Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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O Estado de S. Paulo

23/02/2009 na edição 526

SEGURANÇA
John Markoff

Nós precisamos de uma ‘nova internet’?

‘Há duas décadas, um estudante da Universidade Cornell, de 23 anos, levou a internet à beira do desastre com um simples software que saltava de um computador para outro a uma velocidade atroz, obstruindo a então minúscula rede em poucas horas.

A finalidade desse programa era ser uma espécie de ‘Kilroy esteve aqui’ digital. Mas um erro de programação tornou-se um arauto anunciando a chegada de um ciberespaço mais sinistro, que seria mais um espelho de todo o caos e conflitos do mundo físico e não de um utópico refúgio disso tudo.

Desde então as coisas pioraram, e muito. A tal ponto que há uma crença cada vez mais forte entre engenheiros e especialistas da área de que a segurança e a privacidade na internet acabaram se tornando algo tão ilusório que o único meio de solucionar esse problema é recomeçar tudo de novo.

O grande debate é como seria essa nova internet. Uma alternativa seria a criação de uma ‘comunidade fechada’ onde os usuários desistiriam do seu anonimato e de algumas liberdades em troca de segurança.

Hoje isso já ocorre com muitos usuários no âmbito do governo ou empresas. Quando uma nova rede, mais segura, for amplamente adotada, a atual internet acabará sendo a vizinha nociva do ciberespaço.

Você entra nela por sua própria conta e risco, mas sempre muito atento enquanto estiver por ali. ‘Se não nos dispusermos a repensar a internet de hoje’, diz Nick McKeown, engenheiro de Stanford envolvido na criação da nova rede, ‘podemos esperar uma série de catástrofes públicas’.

E isso foi bastante martelado no ano passado, quando um software nefasto, que teria sido lançado na rede por uma gangue criminosa da Europa Oriental, surgiu repentinamente, conseguindo enganar facilmente as melhores defesas cibernéticas do mundo.

Conhecido como Conficker, o programa rapidamente contaminou mais de 12 milhões de computadores, fazendo o maior estrago nos sistemas, afetando de centros cirúrgicos da Inglaterra a redes do exército francês.

O Conficker é uma bomba-relógio. Pode ainda hoje atacar todos aqueles computadores infectados e juntá-los numa vasta rede, formando um supercomputador, chamado Botnet, controlado clandestinamente pelos seus criadores.

O que ocorrerá proximamente ainda é um mistério. O Conficker pode ser usado como o mais poderoso mecanismo de spam do mundo, para distribuir programas que servem para lograr os usuários, levando-os a comprar proteção antivírus falsa.

Ou muito pior. Pode também ser usado para apagar seções inteiras da internet. Mas, que qualquer modo, o Conficker demonstrou que a rede continua muitíssimo vulnerável a um ataque concertado.

Os criadores da internet jamais imaginaram que a rede de pesquisa acadêmica e militar um dia teria que suportar o peso de transportar todo o comércio e comunicações do mundo. Não havia nenhum ponto central de controle, e a ideia era que uma rede pudesse trocar dados com qualquer outra rede. A questão da segurança recebeu menos atenção. Mas, desde então, enormes esforços têm sido feitos para ampliar a segurança, com poucos resultados.

‘Em muitos aspectos, estamos hoje numa situação muito pior do que há vinte anos, pois todo o dinheiro foi aplicado para resolver os problemas atuais, no lugar de ser investido para redesenhar a nossa infraestrutura’, disse Eugene Spafford, diretor executivo do Centro de Educação e Pesquisa em Segurança da Informação, na universidade de Purdue.

Embora o setor global de segurança de computadores esteja em franca ascensão, com receitas que devem chegar a US$ 79 bilhões no próximo ano, e o fato de que, em 2002, a própria Microsoft iniciou um intenso trabalho para melhorar a segurança do seu software, a segurança na internet continua deteriorando globalmente.

É por isso que os cientistas amparados por fundos federais destinados à pesquisa e trabalhando em colaboração com o setor, estão tentando encontrar o melhor meio para recomeçar tudo novamente. Em Stanford, onde os protocolos de software da internet original foram criados, os pesquisadores desenvolvem um sistema que torne possível introduzir uma rede mais avançada discretamente embaixo da internet de hoje. No final do verão, essa rede estará em funcionamento em oito redes de universidades por todo o país.

A ideia é criar uma nova internet com maior segurança e capacidade para suportar uma nova geração de aplicativos ainda não inventados, e também fazer coisas que a internet atual mal consegue – como dar suporte a usuários de celulares.

O projeto chamado Stanford Clean Slate não vai resolver todos os principais problemas de segurança da internet, mas deve equipar os criadores de software e hardware com um conjunto de ferramentas que farão com que os programas de segurança sejam uma parte mais integral da rede, dando às autoridades policiais recursos mais eficazes para rastrear criminosos no ciberespaço. E só isso já pode ser um meio de dissuasão.

Apesar de todo esse esforço, os limites reais da segurança dos computadores podem estar na natureza humana. O atual design da internet garante virtualmente o anonimato dos usuários. Mas hoje esse anonimato é o desafio mais incômodo para as autoridades. Um agressor na internet pode rotear uma conexão através de muitos países para ocultar a sua localização, que pode ser em uma conta num Internet Café adquirida com um cartão de crédito roubado.

‘Logo que você começa a lidar com a internet pública, a noção de confiança se perde num atoleiro’, disse Stefan Savage, especialista em segurança de computadores na Universidade da Califórnia, em San Diego.

Uma rede mais segura quase certamente vai oferecer menos anonimato e privacidade. Esse é o grande dilema dos criadores de uma futura internet. Uma ideia, por exemplo, seria exigir algo equivalente às carteiras de motorista para permitir que as pessoas se conectem a uma rede pública de computador. Mas isso vai contra o espírito libertário, profundamente arraigado, da internet.

O fornecimento de uma identidade será uma dificuldade num mundo onde é comum alguém se apossar do computador de uma pessoa a meio mundo de distância e operá-lo como se fosse seu. Enquanto isso ocorrer, criar um sistema totalmente confiável continuará sendo virtualmente impossível.’

 

 

TERCEIRA CULTURA
Sérgio Augusto

A origem de uma nova espécie, criada só pelo homem

‘Todos os anos John Brockman lança pela internet uma pergunta que cientistas (a maioria, uns 97%), intelectuais e artistas respondem com animada presteza, através do site da Edge Foundation. ‘O que você mais vem se perguntando ultimamente?’ ‘Qual a invenção mais importante dos últimos dois mil anos?’ ‘O que você acredita ser verdade mas não tem como provar?’ ‘O que mudou sua cabeça nos últimos tempos?’

Assim nasceu o fórum permanente de ideias The World Question Center, polo aglutinador do que Brockman chama de ‘terceira cultura’: a junção da cultura humanística com a científica. Pena que o cientista e romancista britânico C.P. Snow não tenha podido testemunhar esse esforço para superar a cisão entre as duas, por ele denunciada e analisada num livro de repercussão internacional, The Two Cultures and the Scientific Revolution (no Brasil, As Duas Culturas).

Neste ano de abundantes efemérides ligadas à ciência (bicentenário de Darwin, sesquicentenário de A Origem das Espécies, quadringentenário do telescópio de Galileu, meio século de As Duas Culturas), Brockman perguntou: ‘Que inventos ou ideias científicas poderiam mudar tudo à nossa volta?’

Recebeu, como de hábito, mais de uma centena de respostas; algumas curtas e até engraçadas (o físico de Cambridge John D. Barrow se contentaria com uma bateria que fosse ‘muito, muito boa mesmo’, o psicólogo Daniel Goleman sonha com um tênis biodegradável, e o neurocientista Sam Harris, com um detector de mentiras infalível), outras mais longas, eventualmente digressivas ou mesmo pedregosas para o leitor leigo, perfazendo um total de 102 mil palavras ou 632 mil caracteres com espaço.

‘Novas ferramentas, novas percepções’, salienta Brockman, abrindo o fórum. ‘Através da ciência criamos tecnologia e usando novas ferramentas nos recriamos.’ Um dos primeiros a responder à questão de 2009, o filósofo Daniel C. Dennett se interroga sobre uma série de ameaças (Universidades e jornais se tornarão obsoletos? Hospitais e igrejas terão o mesmo destino das quitandas? Ler música será algo tão antigo quanto ler hieróglifos?), confessando acreditar somente numa coisa: o poder transformador da ‘incessante curiosidade humana’. Ela, sim, pode mudar tudo, arremata.

Com os avanços da genética e da nanotecnologia, o evolucionismo nunca queimou tantas etapas em tão pouco tempo. Mutações celulares programadas, embriões computadorizados, cérebros superdotados artificialmente, hibridização, transgenia (o biólogo Richard Dawkins já imaginou quimeras de humanos e chimpanzés) – diga adeus ao homo sapiens, o homo evolutis já está a caminho. E aberto a uma infinidade de possibilidades. O físico Freeman Dyson adoraria que ele, além de superinteligente, fosse radiotelepático, capacitado a trocar sentimentos e pensamentos por intermédio de microscópicos transmissores e receptores ‘instalados’ no tecido cerebral.

Educadores e psicólogos apostam, em geral, na difusão do conhecimento, na educação horizontalizada, no ensino robustecido pela internet. Livros didáticos baratos para consumo global, sugere o psicólogo social David G. Myers. ‘Se conseguíssemos ensinar intuição às pessoas, elas seriam bem mais inteligentes, e isso mudaria tudo’, arrisca o psicólogo Martin Seligman. Alguém mais do mesmo ramo acrescentou à intuição outra capacidade teoricamente intransmissível: a empatia.

Que tal se pudéssemos sincronizar cérebros? E trocar mensagens neurotransmitidas (esperança do futurista Peter Schwartz)? E usar neurocosméticos em restaurações cerebrais (sugestão do neurologista Marcel Kinsbourne)? E dispor de uma inteligência artificial barata, poderosa e acessível a qualquer um, uma espécie de mente sintética que se autoaperfeiçoasse?, sonha Kevin Kelly, editor da revista Wired. E reimplantar vida em materiais manipulados?, sugere o físico Neil Gershenfeld. E ‘desfazer a Babilônia’ em que nos meteram?, indaga o linguista e antropólogo Daniel K. Everett, reatualizando a utópica ‘máquina tradutora’ aventada por Warren Weaver 60 anos atrás, com a intenção de facilitar o entendimento universal.

Três ou quatro estudiosos acreditam nas potencialidades quase infinitas da robótica. Preparados para nos fazer companhia, os robôs eliminariam o problema da solidão, conjectura o futurólogo Paul Saffo. E nos ajudariam, com seu exemplo, a aprimorar nosso caráter e nossas emoções, estima a psicóloga Sherry Turkle.

É quase irrestrita a confiança em computadores e engenhocas futuristas. Especialmente no laptop quantum, o QC, perto do qual o nosso PC (personal computer) parecerá um humilde ábaco, prediz o cientista cognitivo Donald D. Hoffman, esperançoso de que possamos, em breve, repensar a neurociência e ‘alterar nossa visão da percepção sensorial’. O engenheiro mecânico Seth Lloyd vai mais longe: para ele, os QCs podem tornar-se verdadeiras máquinas do tempo digitais, facilitando renegociações e até revisões da própria vida de seus usuários, fantasia não muito mais delirante que o ?downloading de consciência? em computadores almejado pelo neurocientista David Eagleman.

E se todos os computadores da Terra pifassem, depois de atingidos por um gigantesco impulso eletromagnético provocado por uma explosão nuclear fora da atmosfera? Com o mundo paralisado, tudo, rigorosamente tudo, mudaria – para pior. O austríaco Anton Zeilinger levanta essa hipótese apocalíptica, acrescida de um corolário: uma explosão atômica detonada por terroristas, paranoia também compartilhada pelo físico Lawrence Krauss.

Cenários catastróficos, geralmente ligados ao aquecimento global e à crise energética, assombram os prognósticos de cientistas das mais variadas áreas. Laurence C. Smith e o biólogo Stephen H. Schneider receiam pelo derretimento da calota polar, de consequências parecidas com as que o filme O Dia Depois de Amanhã dramatizou. Até o escritor britânico Ian McEwan, assídua presença no fórum, privilegia as verdades inconvenientes da agressão ambiental, mas admite ter esperanças no ‘florescimento pleno da tecnologia solar’, ou seja, na adoção, em escala mundial, da ‘radiante’ e gratuita energia fornecida pelo sol.

Se o sol nos oferece energia limpa e renovável, Marte e outros rincões do cosmo podem nos levar a questionamentos cruciais. E se de fato existir vida extraterrena? Se a resposta for negativa, impacto zero; se afirmativa, efeitos devastadores nas ciências, na filosofia e na religião, prevê o roboticista Rodney Brooks, sobretudo se a vida extraterrena se basear num código genético similar ao das criaturas da Terra. E se ela for mais inteligente, arrisca o escritor Douglas Rushkoff, tudo aqui (até a linguagem e a matemática) mudaria radicalmente.

O historiador científico George Dyson e o ficcionista Steven Nadis nos acenam com duas ameaças desconcertantes. O primeiro com uma infecção causada por vírus interestelares, o segundo com a descoberta de outro universo em nosso universo. Não menos desconcertante é a desconfiança do físico Paul Davies de que aqui existe uma biosfera secreta, com formas alternativas de micróbios que, evoluindo, darão origem a uma nova aurora do mundo, seguida de outra, e assim por diante. Nenhuma crença transcendental resistiria ao devastador impacto que tal descoberta causaria.

A paralisação do processo de envelhecimento mediante, inclusive, a troca de órgãos com defeitos, fascina um razoável contingente de cientistas, entre os quais o filósofo da ciência brasileiro Marcelo Gleiser, para quem a questão da mortalidade é o alfa e o ômega das preocupações humanas. Mas se ninguém mais adoecer, envelhecer e morrer, pondera o expert em finanças e sociobiologia Emanuel Derman, será um inferno viver.

Os artistas se revelaram mais pessimistas que os cientistas. O músico Brian Eno tem a sensação de que tudo só vai piorar daqui para a frente. O teatrólogo Richard Foreman descrê da possibilidade de uma ‘mudança total’, a menos que o ser humano pare de pensar no futuro. Como isso é impossível, deduz, não existe mais nada capaz de ‘mudar tudo’ neste mundo.

O historiador James J. O?Donnell deu uma resposta aparentemente pouco ou nada científica. Com apenas seis letras: África. Se lograrmos integrar o continente em que a história da humanidade começou ao mundo moderno, dotá-lo de todos os benefícios da tecnologia, acabar com seu atraso, sua fome e sua miséria, aí, sim, poderemos afirmar que tudo mudou, assegura O?Donnell.’

 

 

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