Segunda-feira, 23 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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IMPRENSA EM QUESTãO > Imprensa mundial vê campanha antecipada

O marco de Porto Alegre

Por Flávio Arantes em 30/01/2018 na edição 972

A mídia internacional aproveitou o julgamento de Lula em Porto Alegre para analisar o que vem pela frente e contextualizar para o mundo o Brasil em mais um momento de drama. O que se extrai de principal é que o revés de Lula antecipa a campanha eleitoral e eleva ainda mais a temperatura já escaldante de um país partido ao meio.

O julgamento recebeu amplo espaço na imprensa da América Latina, Estados Unidos e Europa. É possível dividir a cobertura em cinco partes:

1. O impacto

A revista britânica The Economist afirma que “a campanha presidencial, de fato, começou em uma sala de audiências”, o que significa que a eleição, “considerada por alguns como a mais importante desde o fim da ditadura em 1985, será uma bagunça”.

Dom Philips, correspondente do britânico The Guardian, escreveu que a decisão complica os planos de Lula de concorrer a um terceiro mandato “e marca uma extraordinária mudança de destino para o líder mais popular da história moderna do Brasil”.

A BBC News vai na mesma direção. “As divisões da sociedade brasileira provavelmente se aprofundarão após essa decisão. Os apoiadores de Lula argumentarão que a sentença é um ataque à democracia e seus críticos verão como prova de que o PT é corrupto.”

Anna Jean Kaiser diz no Washington Post que “a decisão moldará a corrida presidencial de 2018 em uma nação exausta por escândalos políticos sem parar”.

O espanhol El País lembra que Lula “está ameaçado de ir para a prisão nas próximas semanas”, um componente a mais para incendiar o Brasil.

Eleonora Gosman, correspondente do argentino Clarín, afirma que a possibilidade de cadeia é vista “politicamente como muito duvidosa” e que muitos temem um “eventual incêndio” se Lula for para trás das grades.

O cientista político Fernando Schüler, do Insper,  Instituto de Pesquisa e Educação de São Paulo –, vê mais do que bagunça, campos irreconciliáveis e possibilidades de incêndio na decisão da Justiça. Lula é favorito, mas sua candidatura é extremamente incerta no momento. É uma situação dramática para a democracia brasileira”, disse à agência AFP.

No El País, frases inflamadas de Lula na manifestação em São Paulo após o julgamento, o ato seguinte da campanha eleitoral, que “começou na sala de audiência”.

“Quero desafiar os três juízes que me condenaram que apresentem algum crime que eu tenha cometido.”

E seguiu, entre cansado e emocionado, segundo o jornal.

“Quero que vocês saibam que quem está no banco dos réus é o Lula, mas quem foi condenado é o povo brasileiro.”

“Quero avisar à elite brasileira que esperem. Esperem, porque vamos voltar.”

O mercado financeiro, voz de parte significativa da elite do país, ficou eufórico com a derrota. “A Bolsa de Valores celebrou com um aumento de 3,72% e um recorde de 83.680 pontos a confirmação da condenação por corrupção do ex-presidente”, escreveu o argentino La Nación.

Em editorial na sexta-feira, o Financial Times defende a Lava Jato e sua imparcialidade, mas critica a empolgação do mercado com a condenação de Lula, decisão que, para o jornal, não engrandece o Brasil. O liberal diário inglês afirma que o Brasil “precisa de um partido forte de esquerda, como o PT”.’

2. O processo e a sentença

Em maior ou menor grau, as publicações deram espaço para argumentos críticos à decisão da justiça de Porto Alegre e à sentença do juiz Sérgio Moro.

“Aqueles que apoiam Lula questionam a confiabilidade e as motivações das testemunhas que o implicaram no caso do apartamento. Afirmam que suas declarações foram feitas como parte de um acordo de delação premiada com a justiça”, diz o Times em referência principalmente ao depoimento de Léo Pinheiro, da OAS, peça central da denúncia de Moro.

No encerramento da reportagem, o jornal afirma que “políticos experientes e acadêmicos brasileiros têm alertado que proibir Lula de ser candidato prejudica a confiança do país em sua jovem democracia, abalada nos últimos anos com a remoção de (Dilma) Rousseff, em 2016, e o esquema de corrupção da Operação Lava Jato, que começou em 2014”.

A Der Spiegel cita o colunista conservador Reinaldo Azevedo como exemplo do grau de questionamento que pesa sobre a sentença. Para a revista alemã, Azevedo é um jornalista que não nutre “qualquer simpatia por Lula, mas leu as 800 páginas do veredito e vê os métodos usados por Moro e seus procuradores como uma ‘agressão contra a lei’: não há evidência factual e todas as alegações foram baseadas em premissas. (…) Mesmo a conexão com a Petrobras não tem provas”.

No argentino Página 12, Luis Bruschtein, um jornalista de esquerda respeitado e de longa tradição no país, diz que “a relação de Lula com a Lava-Jato tem como base uma delação comprada (a de Leo Pinheiro), que não apresentou evidência. Houve 73 testemunhos em 23 sessões e nenhuma forneceu um único argumento concreto”.

O El País escreve que “os juízes rejeitaram as alegações da defesa de que nem Lula nem sua família nunca ocuparam a casa e, de fato, não há documento que comprove que o ex-presidente é seu dono. Mas os magistrados argumentam que há uma ampla prova de que a propriedade estava reservada para a família de Lula e que eles até realizaram trabalhos de renovação para adaptá-la aos pedidos de seus futuros ocupantes”.

E segue: “O tribunal, como Moro já havia feito, também deu credibilidade total à premiada confissão do ex-presidente da construtora OAS, Leo Pinheiro, que revelou o acordo para dar o apartamento a Lula”.

A procuradora Anamara Osório Silva, diretora da Associação Nacional dos Procuradores da República, rebateu no Times as acusações dos que questionam a sentença e a decisão. “Esta não é uma perseguição política, é um caso contra um político acusado de cometer crimes graves. Ninguém está acima do judiciário e ninguém vai intimidar ou enfraquecer a determinação dos procuradores.”

E em todas as publicações está o juiz João Pedro Gebran Neto, com sua frase-síntese da decisão de Porto Alegre: “Há uma prova, além do que é razoável, de que Lula era um dos articuladores, senão o principal, do esquema de corrupção que operava na Petrobras”.

3. Lula na disputa

O Washington Post lembra que Lula “é a melhor chance da esquerda contra um campo de candidatos que inclui alguns que estão sendo comparados ao presidente Trump”, uma referência a Jair Bolsonaro e João Doria.

Mas Marcelo Cantelmi, editor de internacional do Clarín, escreve em um artigo que Lula não é só a melhor chance da esquerda. Muitos opositores do ex-presidente, o que inclui Michel Temer, defendem que o líder petista se apresente em outubro. “O argumento é que Lula deve ser derrotado nas urnas para evitar que seu mito se espalhe ainda mais.”

A Economist encerra sua reportagem com argumento parecido. “Muitos dos inimigos de Lula preferem que ele permaneça na corrida, em parte para persuadir seus seguidores a respeitar o resultado (das eleições)”, escreve.

O colombiano El Tiempo publicou uma ampla reportagem a partir de material da AFP, EFE e Reuters e explicou os caminhos dos recursos para que Lula siga na disputa: “A defesa pode apresentar dois recursos nos tribunais superiores: um ordinário, no STJ (Superior Tribunal de Justiça), e outro extraordinário, no STF (Supremo Tribunal Federal), o tribunal mais alto do país”.

No STJ, diz o jornal, “a defesa pode questionar aspectos legais da sentença e no STF, aspectos constitucionais como, por exemplo, o pleno direito à defesa. Em ambos os casos, a suspensão da sentença pode ser solicitada até que uma decisão seja tomada”.

“Uma coisa que poderia ser útil para Lula é que as considerações políticas provavelmente desempenharão um papel cada vez mais importante no processo”, disse ao Washington Post Peter Hakim, da ONG americana Inter-American Dialogue. “Com certeza, as decisões serão, na maioria das vezes, feitas por juízes mais honestos e competentes. Mas, como juízes nos EUA, eles têm pontos de vista políticos que afetam suas decisões.”

4. Lula fora

O PT e suas principais lideranças reforçaram em vários jornais um discurso muito similar sobre a inviabilidade de Lula: o partido não tem plano B. O mexicano Excelsior publicou texto da agência espanhola EFE onde a ex-presidente Dilma Rousseff diz que, se Lula for impedido de concorrer, “não somos nós que resolveremos essa contradição”.

O discurso de que é com Lula ou com Lula está na voz de lideranças diferentes do partido. Mas e se o ex-presidente não puder concorrer? “Do ponto de vista eleitoral, o jogo volta a zero”, disse ao The Guardian Geraldo Tadeu, professor adjunto de ciência política na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Heni Ozi Cukier, cientista político da ESPM, tem raciocínio semelhante no Washington Post. “Se Lula está na eleição, torna-se sobre quem pode vencer Lula. Sem ele, é um campo de jogo muito aberto.”

Os jornais, no entanto, não exploraram as possibilidades do jogo aberto e praticamente ignoraram outros pré-candidatos, como Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles. Mesmo Jair Bolsonaro e seu segundo lugar nas pesquisas foi citado mais como uma curiosidade de extrema direita.

Com material das agências AFP, EFE e Reuters, o colombiano El Tiempo diz que há setores do PT e da esquerda que pensam, sim, num plano B. “Consistiria na construção de uma sólida aliança com o resto da centro-esquerda e parte da esquerda para bloquear o caminho para as forças mais conservadoras”, relata. O nome? Ciro Gomes.

Já a The Economist diz que, sem Lula, o PT deve colocar na disputa Fernando Haddad ou Jaques Wagner. E que “quanto mais Lula permanecer candidato antes de se retirar, mais votos será possível transferir para seu substituto”.

5. As ruas

Com muitos jornalistas estrangeiros em Porto Alegre, não faltaram também opiniões da população. O argentino La Nación relata que “no parque Moinhos de Vento, no elegante bairro do mesmo nome, centenas de pessoas com bandeiras brasileiras realizaram uma vigília aguardando a decisão do TRF4. Eles comemoraram com aplausos o resultado contra Lula, que pode abrir a porta para uma nova etapa política no país sem a participação do ex-metalúrgico que influenciou a cena política brasileira desde meados da década de 80”.

O dentista Silvia Andreotti, 61 anos e que se definiu como “de direita, com orgulho”, disse ao jornal que “precisamos de um renascimento político e Lula é tóxico. Durante seus governos, a corrupção explodiu e duvidamos dos dados econômicos que nos asseguram que estamos experimentando um boom. Tudo foi manipulado e o que ele fez para os pobres foram apenas paliativos insustentáveis”.

O Le Monde ouviu o fazendeiro Deniset Ramos, de 32 anos, que viajou do interior do Rio Grande do Sul até Porto Alegre para acompanhar o julgamento. “Lula inocente? Ninguém é inocente. Mas Lula é o único que ajuda as pessoas.”

“A luta continuará. E ficará mais grave”, disse ao The Guardian Marilia Vieira, 48 anos, professora de Brasília e que passou 36 horas em ônibus para chegar a Porto Alegre.

No chileno El Mercurio, reproduzindo a Reuters, Tanice Korman, 29 anos, se queixou de que só há no Brasil “extremos de esquerda e direita”.

“Nós não temos políticos que representem a população.”

Em editorial no sábado, 27, o Le Monde diz que não é estranho que Lula tenha se rendido à tradição de clientelismo do sistema político brasileiro. Lembra as denúncias contra Temer e os 45 dos 81 senadores que respondem a acusações criminais. Para o diário francês, “a desgraça de Lula oferece um espetáculo angustiante de um mundo político em degeneração”.

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Flávio Arantes é jornalista, com passagem por alguns dos principais veículos no Brasil, como Folha de S.Paulo e Grupo Globo. Atualmente, reside em Bogotá, Colômbia.

 

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