foi anunciada no fim da semana passada, após cerca de quatro meses de negociações. O acordo foi fechado por R$ 5,8 bilhões, mas toda a operação, que envolve uma grande reestruturação societária e também a possibilidade de uma oferta pública de compra das ações dos minoritários das empresas, pode chegar a mais de R$ 12 bilhões.

A empresa resultante da fusão, com base nos números do ano passado, seria a quarta maior companhia brasileira, segundo ranking elaborado pela consultoria Economática. Com receita líquida de R$ 28,6 bilhões, segundo dados de 2007, a nova empresa ficaria atrás apenas de Petrobrás, Vale e Gerdau, que apresentaram receita líquida de R$ 170,5 bilhões, R$ 64,7 bilhões e R$ 30,6 bilhões, respectivamente.

Para chegar ao acordo definitivo, os sócios tiveram de desfazer uma confusa teia de participações societárias. No final, o controle da nova empresa ficou nas mãos dos grupos Andrade Gutierrez, de Sergio Andrade, e La Fonte, de Carlos Jereissati, cada um com 19,34% da nova companhia, e da Fundação Atlântico, dos empregados da Telemar, que ficou com 11,5%. Pelo acordo, deixaram a controladora o Citigroup, o Opportunity e a GP Participações.’

 

Nilson Brandão Junior

Fusão de teles prevê multa bilionária para desistência

‘O contrato de venda da Brasil Telecom (BrT) para a Oi prevê uma multa bilionária para o caso de uma das duas partes desistir da operação. Se isso acontecer, uma parte terá de pagar à outra o equivalente a 30% do valor total da operação, prevista em R$ 5,8 bilhões. Ou seja, será obrigada a desembolsar R$ 1,78 bilhão. Além disso, também está prevista uma indenização de R$ 490 milhões para os acionistas da BrT para o caso de a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) não autorizar o negócio.

O detalhe de um dos maiores acordos recentes entre empresas no País foi confirmado ontem pelo sócio do Angra Partners, Alberto Guth. O Angra representou os interesses dos fundos de pensão e foi negociador das condições econômicas no acordo. ‘O objetivo do contrato não é a multa. É de fato fazer a operação. Isso é um contrato em que as partes têm todo o interesse que se cumpra’, disse o executivo. Segundo ele, o valor do negócio é atraente para os vendedores e uma questão estratégica para o comprador.

Guth fez parte da enorme quantidade de advogados e negociadores que participaram dos entendimentos para a venda das operadoras, que se arrastaram por cinco meses. Na última semana, ele chegou a ficar acordado até as seis horas da manhã, juntamente com outros profissionais, nas discussões finais da operação. Para continuarem acordados nas reuniões da reta final, consumiram caixas de bebidas energéticas nas reuniões que ocorreram na sede do escritório de advocacia Leoni Siqueira, no Centro do Rio.

O executivo explica que, na prática, os valores relativos à transação de venda da BrT serão pagos apenas depois da aprovação da Anatel, o que, na prática, permitirá a concretização da operação. Não há garantias oferecidas pelas partes, a não ser a existência da multa.

Diz, ainda, que as duas empresas atuarão de forma independente enquanto não sai a aprovação. ‘Até lé, a Telemar (Oi) não terá ingerência. Não será necessário qualquer waiver (autorização) da Telemar para que a BrT tome qualquer decisão’, explicou Guth, no escritório envidraçado do Angra, com vista para a Baía de Guanabara e o Cristo Redentor.

O executivo conta, também, que as conversas sobre o preço do bloco de controle da BrT, em dezembro, giravam em torno de R$ 3,5 bilhões. Os vendedores queriam R$ 5,2 bilhões. O acordo acabou saindo por R$ 4,98 bilhões – outros R$ 880 milhões serão pagos por participações diretas do Citi e do Opportunity na BrT. Como a BrT já estava decidida a pulverizar suas ações, ‘isso permitiu negociar melhor e convergir o preço para um patamar mais alto’.

Ele também lembra que os controladores acabaram revendendo por praticamente o dobro do preço a fatia da BrT que compraram em julho do ano passado da Telecom Itália. Isso porque o preço de US$ 515 milhões pago à empresa italiana representava R$ 34 por ação. O negócio foi quitado dezembro. Levando em conta o preço da venda do controle para a Oi, o valor por ação ficou em R$ 72. Ou seja, a mesma fatia comprada à TI foi vendida por pouco mais de US$ 1 bilhão para a Oi. ‘Foi um ganho espetacular’, afirma o executivo.’

 

TECNOLOGIA
O Estado de S. Paulo

Ações do Yahoo têm alta de 6,92%

‘As ações do Yahoo fecharam ontem em forte alta, de 6,92%, chegando a US$ 28,67, impulsionadas pela notícia de que a Microsoft aumentaria a oferta pela empresa. As negociações estavam paralisadas porque o Yahoo considerou insuficiente a proposta inicial de US$ 31 por ação. Segundo traders, a Microsoft pode fechar o negócio pagando entre US$ 33 e US$ 34 por ação. Os acionistas do Yahoo querem um valor entre US$ 35 e US$ 37.’

 

FOTOGRAFIA
Claudia H. Deutsch

Kodak busca no passado um caminho para o futuro

‘Steven J. Sasson, um engenheiro elétrico que inventou a primeira câmera digital na Eastman Kodak nos anos 1970, lembra bem a falta de entusiasmo da administração com o seu feito. ‘Meu protótipo era grande como uma torradeira, mas o pessoal técnico o adorou’, disse Sasson. ‘Mas era fotografia sem filme, por isso a reação da administração foi: ?Legal – mas não diga nada a ninguém.?’ Desde então, é claro, a Kodak, que já se considerou a Bells Lab da química, abraçou o mundo digital e os pesquisadores que o compreendem.

‘A mudança do foco de pesquisa foi tremendo’, disse John D. Ward, um palestrante do Rochester Institute of Technology que trabalhou para a Kodak por 20 anos. Ou, como disse Sasson, ‘fazer aceitarem uma idéia digital ficou bem mais fácil’. De fato, os laboratórios da Kodak hoje recebem físicos, engenheiros e todo tipo de pessoas que se sentem mais à vontade com código binário que com moléculas. ‘Quando entrei, sabia que meu salário vinha da venda de filmes’, disse Majid Rabbani, engenheiro elétrico que ingressou na Kodak em 1983. ‘Mas eu sabia que acabaria produzindo holerites para outros.’

A Kodak está distante de uma situação confortável. Os produtos digitais nem de longe preenchem o vazio de lucro deixado pela queda nas vendas de filmes. A força de trabalho é hoje cerca de um quinto do que era há duas décadas, e o grupo continua perdendo dinheiro.

Mas alguns produtos digitais estão finalmente saindo dos laboratórios. A Kodak introduziu recentemente uma televisão de bolso que está sendo vendida no Japão por U$ 285. Ela tem um sensor minúsculo, pequeno o bastante para ser encaixado num telefone celular, mas suficientemente sensível para captar imagens com pouca luz.

A companhia tem agora técnicas digitais que podem remover arranhões e melhorar de outras formas filmes velhos. Ela encontrou maneiras mais eficientes para fazer diodos luminosos orgânicos (OLEDs, na sigla em inglês) para displays de câmeras, celulares e, eventualmente, televisores.

Este mês a Kodak lança a Stream, impressora de jato de tinta contínuo que pode produzir itens personalizados, como inserções em contas em velocidades muito rápidas. Ela trabalha em maneiras de captar e projetar filmes tridimensionais.

E, claro, continua induzindo consumidores a tirarem fotos com câmeras Kodak, armazená-las online em sites da Kodak, exibi-las em molduras de fotos digitais Kodak e imprimi-las em impressoras Kodak que usam tintas e papéis Kodak.

Paradoxalmente, muitos dos novos produtos se baseiam em trabalhos que a Kodak começou, mas abandonou, anos atrás. ‘Estou aqui há cinco anos, e ainda estou aprendendo todas as coisas que já temos’, disse disse Bill Lloyd, o diretor-chefe de tecnologia. ‘Parece que a Kodak desenvolveu anticorpos contra tudo que pudesse competir com o filme.’

Foi preciso o que muitos analistas classificam como experiência quase mortal para mudar isso. A Kodak foi uma gigante do filme no século 20, mas entrou no século 21 sob risco de ser esmagada pelo trator digital. Companhias eletrônicas como a Sony estavam absorvendo o mercado de fotografia, enquanto gigantes como Hewlett-Packard e Xerox dominavam nas impressoras.

Em 2003, porém, a Kodak contratou Antonio Perez, tirando-o exatamente da Hewlett-Packard. Perez, atual presidente-executivo da empresa, espalhou ex-funcionários da Hewlett pelo quadro executivo.

Juntos, eles viraram a Kodak pelo avesso. Tiraram a companhia de um negócio central, o de geração de imagens para sistemas de saúde, e levaram-na de volta para a impressão por jato de tinta. E vasculharam os arquivos de patentes atrás de propriedade intelectual, uma medida que está rendendo bem mais de U$ 250 milhões por ano em taxas de licenciamento. Um exemplo recente: a Kodak está licenciando um método para embutir uma assinatura química em materiais que permite que fabricantes e revendedores detectem produtos falsificados por escaneamento.

No ano passado, U$ 6,4 bilhões de sua receita de U$ 10,3 bilhões vieram de produtos digitais – mas a empresa lucrou somente U$ 179 milhões com eles. Perez declarou recentemente a analistas sua ‘plena confiança’ de que 2008 será um bom ano para a Kodak, mas os investidores não compartilharam muito essa confiança. As ações da companhia estão atualmente na casa dos US$ 17, depois de atingirem um pico de US$ 94,25 em fevereiro de 1997.’

 

E-READINESS
Renato Cruz

Brasil sobe em ranking de economias digitais

‘O Brasil subiu uma posição no ranking de 2008 do índice e-readiness, que mede quanto cada país está preparado para a economia digital. O indicador é medido pela divisão de consultoria da IBM e pela Economist Intelligence Unit. ‘O Brasil foi o único a subir no ranking na região’, destacou Ricardo Gomez, líder da IBM Global Business Services Brasil.

O Brasil passou da 43ª posição para a 42ª, com pontuação de 5,65. O Chile, país mais bem posicionado da região, caiu de 30º para 32º. O México também perdeu duas posições, ficando em 40º lugar, e a Argentina se manteve no 44º lugar. A pesquisa acompanha 70 países, e avalia oportunidades de negócios com base em novas tecnologias.

O índice, que vai de zero a dez, tem como base cerca de 100 critérios, divididos em seis categorias: infra-estrutura de tecnologia e conectividade, ambiente de negócios, ambiente social e cultural, ambiente legal, política e visão governamentais e adoção por consumidores e empresas. O maior avanço do Brasil foi em infra-estrutura de tecnologia e conectividade, categoria em que o País apresenta a maior defasagem em relação à média mundial.

A região que mais avançou foi a Ásia. No ranking geral, Hong Kong subiu duas posições, alcançando o segundo lugar. Os Estados Unidos subiram uma, ficando em primeiro.

Apesar de o Brasil ter crescido em infra-estrutura de tecnologia e conectividade, o avanço reflete, em grande parte, uma melhora no ambiente macroeconômico do País. Segundo Gomez, houve um aumento do poder aquisitivo da classe C, refletindo o crescimento econômico, e a queda dos juros facilitou o acesso ao financiamento de equipamentos.

Outros fatores que beneficiaram a melhora do Brasil no ranking foram a queda de preços dos microcomputadores e a ampliação da banda larga. No ano passado, foram vendidos 10,7 milhões de PCs no Brasil, o que colocou o País como o quinto maior mercado do mundo, segundo a consultoria IDC. O total de acessos fixos de banda larga subiu de 5,7 milhões em 2006 para 7,5 milhões. Os acessos móveis chegaram a 602 mil.’

 

MAIS VENDIDOS
Marcelo Rubens Paiva

Essa literatura atual…

‘Surpreendeu quando Órfãos do Eldorado, novo livro de Milton Hatoum, surgiu na lista dos mais vendidos de ficção. Bem, ele entrou numa semana e saiu na outra. A visita difere do padrão do mercado?

Hoje em dia, brasileiros dificilmente freqüentam a lista dos mais vendidos de ficção. Maitê Proença conseguiu a proeza de colocar nela Uma Vida Inventada – que reinventa o seu passado, que já tinha explorado na peça Achadas e Perdidas. Lya Luft é sócia do clube.

Parte da crítica torce os olhos. Acusa de fazerem uma ‘literatura fácil’. Estabelece uma nova categoria editorial: subliteratura.

Não conheço um escritor brasileiro que escreva livros de ficção para ocupar lugar de destaque na lista. Aliás, existe um, Paulo Coelho. Grande parte deseja estar na lista, mas escreve motivada por outras prioridades. Quais? Tá bom, e você acha que é fácil enumerá-las? Contar uma história é uma das razões. Talvez a principal.

Hatoum se transforma no grande nome da literatura brasileira. O professor amazonense estreou com Relato de Um Certo Oriente em 1989 e ganhou o Jabuti. Dois romances posteriores faturaram o mesmo prêmio, Dois Irmãos e Cinzas do Norte. O último faturou também o Portugal Telecom.

Antes que o tachem de ‘escritor de troféu’, o tipo maçante que agrada a poucos especialistas, mas não se comunica com o grande público, saiba que ele foge do estereótipo. Seu texto é sem grandes experiências literárias.

Aliás, elas acabaram. Já que a literatura agora é um gênero secundário, que perde leitores a cada ano, parece que nós, escritores, nos cansamos das inovações arriscadas, e seguimos o atalho do modesto: boa história e bons personagens.

Gabriel García Márquez há muito deixou de ser o Gabo da mágica e delírio, e pratica o pão pão queijo queijo literário. Seus livros freqüentam a lista com facilidade. Mario Vargas Llosa é outro que optou pela fórmula precisa que agrada ao chamado leitor médio. O seu bem-sucedido Travessuras da Menina Má é um exemplo de como deve ser o bom best-seller. Aqui vão de graça as dicas:

A) Ser narrado por um homem maduro, que começa relatando a sua adolescência e primeiras experiências eróticas. É importante aqui que role uma nostalgia dos bons tempos, de como éramos inocentes e felizes.

B) Fatos históricos que resumam o que de importante aconteceu seguem em paralelo à vida dos personagens. No caso de Llosa, entram a luta armada da América Latina, a utopia de Che, Maio de 68, flower power em Londres. Até o surgimento da aids está na trama.

C) Não há expressões chulas. Esqueça a faceta Henry Miller. Imagine vovó contando para os netos como conheceu vovô e como eram as noitadas de amor.

D) As mulheres são incompreensíveis, temperamentais, amam, mas sugerem que não. Confusas, misteriosas, são perdoadas, apesar dos protagonistas sofrerem horrores.

E) Os amigos são fiéis. Ninguém enriquece, afinal, ricos são do mal. Nem Scott Fitzgerald conseguiu criar um ricaço que gerasse empatia.

F) Claro que a personagem que mobiliza o narrador morre no final. Mas deixa herdeiros ou mensagens póstumas.

G) Uma grande mentira move a história e será revelada. A de O Caçador de Pipas (sim, eu li e adorei) revela-se que Amir e seu empregado Hassan eram irmãos. Aliás, revelação semelhante ocorre em Órfãos do Eldorado, apesar do seu final ficar ‘em aberto’.

H) O pai é sempre um exemplo que atormenta o filho-narrador. Para o bem ou para o mal. O coitado se sente em dívida por não ter correspondido às expectativas. É assim em O Caçador de Pipas.

Aliás, o pai é um fantasma poderoso em Órfãos do Eldorado e O Conto do Amor, romance de estréia do psicanalista e cronista Contardo Calligaris. Mais que a mãe, é o pai quem nos atormenta?

Órfãos do Eldorado fala de como Arminto, um herdeiro incompreendido pelo pai, reage ao desprezo, depois de flagrado na rede com uma empregada índia, Florita, em Vila Bela, cidade à beira do Amazonas.

O pai Amando enriqueceu transportando borracha. O filho não soube se defender da decadência do ciclo. Mais velho e órfão, ele torra propositalmente ‘com a voracidade de um prazer cego’ a fortuna herdada. Sobretudo quando descobre que o pai nunca falou do filho para amigos de Belém.

Pior, apaixona-se por Dinaura, a única órfã com quem ele jamais poderia se relacionar, que o convida para morar na Cidade Encantada, ou ‘cidade submersa’, e some misteriosamente. ‘A gente quer conhecer uma pessoa, só encontra silêncio’, diz. Quem é essa garota encantada, que dança e provoca, e o faz viver para ela por toda a vida?

Muitos moradores da Amazônia acreditam que no fundo do rio ou lago existe uma cidade rica, socialmente harmônica, com seres encantados. Tal mito é recorrente. Ao usar livremente algumas narrativas indígenas, Hatoum faz uma literatura sem muito alarde, num tiro só (o livro tem 106 páginas), que explora as frustrações e paixões de todo leitor, através de personagens complexos e fascinantes.

O fantasma do pai também mexe com o narrador de O Conto do Amor, de Calligaris, italiano que adotou São Paulo e virou um dos colunistas mais lidos da imprensa brasileira. Pelo visto, adotou o gênero literário paralelamente ao divã. Ou quem sabe influenciado por ele.

O protagonista do romance de estréia fica chocado quando vê, no diário do pai morto, que a página do dia em que nasceu está vazia. E não há nenhuma referência a ele depois. No entanto, ao morrer, o pai deixa um enigma para ser desvendado: conta que, em outra vida, foi assistente do pintor renascentista Sodoma. Só anos depois, o filho descobre que, nos afrescos de Sodoma do convento de Monte Maggiore, na Itália, há a figura de um garoto idêntico ao pai.

O protagonista é também psicanalista, levado a descobrir tudo sobre Sodoma, para entender a mensagem que o pai de poucas palavras passava. Descobre que, como atesta o apelido, a vida sexual do pintor maneirista era excêntrica. Pergunta se era essa a analogia que o pai queria descoberta, a de que não viveu ‘seguindo as normas’.

‘Faria diferença?’, pergunta Nicoletta, restauradora com quem se envolve em Florença.

‘Sinceramente, nenhuma. Continuaria amando o meu pai da mesma forma: amando a minha lembrança dele, quero dizer.’

O enigma ‘como foi a vida sexual de um pai?’ ganha contornos de literatura policial – um quadro falsificado de fascistas mostra uma outra versão do afresco. Mistérios da 2ª Guerra continuam vivos. A linguagem econômica prende. É a nova literatura mostrando alguns preceitos.’

 

TELEVISÃO
Cristina Padiglione

Formatos à venda

‘Na era em que todo conceito de programa de TV vira formato patenteado para exportação, os maiores produtores de TV do mundo estão convidados a discutir essa tendência num encontro que ocorrerá em Miami, de 10 a 12 de maio. É o 1º Encuentro – TV Hispana.

Telenovela pode não ser Big Brother, mas uma série de experiências bem-sucedidas mundo afora tem endossado a eficiência de se vender apenas a história para que cada país produza sua versão de um mesmo folhetim. O caso exemplar atende por Betty La Fea, aqui vista na versão original colombiana, via RedeTV! Betty se multiplicou em outras línguas – até na Alemanha – e em forma de seriado. E a matriz nada mais é do que a clássica idéia de uma mulher aparentemente horrorosa que ficará linda até o fim da história.

Consultor da Globo, Mauro Alencar, doutor no assunto pela USP e membro da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (Alaic) , estará em Miami para garimpar as últimas do setor e apresentar o vasto panorama da telenovela brasileira, da modernização e industrialização do gênero, no início da década de 1970, a produções recentes.’

 

 

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