Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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MONITOR DA IMPRENSA >

O nascimento de uma imprensa livre

05/05/2009 na edição 536

No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (3/5), diz o jornalista Johnny West em artigo no jornal britânico Guardian [3/5/09], é preciso celebrar ‘o sucesso do jornalismo independente no Iraque, contrariando todas as expectativas e apesar dos muitos perigos enfrentados’. West lembra que nenhum jornal iraquiano cobriu a queda de Saddam Hussein, em 2003.

Um dia após o exército americano ter tomado o controle sobre Bagdá e uma multidão ter derrubado a icônica estátua do ditador, o jornal oficial al-Thawra, do Partido Baath, de Saddam, não foi publicado. Questionado, o editor respondeu: ‘Que jornal?’. Na sua lógica e em toda a sua experiência como jornalista de um diário nacional, não havia jornal para ser produzido sem o aval das autoridades. Sem a permissão do partido, não havia notícia.

Paciência

Seis anos depois, o papel em branco se transformou em um louvável esforço para a construção de uma mídia independente no Iraque. West conta que, no ano passado, quando participava de um treinamento de uma semana com repórteres iraquianos na cidade de Erbil, testemunhou uma cena curiosa. Forças americanas e iraquianas estavam cercando a Cidade Sadr, berço da milícia Mahdi, do líder radical xiita Moqtada al-Sadr. Um comandante da milícia liga para a redação da agência de notícias independente Aswat al-Iraq e exige saber onde o correspondente da agência em Sadr vive. A Aswat al-Iraq havia publicado uma matéria em seu sítio sobre o assunto e o comandante dizia que o repórter precisava fazer umas ‘correções’.

Por uma hora, o editor tentou acalmá-lo ao telefone, sugerindo que ele desse seu nome e indicasse que aspectos da matéria considerava incorretos, e esta informação poderia ser inserida nas futuras versões da história. Pacientemente, explicou que a agência não trabalhava para nenhuma parte; de forma educada, afirmou que não forneceria informações pessoais sobre o repórter ou mudaria, sem explicações, o conteúdo da matéria. No fim, pareceu feliz com o resultado. ‘É mais um cara com uma arma que – talvez – entenda que não somos nem amigos nem inimigos. Isso vai levar muitos anos e muitas conversas como esta. Faz parte do nosso trabalho assim como a apuração em si’, concluiu o editor.

Trabalho difícil

Alguns profissionais de imprensa iraquianos pagaram com suas vidas por esta causa – segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras, 171 deles até agora. Mas os que ficam não desistem. Além do perigo mortal, o jornalismo iraquiano sofre com problemas comuns a redações do Ocidente, como baixos salários e pouco treinamento. A classe política também passou a prestar atenção ao sucesso desta nova imprensa, tentando intimidá-la, suborná-la ou cooptá-la a seus interesses.

Mas West lembra que o domingo foi dia de celebrar a coragem e a integridade de milhares de homens e mulheres iraquianos que continuam a se arriscar pelo jornalismo livre. ‘Eles são de todas as etnias e trabalham juntos como um modelo de profissionalismo não sectário. Muitos jovens repórteres iraquianos se adequam perfeitamente aos estereótipos populares dos jornalistas: vestem-se mal, têm problemas com autoridade e podem acabar com um serviço de buffet completo em segundos. Tem sido uma honra trabalhar com eles.’

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