Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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O jornalismo cultural perde ou ganha com a era digital?

Por Franthiesco Ballerini em 19/12/2016 na edição 928

Enquanto leitores e espectadores tendem a agradecer a era digital por trazer uma pluralidade de canais e conteúdos informativos gratuitos, os profissionais da área costumam contar os cacos após o advento da internet no Brasil, nos anos 1990, que embora tenha trazido uma “lua de mel” financeira – até o início dos anos 2000 – logo depois se transfigurou em perdas paulatinas de assinantes de jornais, revistas, TV paga e uma migração em massa para as fontes gratuitas de informação, como redes sociais.

Este é o pensamento comum, mas lutar contra as plataformas digitais é querer subir as cataratas do Iguaçu a nado. Impossível. Talvez já haja uma luz no fim do túnel, como tem demonstrado os experimentos de cobrança de conteúdo exclusivo para assinantes de veículos como o The New York Times, que obteve ganhos significativos na plataforma digital em 2016.

Mas existe outra face muito vantajosa da era digital, e aqui vamos focar no universo do jornalismo cultural. Nenhum outro momento da história da imprensa, desde Gutenberg, foi tão rico para promover, criticar, informar e divulgar produtos culturais como no século 21. Vejamos as benesses e os entraves do ofício deste jornalismo especializado, área por área:

CinemaO universo que recebe generosos espaços na mídia pode, hoje, ter sua cobertura jornalística muito próxima à riqueza de conteúdo audiovisual dos produtos analisados. Uma boa crítica cinematográfica deve não só analisar a narrativa do filme, mas também aspectos como direção de fotografia, direção de arte, atuação, som etc. Por sua vez, uma boa reportagem mostra os bastidores da produção, entrevistas etc. O advento digital dá a oportunidade de rechear o texto com links nas quais o leitor pode assistir, em paralelo ao texto, à entrevista com o diretor e ver um exemplo das técnicas do diretor de fotografia num trecho específico do filme. Basta, porém, que os divulgadores do filme permitam que se coloque um trecho – e não apenas o trailer – para enriquecer o conteúdo jornalístico, o que é difícil para lançamentos, e mais fácil para filmes fora da agenda cultural. E este entrave vale para quase todos os campos que serão citados abaixo.

TeatroAinda que seja a arte do ao vivo, talvez seja o universo que mais precise dos recursos digitais para formar sua base de dados, na transformação da história do hoje (jornalismo) para a História. Que maravilha seria ler uma crítica de teatro na qual podemos ver um trecho da atuação do elenco e da composição cênica, por exemplo. Algumas revistas, como Veja e Época, já utilizam este excelente recurso em suas páginas online. Faltam os jornais terem também este hábito, disponibilizando, em suas versões digitais, links dentro das próprias páginas da matéria, como a Folha Impressa na versão para tablets.

Artes VisuaisNo Brasil, talvez seja o campo do jornalismo cultural que melhor já tem explorado os recursos digitais. As revistas semanais já exploram este potencial, colocando – na revista online ou no site da mesma – uma galeria de fotos com as obras do artista plástico que está em exposição na cidade, de modo que se possa ver, em detalhes (com zoom), as pinceladas e técnicas de composição do mesmo, algo impossível com a resolução das imagens que são impressas em revistas, e muito menos em jornais. Isso sem falar do recurso, às mãos dos críticos, de disponibilizar links que remetam aos artistas e obras que são referências para aquele que está sendo objeto de análise crítica.

LiteraturaAtualmente, jornais e revistas já oferecem trechos do livro-objeto de análise da reportagem ou crítica para que o leitor possa degustar um pouco da obra analisada. Mas a literatura tem sofrido com uma redução do espaço nas versões impressas, que privilegiam o universo cultural mais pop (cinema, TV, música). Então uma das vantagens da era digital é, justamente, possibilitar a publicação de textos maiores, mais profundos, sobre um escritor ou suas obras, já que na internet se publica um texto no limite de seu potencial, não do espaço dado pelo editor.

MúsicaQuando um crítico diz que as letras de tal banda são fracas, que a melodia é uma repetição cansativa do que se tem feito há décadas e que a performance do músico é sonolenta, o mesmo só será levado a sério se dar as devidas argumentações a cada ponto analisado, do contrário tudo será puro achismo. A era digital permite que este crítico coloque um link para que o leitor veja um trecho da performance da banda num show, depois coloque outro em que se mostra as melodias semelhantes que se tem feito à exaustão e outro colocando a letra integral da música. Pronto, a plataforma digital enriquece a argumentação do repórter e do crítico.

Novos UniversosO mesmo vale para os campos mais recentes (em termos históricos) do jornalismo cultural, como a Moda, Games, Televisão e Gastronomia, na qual repórteres e críticos têm a disposição recursos para colocar uma multiplicidade de imagens, vídeos, depoimentos, textos e outras referências que enriqueçam a oferta de conteúdo cultural para o leitor.

Não há dúvidas de que o advento digital traz desafios imensos para o jornalismo profissional, especialmente para se tornar novamente rentável. Mas quando este Ovo de Colombo for descoberto, certamente os leitores terão uma experiência muito mais rica do que na era impressa. Quando os leitores finalmente se cansarem de fontes sem credibilidade e profissionalismo jornalístico nas redes sociais, recorrerão às empresas que oferecem informação e reflexão bem construídas. E terão, junto, os bônus que a era digital trouxe pela primeira vez na produção de conteúdo jornalístico interativo.

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Franthiesco Ballerini é jornalista, autor do livro ‘Jornalismo Cultural no Século 21’

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