Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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MONITOR DA IMPRENSA >

O governo entrou no jogo

Por Leticia Nunes, de Nova York em 14/10/2009 na edição 559

A TV americana tem a Fox News, de direita, e a MSNBC, de esquerda. São canais equivalentes: partidários e engajados. E, para o telespectador que não é ultraconservador ou ultrademocrata, chegam a ser irritantes. Funciona assim: a Fox, em seus programas de debate, ataca o governo democrata, muitas vezes de maneira exagerada ou absurda, e a MSNBC ataca a Fox e outros veículos de mídia conservadores, derrubando seus argumentos e alegações. É um processo repetitivo e previsível, mas não se pode negar que funciona de maneira democrática e transparente.


É por isso que as afirmações da diretora de Comunicações da Casa Branca, Anita Dunn, que provocaram controvérsia e viraram tema de todos os debates televisivos nos EUA nos últimos dias, não deveriam surpreender tanto assim. Anita afirmou, em entrevista na CNN, que a Fox News atua como um ‘braço de pesquisa e de comunicação do Partido Republicano’ e que o presidente Barack Obama sabe que, quando vai à emissora, não está lidando com um veículo de comunicação, e sim combatendo a oposição. Basicamente, a Casa Branca está deixando claro que não considera a Fox News imparcial, e que sabe que sua intenção é atacar o governo democrata. Alguma mentira aí? Não. Basta assistir aos programas do horário nobre da emissora para entender do que Anita fala.


Reação


A surpresa, na verdade, foi a Casa Branca se posicionar publicamente sobre um canal de TV. A atitude assustou os outros canais de notícias, que passaram a questionar se ela seria justa ou correta. Curiosamente, até a MSNBC tomou o lado da Fox News. No programa de debates Morning Joe, os apresentadores e convidados criticaram a posição do governo, afirmando que se trata de um desserviço à população. ‘É justo dizer que os correspondentes da Fox News na Casa Branca são a oposição republicana? ‘, perguntou o comentarista político conservador Pat Buchanan. ‘Não acho que seja justo. Não acho que seja justo dizer isso sobre Chris Wallace, que tem um programa de notícias objetivo. Chamá-lo de oposição republicana é jogar um jogo político baixo e não ajuda a Casa Branca’.


Na CNN, o veterano analista político David Gergen classificou a estratégia de ‘arriscada’. ‘Se você vai tornar a questão contra a mídia algo pessoal, vai ver que a animosidade irá apenas aumentar, e vai ver que vai acabar atraíndo público para as pessoas que ataca’, destacou Gergen, completando que, ao dar toda esta importância à Fox News, a Casa Branca contribui para fortalecer o papel da emissora.


Horário nobre


A Fox News critica os comentários de Anita. Segundo Michael Clemente, vice-presidente sênior da emissora, a Fox é como um jornal, com seções de notícias e seções de opinião. ‘É espantoso que a Casa Branca não saiba fazer a distinção entre programas notícias e de opinião’, diz ele.


A crítica é válida, mas talvez a dificuldade do governo em diferenciar jornalismo de opinião, neste caso, também seja. A imagem mais forte passada pela Fox News é a de seus ferozes apresentadores antidemocratas, como Bill O’Reilly e Sean Hannity. Há boas reportagens? Sim. Há programas com pontos de vista moderados? Há. Mas ‘a cara’ da emissora, no fim das contas, é a cara que ela imprime no horário nobre. E esta faz, diariamente, uma análise política altamente parcial e, muitas vezes, equivocada.


‘Você pode especular que o presidente simplesmente cansou da Fox. Ele fez críticas diretas no passado. Mas eu suspeito que seja mais complexo do que isso’, afirmou o jornalista David Westphal, da Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, em um debate com os leitores do site do Washington Post. Independente de fortalecer ou não o canal, ou de estar correto ou não, o governo deu início a um debate pertinente sobre a dinâmica entre poder público e grande mídia em uma sociedade democrática. A Casa Branca decidiu entrar no jogo; basta ver como isso irá afetar, no longo prazo, os times midiáticos.

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