Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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O Estado de S. Paulo

24/03/2009 na edição 530

PESQUISA
Guilherme Scarance

Avaliação positiva do governo Lula cai pela 1ª vez desde 2007

‘A blindagem da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu ontem o primeiro solavanco, com queda tanto nos índices do governo como dele próprio. A última rodada da pesquisa trimestral CNI/Ibope revelou que, pela primeira vez desde setembro de 2007, a avaliação positiva do governo recuou: de 73%, em dezembro, para 64%. E aponta a vilã – vários indicadores mostram impactos reais da crise econômica global.

O índice de ‘péssimo’ cresceu de 6% para 10% e o de regular, de 20% para 25%. Segundo o instituto, a aprovação ao governo recuou de 84% para 78% (seis pontos), enquanto a desaprovação foi de 14% para 19%.

Apesar da reviravolta, cabe lembrar que os números, isoladamente, continuam favoráveis: o saldo é positivo em todos os segmentos analisados. A nota média atribuída à administração foi de 7,4 – pouca variação em relação ao 7,8 anterior.

A popularidade crescente de Lula, que bateu recorde em dezembro, foi estancada: a confiança no presidente caiu de 80% para 74%. A desconfiança subiu de 18% para 23%. Sobre o segundo mandato, 41% (eram 49%) veem avanço em relação ao primeiro e 18% (11% em dezembro) avaliam que houve piora.

O Ibope ouviu 2.002 pessoas em 144 municípios, entre os dias 11 e 15 de março. A margem de erro é de dois pontos.

REPROVAÇÃO

Na sondagem detalhada, o governo é mais reprovado do que aprovado em cinco dos nove itens: combate à inflação (por 52% dos entrevistados), taxa de juros (55%), combate ao desemprego (50%), impostos (61%) e saúde (57%).

Para 50%, o desemprego deve aumentar dentro de seis meses – e, para outros 18%, aumentará muito. Só 12% apostam que haverá mais vagas.

A suspeita de que há causas econômicas por trás dos efeitos políticos é reforçada pela percepção sobre o noticiário em torno do governo. O assunto mais lembrado foi a crise financeira internacional e os efeitos sobre o Brasil (29%).

Em seguida, vêm a afirmação de Lula de que a crise seria quase imperceptível no País (11%) e o aumento da taxa de desemprego nas regiões metropolitanas (11%).

SUCESSÃO

Pesquisa Datafolha divulgada ontem apontou queda similar à do Ibope, mas menos acentuada – a aprovação ao governo encolheu de 70%, em novembro de 2008, para 65%. Abordou também a sucessão presidencial. Em todos os cenários, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), aparece à frente, com índices de 41% a 47%.

Na primeira simulação, o tucano aparece com 41% (índice igual ao de novembro), seguido do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), com 16%, e da vereadora Heloísa Helena (PSOL) e da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), ambas 11%. Dilma subiu de 8% para 11%; Heloísa caiu de 14% para 11%. Quando Serra cede lugar a Aécio Neves, Ciro lidera (25%), seguido de Heloísa (17%), do governador mineiro (17%) e de Dilma (12). Foram ouvidas 11.204 pessoas, entre 16 e 19 de março, e a margem de erro é de dois pontos.

Em visita ontem a Florianópolis, Serra evitou se colocar como candidato, mas comemorou: ‘Não estou em nenhuma corrida, mas reconheço que este desejo da Nação se mostra estimulante.’’

 

SENSAÇÃO
O Estado de S. Paulo

Partidos na Índia disputam tema de filme

‘A campanha eleitoral na Índia está tentando pegar carona no sucesso de Quem quer ser um milionário? (Slumdog Millionaire). O filme foi inicialmente criticado na Índia, mas após os oito Oscars ele se tornou uma sensação tão grande que os principais partidos políticos estão brigando pelo direito de tocar sua música nos comícios, antes das eleições nacionais, que serão realizadas em cinco fases a partir de abril.

O governista Partido do Congresso adquiriu direitos exclusivos para tocar a música Jai Ho (Ser Vitorioso)em seus comícios eleitorais. Tema da sequência de dança final do filme, ela recebeu o Oscar de Melhor Canção.

A principal força de oposição, o Partido Bharatiya Janata (BJP), não ficou contente com a apropriação da música pelo Partido do Congresso. ‘Todos deviam poder usar a canção, pois ela pertence ao país’, disse Atul Shah, membro do comitê de campanha.

Harindra Singh, diretor da agência Percept, que negociou o acordo, disse que o partido governista comprou ‘direitos exclusivos para a exploração política’ por um ano, mas não revelou o valor do contrato.

Mas há outros políticos e partidos que tentam se associar ao filme, na esperança de que parte de sua magia se transfira para suas campanhas. No Estado de Bihar, norte da Índia, o ministro-chefe Nitish Kumar – membro do Partido Janata Dal, aliado do BJP – deu uma ‘fugidinha’ do trabalho para ver o filme. Ele foi de bicicleta até o cinema, enquanto seguranças e repórteres corriam ao seu lado. ‘Ora, vamos’, disse ele com um sorriso maroto quando lhe perguntaram se era uma jogada eleitoral. ‘Só estou indo ver o filme.’ Um membro do BJP aproveitou o filme para criticar os governistas. ‘Não fossem os desmandos do Partido do Congresso nos últimos 60 anos, não haveria favelas, não haveria o filme, nem os Oscars’, disse Nanendra Modi.’

 

AUDIOLIVRO
Edison Veiga

Livros para ouvir (no trânsito, no celular…)

‘Comuns na Europa e na América do Norte, os audiolivros ainda não pegaram por aqui. Para tentar alavancar esse mercado, uma das pelo menos quatro editoras especializadas no filão em São Paulo acaba de inaugurar uma livraria destinada exclusivamente a comercializar os livros nesse formato: a Audiolivro, que fica na Rua Bom Sucesso, 247, no Tatuapé (0xx-11- 2098-3331). ‘No ano passado, mantivemos um quiosque no Shopping Metrô Santa Cruz, e foi uma experiência bem interessante. Então, resolvemos abrir nosso espaço’, conta o proprietário, Marco Giroto.

Antes disso, os livros lançados pela editora – que, fundada em 2007, acumula cerca de 80 títulos – poderiam ser adquiridos somente em outras livrarias ou via internet. Como, aliás, acontece com suas principais concorrentes na cidade: a Livro Falante, a Livrosonoro e a Universidade Falada. Nelas, há a opção de comprar em CD, com preços que variam de R$ 24,90 a R$ 30, ou fazer um download do arquivo de áudio, em formato MP3, de R$ 4 a R$ 18 – a Livrosonoro não oferece esta última opção.

Boa parte dos títulos lançados não é produzida especialmente para o formato. Trata-se de uma nova versão de obras que se tornaram conhecidas em edição de papel. Pode-se ouvir clássicos como Iracema, de José de Alencar, e best sellers como O Monge e o Executivo, de James C. Hunter, e 1808, de Laurentino Gomes.

A falta de tempo e o trânsito de São Paulo são os principais argumentos utilizados por quem já se rendeu à mania. ‘Moro em Interlagos, estudo na Vila Buarque e trabalho no Morumbi’, conta a estudante de Biblioteconomia Angela Reis Silva, que em dezembro comprou Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D. Yalom – o primeiro audiolivro de sua coleção, que já ultrapassa uma dezena. ‘Só para ir de casa à faculdade, gasto duas horas no ônibus. Vou ouvindo algum livro no meu (tocador de) MP3.’

Não são só os leitores que utilizam esse raciocínio, a propósito. Giroto, o dono da Audiolivro, era analista de sistemas quando decidiu abrir o negócio. De sua casa, na zona leste, à empresa, em Alphaville, gastava um total de três horas, entre ida e volta. ‘Todas as rádios tocavam as mesmas músicas. Fiquei indignado’, lembra. Resolveu fazer livros em áudio.

Situação parecida levou o médico dermatologista Claudio Wulkan a criar a Universidade Falada, em 2006. ‘Como sempre estou andando entre um consultório e outro, costumava ouvir audiolivros que trazia do exterior’, conta ele. Sua editora já tem 250 títulos e mantém uma ação social disponibilizando seu acervo para a Fundação Dorina Nowill para Cegos.

Criada no ano passado, a Livrosonoro escolheu outro alvo para mirar: os jovens estudantes. ‘Estamos nos especializando nos títulos indicados para os vestibulares’, explica um dos proprietários, Luiz Carlos Gioia. ‘O livro sonoro não substitui o impresso, mas é uma alternativa para quem tem dificuldade ou não gosta de ler. Há a facilidade de ouvi-lo no carro, no celular, no iPod… E o jovem não ?paga o mico? de ficar lendo perto de seus colegas.’ (Ao que parece, nas novas gerações há quem acredite que ler seja hábito vergonhoso.)

Por falar em vestibular, a Livro Falante tem um interessante projeto de transformar em áudio a obra de Machado de Assis. Na voz do repórter do CQC – programa jornalístico-humorístico da Band – Rafael Cortez, já foram lançados Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Alienista. E está para sair Quincas Borba. Em MP3, Machado de Assis continua imortal.

Onde encontrar: Audiolivro: www.audiolivro.com.br; Livro Falante: www.livrofalante.com.br; Livrosonoro: www.livrosonoro.com; Universidade Falada: www.universidadefalada.com.br’

 

CULTURA
Jotabê Medeiros, Livia Deodato e Camila Molina

‘Tropa de choque’ do MinC sai a campo para debate de nova lei

‘Detalhes da nova configuração da Lei Rouanet, revelados pelo Estado em reportagem na quinta-feira, deflagraram acirrado debate nos meios culturais. A decisão de escalonar as faixas de renúncia fiscal e criar 5 fundos diretos (leia texto ao lado) divide produtores, artistas e especialistas.

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, já saiu a campo para defender sua proposta de uma nova legislação de incentivo cultural, que será conhecida integralmente nesta segunda, no site do ministério (www.cultura.gov.br). Ferreira esteve ontem em São Paulo para reuniões com representantes de segmentos culturais, acompanhado de Sergio Mamberti, presidente da Funarte, de Alfredo Manevy, secretário-executivo do MinC, e dos secretários Roberto Nascimento e José Luiz Herencia, de Incentivo e Fomento à Cultura e de Políticas Culturais.

Pela manhã, na sede da Funarte, Ferreira encontrou-se com diretores da Associação dos Produtores Teatrais Independentes (APTI) e entidades culturais de São Paulo, à tarde. O secretário-executivo Alfredo Manevy falou ao Estado.

‘A nova Lei Rouanet não era o único assunto na pauta, mas está tomando conta da agenda’, disse Manevy. Ele procurou rebater argumentos contrários à adoção da nova legislação, como por exemplo a possibilidade de sobrevir o famigerado ‘dirigismo cultural’ com a criação dos fundos setoriais.

‘Tenho dois argumentos contra isso. O primeiro é que o MinC tem universalizado a prática de editais públicos. Já são mais de 50 anuais, contemplando áreas como Cultura e Pensamento, Patrimônio, Culturas Populares, Capoeira, GLBT, Índios. Quem participa dessas comissões são os próprios especialistas da área cultural. A prática do balcão foi abandonada lá em 2003, quando o Gil assumiu o MinC’, considerou.

O outro argumento é que, pela nova lei, ganha poderes a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), prevista na velha Lei Rouanet. ‘Além de ganhar poderes sobre a renúncia fiscal, que ela já tem, a CNIC também passa a ter poderes sobre o fundo, passa a ter governança sobre os dois mecanismos’, afirmou. Segundo Manevy, o sistema que inspirou a reforma do ministério é o do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). ‘Eles também têm um conselho, como a CNIC, e comissões de pareceristas. A cultura merece algo semelhante.’

Ele defende o sistema de fundos dizendo que, caso o governo resolvesse adotar um único fundo, teria dificuldades para convencer áreas específicas. ‘Se você cria um fundo generalista, por exemplo, o setor livreiro não aceitaria. Mas se é um fundo carimbado, cujos recursos são destinados a aquele setor, a área aceita.’

Em tempos de queda de receita, a dependência de investimento direto do governo nos fundos pode ser temerária, preveem produtores. ‘O Estado também tem dificuldades sazonais, mas sua obrigação com a cultura é regulada pela Constituição. E o Estado tem como responsabilidade fundamental dar conta das demandas.’

O MinC respondeu também ao receio da área de teatro de perder os 100% de dedução no imposto de renda investido por seus patrocinadores (após a adoção de novas faixas de dedução). ‘Será que todo espetáculo teatral, independentemente do preço e do acesso, tem de receber 100% de dedução? As novas faixas vão partir de uma grade de critérios, que vão da acessibilidade à relação custo-preço dos ingressos. A possibilidade de chegar a 100% está mantida e estendida a todos os setores, como a música, que antes só podia ter 30% de dedução’, disse.’

 

CINEMA
Luiz Carlos Merten

Juscelino, um herói brasileiro no ar

‘Tudo começou em 2002, quando o produtor Nei Sroulevich propôs a seu amigo, o diretor Zelito Viana, um filme sobre o ex-presidente Juscelino Kubitschek. ‘Não fiquei tentado porque a vida de JK é muito grande e o cinema brasileiro não tem dinheiro para contá-la. Pampulha, Brasília, a indústria naval, é preciso muita verba para reconstituir tudo isso de forma apropriada na tela. Mas eu cheguei a fazer uma pesquisa e, num determinado, pensei que talvez fosse interessante realizar um filme sobre os três últimos dias da vida de Juscelino, em 1976’, lembra Zelito.

Esse filme nunca foi feito porque Nei Sroulevich morreu – ‘Na minha casa, foi lá que ele se sentiu mal’, lembra o diretor – e também porque Zelito descobriu o livro de Pedro Rogério Moreira, Bela Noite para Voar, que tece uma ficção em torno de fatos da presidência de Juscelino. Os militares andavam alvoroçados com o presidente, acusando-o de ligações com o comunismo, via Jango Goulart, e também de corrupção, embora por trás de tudo talvez estivesse a crise de Juscelino com o Fundo Monetário Internacional, que o tornou suspeito aos olhos de Washington. Sucederam-se as tentativas de golpe. Bela Noite para Voar ficcionaliza uma tentativa de sabotagem do avião presidencial, quando Juscelino voa do Rio a São Paulo, para se encontrar com o então governador Jânio Quadros, e para Belo Horizonte e outro encontro mais prazeroso, com a Princesa, sua amante.

José de Abreu e Mariana Ximenes interpretam os papéis (e Cássio Scarpin faz um Jânio hilário, tropeçando nas próprias pernas). Mariana é linda, mas seria injusto elogiar Mariana somente por sua beleza. ‘Ela é uma atriz séria, aplicada’, define o diretor. O repórter acrescenta que nunca viu Zé de Abreu tão bem nos últimos tempos. O ator supera aqui sua tendência a insistir no estereótipo do gaúcho autoritário, que marca, por exemplo, o Major de O Menino da Porteira, em cartaz nos cinemas. O assunto foi parar no blog do repórter e o próprio Zé de Abreu deixou um comentário, no qual diz, entre outras coisas, que Zelito não dirige os atores. Agora é o diretor que fala – ‘Dirijo mais do que ele pensa, mas é bom que o ator se sinta livre para criar, como Juscelino, no filme, quer ser livre para voar.’

Na concepção do diretor, o presidente é um herói brasileiro. Ousado, comprometido com a modernidade, sedutor, Juscelino e seu governo representaram a transformação. Ele não apenas construiu Brasília como durante seu governo os ventos da mudança viram nascer a bossa nova e o cinema novo. A trilha, por sinal, é um regalo, com músicas da bossa nova e até Nat King Cole – Fascination – para marcar a personagem da Princesa. Os direitos saíram caro? ‘Menos do que se pensa. Às vezes, a gente nem tenta, com medo do preço. Fiz como o Juscelino. Ousei, e deu para pagar.’ Zelito Viana não é seduzido apenas por ?seu? presidente. Carlos Lacerda, interpretado pelo filho do diretor, Marcos Palmeira, é outro personagem importante. ‘Quando se fala em JK é difícil não cair também em Carlos Lacerda, que foi seu oponente mais duro’, explica o diretor. ‘Lacerda foi um grande reacionário, mas foi também um líder civil e eu acho muito bonita a forma como o retratamos, mostrando sua relação com a mulher e a forma como dona Letícia exerce sua influência política sobre o marido.’ No filme, ela é interpretada por Júlia Lemmertz.

Zelito assume que seu filme, rodado em 2004, é despretensioso e, por isso, lhe agrada o adjetivo ?simpático?, aplicado ao trabalho. No longo período em que Bela Noite para Voar esteve parado, os profissionais da Casablanca volta e meia retomavam os efeitos e eles estão entre os melhores do cinema brasileiro recente. Mas o diretor admite que as cenas de ação poderiam ser melhores. Seu próximo projeto será um infanto-juvenil, adaptado do livro Bisabia Bisabel, de Ana Maria Miranda. Outro filme despretensioso? ‘Não, até porque o livro é muito complexo, sobre uma garota que concentra em si a neta e a bisavó. Pretendo fazê-lo como musical. Na verdade, é um projeto bem pretensioso, que espero fazer bem’, ele conclui.

Serviço

Bela Noite para Voar. (Brasil/2006, 87 min.) – Drama. Direção Zelito Viana. 12 anos. Cotação: Regular’

 

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