Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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MONITOR DA IMPRENSA >

O estranho caso de um louco por TV

20/10/2009 na edição 560

A história tinha todos os elementos para prender a atenção do público. Uma criança desaparecida, um balão voando desgovernado, a suspeita de que o pobre menino estaria dentro do balão. As emissoras de notícias a cabo americanas passaram a tarde de quinta-feira [15/10] concentradas no caso de Falcon Heene, de apenas 6 anos de idade. Seus pais, excêntricos caçadores de tempestades que haviam construído no quintal o tal balão de gás hélio com cara de disco voador, estavam desesperados por acreditar que o filho mais novo teria entrado escondido na jerigonça e estaria voando sem rumo pelos céus do Colorado. Por mais de duas horas, as câmeras seguiram o balão prateado; os apresentadores, em tom de preocupação, conversavam com especialistas em balões, calculavam peso e velocidade, analisavam o vento e davam informações sobre a família.

Finalmente o balão perdeu parte do gás e desceu. Foi capturado pela polícia, que, decepcionada, constatou que o menino não estava lá dentro. Foram, no total, cinco horas de tensão, até que o pequeno Falcon apareceu. Estava escondido todo o tempo num sótão na garagem. A história começou a ficar estranha. Uma criança de seis anos, saudável e ativa, quieta e escondida num sótão por cinco horas enquanto os pais chamam por ela e a polícia e equipes de TV cercam sua casa? Detalhes, detalhes. Os pais, aliviados, agradeciam todo o apoio em frente às câmeras.

Revelação e vômito

Na mesma noite, lá estava a família reunida em entrevista à CNN. Questionado pelo âncora Wolf Blitzer por que não respondeu ao ouvir seus pais chamando, o pobre menino hesita e afirma: ‘ele disse que fizemos isso para um programa’. Aí a história fica realmente estranha. O pai, questionado sobre a frase do filho, mostra-se indignado, diz que ele é apenas uma criança. Sim, crianças falam besteiras.

Mas, na manhã seguinte, lá está a família Heene novamente sendo entrevistada, ao vivo, para os programas matutinos. Por conta do fuso do Colorado, as entrevistas foram concedidas antes do amanhecer. Primeira parada, Good Morning America: Falcon passa mal e vomita em frente às câmeras. Segunda parada, programa Today: Falcon passa mal e vomita em frente às câmeras pela segunda vez. O público, que havia passado momentos de tensão e alívio junto aos Heene, começa a olhar desconfiado para os pais que forçam o filho a participar de uma segunda entrevista, antes do amanhecer, logo depois de ele passar mal. Algo errado. A mídia também começa a achar tudo muito estranho, e as cenas de Falcon vomitando são mostradas repetidamente enquanto jornalistas e comentaristas criticam a família e sugerem armação.

Acusações

No domingo [18/10], nem a polícia acreditava mais nos Heene. O xerife local, Jim Alderden, declarou, em uma coletiva de imprensa, que as autoridades estavam convencidas de que a história do balão teria sido forjada pelos pais de Falcon, Richard e Mayumi, para conseguir publicidade. A família, que no início do ano participou de um reality show na rede ABC, estaria tentando emplacar um programa na TV. Richard é descrito pelos vizinhos como um homem louco pela fama, com temperamento explosivo e grande imaginação. Para completar, a primeira ligação de Richard e Mayumi, na quinta-feira [15/10], não foi para 911, e sim para uma emissora de TV local, perguntando se seria possível ajudar a localizar o balão com o helicóptero. Detalhes, pequenos detalhes.

No fim de semana, os computadores da casa dos Heene foram confiscados em busca de informações sobre a suposta armação. Segundo o xerife, o casal pode ser processado por conspiração para cometer um crime, contribuição para delinquência de menor e tentativa de influência sobre funcionários públicos, além de um delito menor: prestar queixa falsa.

Cheio de ideias

De acordo com reportagem do New York Times nesta segunda-feira [19/10], Richard e Mayumi teriam se conhecido em uma escola de atores de Los Angeles. Em 2001, o marido produziu um vídeo ensinando como transformar caixas de papelão em fortes para crianças. ‘Ele era muito ambicioso’, diz Vincent LeGrow, que trabalhou em uma pequena empresa aberta por Richard, que também apresentou um programa chamado ‘Detetives da Ciência’. Em 2006, ele afirmou a um jornal do Tennessee que havia produzido um documentário sobre caçadores de tornados e estava procurando quem o distribuísse. Dois anos depois, de acordo com dados de uma publicação acadêmica, Richard estaria produzindo um documentário sobre campos eletromagnéticos em tempestades. No início do ano, a família participou de dois episódios do programa Wife Swap – uma espécie de ‘Troca de Famílias’. No mês passado, Richard se registrou no site RealityWanted, que faz a ponte entre agentes e pessoas que querem participar de reality shows.

Ainda que venham a enfrentar problemas legais, é fato que Richard e Mayumi conseguiram atenção e ficaram instantaneamente famosos – dentro e fora dos EUA. A mídia americana, na tarde de quinta, agiu de maneira apropriada. As autoridades estavam levando o caso a sério, as emissoras e sites levaram o caso a sério. Como disse o xerife, os Heene ‘montaram um verdadeiro show, e nós caímos’. Agora, é esperar pra ver se ‘Menino do Balão’ vira série de TV.

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