Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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MONITOR DA IMPRENSA >

O que projetos jornalísticos bem sucedidos têm em comum

Por Khari Johnson em 08/07/2015 na edição 858

No passado, foram chamadas As 3 Grandes . Elas gozam da distinção de serem, ao que sabemos, as únicas campanhas de financiamento coletivo [crowdfunding] que levantaram mais de um milhão de euros (um pouco menos de R$ 3,5 milhões) em capital inicial para novas empresas de mídia na história do jornalismo.

Editores das empresas jornalísticas digitais holandesa, alemã e espanhola – De Correspondent, Krautreporter e El Español – falaram, há cerca de três meses, sobre o que deu certo e levou suas campanhas a uma reação tão forte.

Por motivos óbvios, escrevemos sobre cada uma delas. Os links são os seguintes: Krautreporter: Crowdfunding journalism is a movement and it’s happening now; Record-breaking startup De Correspondent may expand to U.S.; e The story behind (and tips from) the most successful crowdfunding campaign in the history of journalism

Leia, a seguir, algumas das coisas que as campanhas de financiamento coletivo tiveram em comum.

  1. Nenhuma delas usou Kickstarter, Indiegogo ou uma plataforma importante

El Español trabalhou com uma plataforma de financiamento coletivo espanhola, enquanto De Correspondent e Krautreporter criaram suas próprias plataformas.

El-Espanol

A plataforma do De Correspondent foi feita para realçar o número de pessoas que contribuíram com a campanha e não destacar o montante de dinheiro arrecadado. Os organizadores da campanha deixaram claro, logo de saída, que iriam precisar de 15 mil apoiadores que pagassem uma assinatura anual de 60 euros (cerca de R$ 200) para conseguirem o capital inicial para por o site em funcionamento.

de-correspondent

O Krautreporter usou uma imagem semelhante a um termômetro que se estendia ao longo da página com um gráfico de 0 a 100% para acom0anhar sua campanha de arrecadar um milhão de euros. Posteriormente, eles se arrependeriam dessa decisão, disse Frederik Fischer, do Krautreporter.

Krautreporter

As pessoas participam com mais vontade de campanhas que acreditam que serão bem-sucedidas e visualizar um avanço de zero a um milhão de euros pode parecer uma subida difícil e lenta, principalmente após a correria e a excitação pelo financiamento dos dois primeiros dias e você chega ao que Fischer chama o vale da morte.

  1. Cada empresa era um conceito que não existia antes

Antes de começarem suas campanhas de financiamento coletivo, De Correpondent e Krautreporter não haviam publicado uma única matéria. Tecnicamente, El Español começou a publicar algumas matérias durante sua campanha, mas era uma coisa meio devagar que não pretendia, de maneira alguma, refletir a experiência com que os leitores viriam a contar por parte de El Español.

Por mais importante que um produto palpável possa parecer, há coisas mais importantes a serem consideradas, disse Ernst-Jan Pfauth, codiretor do De Correspondent. “As pessoas que apoiam projetos de jornalismo não participam em busca de um negócio; elas participam porque querem apoiar algo que consideram importante”, disse ele.

  1. Não é sobre você

Sim, os jornalistas estão perdendo os empregos e a segurança nos empregos. Sim, no longo prazo isso pode impactar a democracia e a sociedade. Sim, isso é importante. Os leitores se preocupam com isso? Talvez não, com certeza não o suficiente para que isso seja o eixo de uma campanha de financiamento coletivo, disse Pfauth. “Optamos por não falar de nossos problemas, e sim de como poderíamos resolver os problemas deles”, disse Pfauth. “As pessoas estão muito mais interessadas em ouvir como você as pode ajudar.”

  1. Encontre a dor

Encontre a dor de uma audiência ou de uma comunidade, disse Fischer, uma dor concreta. Depois aproveite a oportunidade para ser útil. “Você tem que tomar muito cuidado em relação ao ambiente jornalístico em que você irá agir”, disse ele. “Você tem que ter consciência de que está realmente resolvendo um problema para aquelas pessoas, para sua audiência.”

El Español aproveitou o mal-estar com as autoridades na Espanha e prometeu reportagens de jornalistas destacados e independentes.

Tanto o De Correspondent quanto o Krautreporter acreditam que a dor que identificaram sejam as notícias que não chegam às manchetes ou sofrem com a influência de anunciantes. “Nós não precisamos de uma seção de viagens ou de carreiras apenas porque os anunciantes gostam disso. Não temos que competir com enormes redes sociais em busca de orçamentos publicitários. E, o mais importante: não temos que tornar nossos membros um ‘grupo alvo’.”

Esta pode ser uma boa hora de mencionar que alguma semelhanças compartilhadas pelo De Correspomndent e pelo Krautreporter nada têm de surpreendente, uma vez que os fundadores de ambos os veículos falaram abertamente um com o outro antes de suas campanhas.

  1. Crie uma comunidade e comece um movimento

Cada campanha tinha por objetivo atrair uma audiência inicial, e não apenas dinheiro. “De certa forma, o financiamento coletivo é um modelo de negócios, mas nós descobrimos que também pode ser uma ferramenta editorial muito, muito poderosa”, disse o editor do El Español. “A principal coisa que fizemos, o principal motivo de termos escolhido o financiamento coletivo também foi uma maneira de tentarmos envolver a nossa comunidade, de chegar às pessoas, de tentar envolver as pessoas.”

Fazer uma campanha que seja mais do que dinheiro é uma boa ideia. As pessoas sentem que fazem parte de algo maior, disse Pfauth. “…Por favor, por favor, lembre-se que não está começando uma publicação. Você está começando um movimento”, disse ele.

O jornalismo de financiamento coletivo é “um movimento maior, um movimento europeu de financiamento coletivo que está estourando, principalmente nos últimos meses” disse Fischer a uma audiência do Festival Internacional de Jornalismo told an audience at the International Journalism Festival.

  1. Jornalistas nacionalmente conhecidos estavam envolvidos em cada campanha

Jornalistas conhecidos acrescentam à narrativa por trás da campanha e podem contribuir com confiança para o projeto. Também atraem a atenção da mídia nacional, o que os três projetos conseguiram em seus respectivos países.

De Correspondent foi anunciado em 2013 no mais popular talk show da Holanda. Pfauth e o co-fundador Rob Wijnberg trabalhavam na NRC Media, uma grande empresa jornalística holandesa.

Em artigo publicado recentemente na Columbia Journalism Review, o editor de El Español, Pedro Ramírez, foi qualificado como “provavelmente o maior jornalista espanhol (e europeu) dos últimos 25 anos”. Antes, ele trabalhava em El País, o segundo maior jornal da Espanha, enquanto ambos os co-fundadores do jornal vieram para a nova empresa do jornal El Mundo, o maior do país.

Sebastian Esser e o diretor-executivo do Krautreporter também têm um histórico de trabalhar para organizações jornalísticas respeitáveis, assim como os freelancers que se envolveram na campanha.

  1. Alternativa aos grandes jornais

Alternativo é uma palavra muitas vezes encontrada salpicando textos sobre jornalismo financiado coletivamente. Estas campanhas não foram diferentes.

  1. Gratificações valiosas

De Correspondent e o Krautreporter prometeram que, por 60 euros anuais, você receberia uma experiência independente, sem publicidade. Você se junta a uma comunidade, participa de eventos exclusivos e faz parte de uma relação leitor-repórter mais inclusiva. Ambas as publicações querem que seus leitores sejam fontes e se envolvam mais do que apena lendo e compartilhando redes sociais.

El Español foi um pouco mais longe, permitindo que os leitores comprem ações e se tornem investidores em sua justacampanha de financiamento coletivo.

***

Khari Johnson é jornalista e pesquisador de mídias locais

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