Domingo, 17 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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O que acontece quando se vota com o fígado

Por Roberto Savio em 04/07/2016 na edição 910

Os especialistas em pesquisas dizem que quando as pessoas consultadas não se sentem à vontade dizendo que vão votar é porque, no plano racional, não lhes agrada a papeleta que colocarão na urna. Em outras palavras, os eleitores agem mais por uma questão visceral do que cerebral.

Isso foi o que aconteceu na Grã-Bretanha no dia 23 de junho, quando se realizou o referendo para decidir se saía ou se ficava na União Europeia (UE), divulgado pela sigla Brexit [British exit, saída britânica] e as pesquisas de boca de urna davam ligeira vantagem à opção por ficar, a qual acabou não sendo aquela escolhida pela população.

O referendo pelo Brexit foi realmente uma questão visceral. A campanha pela saída baseou-se no medo de uma invasão maciça de turcos decorrente da possível incorporação de seu país à UE, o que é totalmente falso, e que a Grã-Bretanha pagava à União Europeia 50 milhões de libras [R$ 217 milhões] por dia, outra mentira.

Mas a questão central, colocada principalmente por Boris Johnson, ex-prefeito de Londres, foi: “Nós [os britânicos] já não somos livres. Consigamos a nossa independência.” Johnson chegou, inclusive, a comparar a União Europeia com a Alemanha nazista, que queria apoderar-se da Europa. É claro que suas intenções eram simples: que o primeiro-ministro David Cameron renunciasse, para então tomar seu lugar. Um exemplo brilhante de idealismo!

Tudo o que é velho não atendeu às necessidades

O grito de independência agitou a tendência nacionalista dos nostálgicos da época imperial, que acreditavam que seu país receberia um enorme fluxo de estrangeiros se ficasse na UE e que não controlaria suas fronteiras. O fato de que as estavam controlando, devido a um acordo com a União Europeia, passou milagrosamente a segundo plano.

Entretanto, além desse elemento específico da identidade britânica, os motivos para o Brexit foram os da onda xenófoba, nacionalista e populista que se propaga pela Europa. A campanha contou com esses três elementos e mais um quarto: a revolta da população contra suas elites.

O que agora, finalmente, os analistas acabam por compreender é que os argumentos racionais deixam de ser importantes; o que conta é o medo. E tudo o que ofenda a elite e o sistema cria uma reação iconoclasta que leva a descartar seus ícones, o que agora é uma variável política em toda a Europa.

Um bom exemplo disso é a cidade italiana de Turim, onde, dias antes do referendo britânico, o honesto, eficiente e respeitado prefeito Piero Fassino, que realizou um bom trabalho, perdeu as eleições para uma jovem do Movimento 5 Estrelas sem qualquer experiência prévia. As pessoas sentem a urgência de se desfazerem de tudo o que é velho porque evidentemente não conseguiu atender às suas necessidades.

Classe média perdeu 18 milhões de pessoas em 10 anos

É muito cedo para prever a desintegração do Reino Unido, com a Escócia, uma vez mais, reivindicando sua independência. O voto decisivo do Brexit foi da Inglaterra, onde um número considerável de cidadãos sentiu o repentino novo despertar de sua identidade.

Na França (outro império perdido), foi o alerta de Marine Le Pen que reabriu o debate sobre a identidade francesa, a necessidade de evitar a diluição no multiculturalismo e na imigração – em especial, dos muçulmanos – e a recuperação do controle das fronteiras francesas da dominação da UE.

No próximo ano haverá eleições na Alemanha e na França. Nesta última, Marine Le Pen encabeça o que atualmente é o maior partido de sua país, a Frente Nacional, e será difícil mantê-la afastada do poder. No caso da primeira, será possível ver o crescimento da direitista e populista Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland, AfD), que baseia sua pretensão de sair da União Europeia na reapropriação da identidade alemã e de sua soberania.

Um dos poucos elementos positivos da aprovação do Brexit é que cresce o coro de vozes que indicam que a globalização não cumpriu sua promessa – a riqueza para todos – e que, por outro lado, criou uma terrível desigualdade social que faz com que umas poucas pessoas concentrem grande parte da riqueza nacional e muitas outras fiquem à margem. Segundo dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), a classe média europeia perdeu 18 milhões de pessoas nos últimos dez anos.

Burocratas não eleitos vivem desconectados da realidade

Durante a campanha para o referendo britânico, o fato de que os banqueiros apoiavam quem queria ficar na UE teve efeito contrário sobre 27% dos cidadãos, cujo salário não chega ao fim do mês e que veem como mil banqueiros e 1.500 gerentes de empresas ganham um milhão de libras [R$ 4,35 milhões] por ano.

Atualmente, até o Fundo Monetário Internacional publica estudos sobre como a desigualdade social é um obstáculo ao crescimento e sobre a importância de investir em políticas de bem-estar dirigidas para a inclusão e a igualdade.

Alguns observadores poderiam dizer que isso ocorre porque a reação à globalização não cria exclusivamente ondas de direita. Com o sentimento de que quem está no sistema ignora os seus problemas, os novos movimentos de massas vêm da esquerda, como o Podemos, na Espanha.

Na Itália, após ganhar as eleições provinciais de dias atrás, o Movimento 5 Estrelas surge com a probabilidade de assumir o governo nacional, atualmente nas mãos do Partido Democrático, social-democrata. Após dois anos no poder, seu líder, o “jovem” Matteo Renzi [de 41 anos] já parece uma velha figura do sistema.

Talvez venha a se tornar claro que a UE sofre do mesmo problema. Todo mundo fala de seu papel à margem do mundo, do fato de que os burocratas não eleitos de Bruxelas vivem desconectados da realidade e se dedicam a discutir normas sobre como empacotar tomates e indiferentes aos problemas da cidadania europeia.

Uma estadista ou uma dirigente nacional bem-sucedida?

Devemos fazer uma pausa para refletir que essas são as mesmas críticas que se fazem à Organização das Nações Unidas. Mas as organizações internacionais só podem fazer aquilo que seus membros permitem que seja feito. A UE é uma organização supranacional – a única que existe –, mas seu poder político está em mãos do Conselho de Ministros, onde os governos se sentam para tomar decisões. Cabe à Comissão Europeia implementá-las e os burocratas têm autonomia para decidir sobre o tamanho do pacote de tomates.

Mas em seguida esses mesmos governos nacionais que tomaram as decisões concluem que é conveniente denunciar a ineficiência da UE. Esse jogo irresponsável tem o Brexit como resultado concreto e agora os governos devem pensar duas vezes se continuam pelo caminho do discurso duplo.

De qualquer maneira, finalmente o imperador ficou nu.

A Europa está desintegrada e a maior parte da responsabilidade recai sobre a Alemanha, que impediu todas as tentativas de criar medidas econômicas e de bem-estar europeias porque não quer pagar pelos erros dos países devedores, como a Grécia e a Itália.

O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, chegou a responsabilizar o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, por 50% dos votos obtidos pela xenófoba AfD nas eleições alemãs. Independentemente do que se diga, Draghi age em função dos interesses da Europa, e não dos eleitores alemães.

A Alemanha é, de longe, o país mais poderoso da UE. Acaba sendo irônico que todos os cargos importantes da burocracia da União Europeia sejam ocupados por britânicos e alemães. De fato, quem controla o sistema e o debate sobre o empacotamento de tomates tem origem nesses países. Mas é à chanceler (chefe de governo) alemã Angela Merkel que se atribui a condução da UE.

Agora, a Alemanha deve dizer se continua com sua pretensão de germanizar a Europa ou se volta a europeizar a Alemanha, como quando a capital era Bonn. Esse país ignorou de forma sistemática todos os apelos, europeus e internacionais, para promover uma política diferente na UE. Negou-se a aumentar as despesas, a compartilhar o financiamento de qualquer iniciativa sobre obrigações financeiras europeias ou qualquer medida de socialização da crise.

Mas é um erro pensar que isso se deve à personalidade peculiar de Schäuble. A grande maioria dos cidadãos alemães compartilha da crença de que não se deve pagar pelos erros de outros. Para ser justo, diga-se que o governo alemão nunca se esforçou para educá-los sobre as necessidades europeias. E agora talvez seja tarde demais.

As próximas eleições serão difíceis para o atual governo alemão. As previsões indicam que a AfD irá obter uma grande quantidade de votos e os dois partidos tradicionais, o Partido Social-Democrata (SPD) e a União Democrata Cristã (CDU), estão muito preocupados.

O que irá Angela Merkel fazer após o triunfo do Brexit?

Irá iniciar uma Europa a duas velocidades, com os países do Báltico, a Polônia, a Hungria e outros eurocéticos? Estará disposta a mudar sua política egocêntrica e desempenhar um papel verdadeiramente europeu, apesar do crescimento da AfD?

A Europa depende claramente da Alemanha e é agora que veremos se Angela Merkel é uma autêntica estadista ou apenas uma dirigente nacional bem-sucedida.

***

Roberto Savio é criador de OtherNews , um projeto jornalístico sem fins lucrativos.

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