Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MONITOR DA IMPRENSA > ENTREVISTA / BEATRIZ SOLÍS E SARA LOVERA

O narcotráfico e o abismo mexicano

Por Mauro Malin em 05/10/2011 na edição 662

Entrevista realizada em 30 de agosto de 2011 em Manágua, durante a sétima reunião interna dos Observatórios em Rede –Meios de Comunicação na América Latina (ver “Processos eleitorais na América Latina”)

Na década de 1980, um oficial do Exército brasileiro e um do Exército americano eram colegas num curso na Cidade do México. Um dia, o americano disse que tinha sido convidado por um amigo mexicano para tomar um drinque na casa dele e podia levar um convidado. E lá foram visitar o oficial mexicano, já na reserva. Estranharam o tamanho da casa, piscina, três carrões na garagem. O mexicano bebeu mais do que os outros e, a horas tantas, rasgou o véu da hipocrisia e perguntou se estavam estranhando seu padrão de vida. Os convidados nem precisaram responder. Ele deu a explicação: tinha passado dez anos trabalhando na Alfândega. E, para completar o quadro, contou que de tempos em tempos um oficial corrupto era “pego” – escolhido por algum critério interno do grupo, ou por sorteio −, julgado, condenado, passava anos na prisão, mas sua família continuava vivendo bem e, quando ele saía da cadeia, todo o patrimônio amealhado ilegalmente estava garantido. Assim davam uma satisfação à opinião pública e tocavam em frente, revelou, agora totalmente embriagado.

Três décadas depois, o grau quase incomparável de corrupção no México é o pano de fundo de um pesadelo. Na entrevista abaixo, Beatriz Solís, pesquisadora em Comunicação da Amedi (Associación Mexicana de Derecho a la Información), e Sara Lovera, jornalista e militante feminista, traçam um panorama muito mais grave do que o oferecido aos leitores, ouvintes e telespectadores brasileiros.

Editorial ingênuo

Na edição da Folha de S.Paulo de terça-feira (4/10), o editorial “Tragédia mexicana” é uma demonstração de que os jornalistas brasileiros precisam saber mais sobre o sofrido vizinho sulista dos Estados Unidos. O texto consegue, e isso é relevante, tirar a conclusão de que é perigoso empregar militares numa “guerra” contra traficantes. Não consegue enxergar muitas outras coisas tão ou mais relevantes.

Por exemplo, como a mídia mexicana ajudou involuntariamente a agravar a situação. Solís descreve o processo na primeira resposta: tratou o fenômeno no noticiário policial rotineiro, depois apoiou a militarização do conflito – uma ajuda ao presidente Felipe Calderón −, e, numa terceira etapa, concertou-se em torno de estrepitoso decálogo que, segundo a pesquisadora, nem ela mesma cumpre.

No editorial, a mídia mexicana é apresentada como vítima da violência obrigada a praticar a autocensura. Nem passou pela cabeça do editorialista que ela mesma, mídia, tenha alimentado por omissão, falta de clareza e cumplicidade com poderosos a fera que agora a encurrala.

Estado traficante

Neste ano, as duas emissoras que constituem o duopólio da televisão mexicana, Televisa e Azteca, foram pagas pela polícia e pela Marinha, respectivamente, para fazer seriados que glorificam integrantes dessas corporações como heróis da luta contra o narcotráfico. A Marinha, explique-se, foi acionada depois da desmoralização do Exército.

O editorial da Folha também fala da corrupção do Exército mexicano como consequência do contato direto com o narcotráfico. Nada. O Exército mexicano tem estruturas historicamente corruptas. O que se vê hoje é mais um capítulo de uma longa história.

Não só o Exército. É o Estado mexicano. Quando perguntadas sobre a existência de meios de comunicação independentes, lúcidos, capazes de publicar investigações dolorosas, Solís e Lovera disseram que há sobretudo jornalistas competentes e bravos. E, entre eles, algumas mulheres se destacam, como Anabel Hernández, autora de vários livros-reportagens. Vive sob proteção policial.

No Vietnã, ninguém era de ferro

Hernández e outros narram que a ligação do Estado mexicano com o narcotráfico data da Guerra do Vietnã, quando fez um acordo para fornecer ao governo americano maconha e cocaína destinadas aos soldados na frente de combate. Como no caso de Bin Laden durante a invasão do Afeganistão pela então União Soviética, os Estados Unidos teriam armado o monstro que depois se tornaria seu inimigo radical.

A Guerra do Vietnã acabou, mas o tráfico ficou. Durante três décadas, a passagem da fronteira americana, principalmente por aviões, foi uma operação dos grandes cartéis colombianos. Desmantelados os maiores entre eles, cresceram os cartéis mexicanos. O que Anabel Hernández afirma – sem que ninguém até agora a tenha contestado, sublinha Lovera – é que o entendimento do Partido Revolucionário Institucional (PRI) com os “narcos” foi herdado pelo primeiro presidente de oposição eleito em 70 anos, do Partido Ação Nacional (PAN), Vicente Fox, que governou de 2000 a 2006. Hernández acusa Fox de ter recebido 20 milhões de dólares para facilitar a fuga da prisão de um dos chefes do cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán Loera, listado pela revista Forbes como um dos homens mais ricos do México.

Outras acusações feitas em seu livro: Juan Camilo Mouriño, que era ministro do Interior de Calderón, fez acordo com os narcotraficantes. Ele morreu num desastre de avião em 2008. Ismael “El Mayo” Zambada, o outro chefe do cartel de Sinaloa, carrega e descarrega droga livremente no Aeroporto da Cidade do México. A empresa Aviones S.A., ligada ao narcotráfico, faz manutenção da frota de aviões da Secretaria de Defesa Nacional.

Nunca se escreveu uma linha sobre o trabalho de Anabel Hernández em nenhum dos grandes jornais ou portais brasileiros.

Sangrenta fuga para a frente

O que teria levado Calderón, que governa desde dezembro de 2006, a romper a práxis antiga e lançar o Exército numa “guerra total” contra os narcotraficantes (total, não, seletiva: as entrevistadas dizem que poucos chefes do cartel de Sinaloa foram presos)? Uma jogada destinada a lhe dar legitimidade, ele que ganhou a eleição de 2006 sob acusação de fraude feita pelo adversário Andrés Manuel López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, e seus correligionários. É a interpretação de Solís e Lovera.

Calderón lançou um discurso segundo o qual tinha sido um erro conviver com o narcotráfico durante tantos anos. Agora tratava-se de “combater” esse inimigo da sociedade mexicana. Mas deu tudo errado. Um banho de sangue inominável seguiu-se à ruptura da convivência mais ou menos pacífica. O país está militarizado. As instituições perderam credibilidade. O Exército comete todo tipo de tropelia. Mata e prende inocentes. Brutaliza a população de vilarejos.

Paradoxalmente, a população pode caminhar em direção à aceitação de uma “solução dura”. Um golpe de Estado militar. Que só iria piorar as coisas. Solís e Lovera não acreditam nesse tipo de desfecho, mas detectam uma aceitação crescente da ideia.

Drogas, sempre, mas menos sangue

O PRI, que poderá ganhar a eleição de 2012, tem numerosos eleitos acusados de envolvimento com os cartéis. Um de seus pré-candidatos, o senador Manlio Fabio Beltrones, foi acusado em reportagem do New York Times, quando governador do estado de Sonora, de ligação com os “narcos”.

Solís e Lovera preveem que uma vitória do PRI levará a uma trégua com os cartéis, o que significaria queda do número de assassinatos ligados à atividade do crime organizado e do combate a ele.

O governo do Rio de Janeiro poderia fornecer expertise. Nunca chegou a se lançar propriamente numa “guerra” contra o tráfico. Avisa quando vai invadir para estabelecer UPPs. Avisar ou não dá quase no mesmo: sempre tem gente na polícia que informa os traficantes, a não ser quando a operação é feita para uma quadrilha substituir outra. As UPPs não coíbem a venda de drogas. O tiroteio e as mortes diminuíram. Talvez isso seja melhor do que uma pretensa “guerra” em que só haveria derrotados. Já há soldados upepeanos corrompidos, mas quem disse que não haveria?

Caso haja algum tipo de sucesso na luta contra os cartéis no México, as entrevistadas preocupam-se com a entrada dos traficantes em países da América Central, ainda (muito) mais frágeis do que Colômbia e México. Solís diz que esse processo já começou na Guatemala.

O material, como se verá adiante, é muito rico. Destaque-se, finalmente, no depoimento de Lovera: “Nós nos acreditávamos uma sociedade avançada, nos venderam isso, nós engolimos. Eu engoli a história do México. A história de que fomos a primeira revolução social da História, de que houve progresso”.

Mídia legitimou violência

Quando e até que ponto a mídia mexicana conseguiu perceber o que estava acontecendo e poderia causar isso que se vê hoje no México? Na medida em que na Colômbia o governo conseguiu ter algum controle, os grandes traficantes colombianos perderam terreno na fronteira do México com os Estados Unidos, e esse lugar foi ocupado por cartéis mexicanos. A mídia enxergou que isso poderia acontecer?

Beatriz Solís – Houve três etapas que o jornalismo mexicano atravessou em relação aos problemas da violência e do narcotráfico. Na primeira etapa, esses assuntos foram tratados como noticiário policial puro e simples. A cobertura de acontecimentos aparentemente isolados, produzidos por um fenômeno antigo, mas muito localizado em alguns estados do norte. Os jornalistas, de modo geral, não perceberam como isso iria crescer e converter-se num problema nacional grave como o que temos hoje em nosso país.

Na segunda etapa, que foi muito rápida, os meios foram muito pressionados pelo governo a acompanhar e legitimar a violência do Estado, por intermédio do Exército, frente aos grupos criminosos. Justificá-la, secundar o Estado, que necessitava disso, pois a população civil não estava tranquila, e continua intranquila, vendo o Exército na rua. Não estamos acostumados a ter militares nas ruas, e houve reação.

E a terceira etapa, quando realmente se dimensiona o crescimento do problema, o grau de violência, o modo como esses combates foram sanguinários, e a multiplicação dos grupos criminosos, há uma visão adotada por grupos de mídia, alguns deles muito comerciais, proclamando que iriam abordar, na imprensa, no rádio e na televisão, o problema da violência. Assinam um documento, com o qual eu, pessoalmente, não estou de acordo. Não usar a linguagem dos narcotraficantes, não exaltá-los, não dar notícias das mensagens deixadas por eles em cobertores sob os quais apareciam os mortos – no início, elas eram reproduzidas na imprensa, que se tornava, portanto, porta-voz da delinquência. É um decálogo adotado pela mídia mais comercial do país, que o assinou com muita espetaculosidade e não o cumpriu.

Todos estão desbordados

Qual é hoje a posição da mídia diante desta crise de violência?

B.S. Como cada um dos mexicanos e o próprio governo, sente-se desbordada por esta violência. [O mal-estar] não se esgota na estatística dos 50 mil mortos. Agora muitas organizações sociais − a mais recente é de um poeta cujo filho foi morto – converteram-se em movimentos sociais contra a violência. Só com uma posição muito obstinada conseguiremos fazer com que o governo mude de estratégia diante dos cartéis.

É uma política de apagar incêndios. Não há uma estratégia estrutural, integral, faz-se muito pouco em relação à economia e às finanças dos narcotraficantes, muito pouco em atenção às vítimas, aos órfãos – esses 50 mil mortos deixaram órfãos dos quais não nos ocupamos. O problema da violência gerou forte decomposição do tecido social. Muitos jornalistas, mas poucos meios de comunicação comerciais, compreendem de maneira clara o fenômeno, de modo a ajudar a sociedade a enxergar o que deve ser feito.

Qual é a característica marcante da cobertura jornalística?

B.S. A cultura do simples relato. Noticia-se, noticia-se, mas essa denúncia não vem acompanhada de outras coisas. O assunto saiu do controle do governo e também de muitos meios de comunicação comerciais.

A senhora tem se referido à violência do governo? Em que consiste?

B.S. No processo de conter os criminosos caíram muitas vítimas inocentes. E isso não é levado em conta pela estratégia. Ou seja, o governo, o presidente, chega e arrasa, e tem necessidade de legitimar sua estratégia política, sua decisão de empreender a “luta”. Precisa apresentar culpados que deteve. Muitos são criminosos e muitos outros, não sabemos, mas a mídia cumpre a função de legitimar a estratégia. Apresentam-nos os criminosos detidos e depois não nos dizem o que aconteceu com eles. Se chegaram ou não a ir para a cadeia, se ficaram presos três dias e foram novamente para a rua, se eram realmente culpados ou não. Não o sabemos.

A sociedade adoeceu

E como trabalha a mídia?

B.S. A estratégia da imprensa é a espetacularização do momento e a legitimação da estratégia do governo. Muitos já disseram que, se essa estratégia não for integral, não vai funcionar, e nós, mexicanos, estamos metidos numa situação de violência generalizada, de incorporação pelo narcotráfico, como exército de reserva, dos desempregados, jovens que não estudam. São cooptados porque os cartéis têm mais dinheiro que o próprio Estado. O armamento dos bandidos é mais poderoso do que o do Estado, e não lhes tiraram o dinheiro. O problema se tornou muito mais complexo e fez a sociedade mexicana adoecer.

Qual é sua opinião, Sara Lovera?

Sara Lovera Concordo substantivamente com a análise de Beatriz. Eu acrescentaria que há um longo período, desde os anos 1980, em que podemos identificar, com surpresa, jornalisticamente falando, o nível de intervenção e poder do narcotráfico, sobretudo na região de Sinaloa. Depois, foi notícia, muito espetacular, e tornou obrigatória algum tipo de análise, feita por alguns meios, o assassinato de um representante da DEA (Drug Enforcement Administration) no México, o caso [Enrique] Camarena [1986], que resultou na prisão de dois grandes narcotraficantes, dos quais agora se fez apologia.

Apologia de traficantes

Como assim?

S.L. Há um meio de comunicação que está fascinado pelo tema e o documenta em muitas dimensões, inclusive a vida privada dos narcotraficantes e suas famílias. Apresentam uma imagem compadecida de suas mães e de suas esposas. É um meio de comunicação muito sério, ou que era muito sério, muito importante, com enorme influência, a revista Proceso. Ela decidiu adotar como divisa a documentação dessas coisas, que são, a meu ver, desnecessárias, embora haja outros fatos que, sem a revista, não teríamos conhecido.

Quase vinte e cinco anos depois, com a chegada do atual governo, é uma estratégia do governo usar os meios de comunicação de massa, o que chamamos o monopólio da televisão, para legitimar sua chegada ao poder, que havia sido questionada. Há quem diga que [Felipe Calderón] ganhou a presidência por meio de fraude. Não está provado. O que houve foi uma disputa cerradíssima. Um intelectual que estudou o assunto chegou à conclusão de que não se sabia quem havia ganhado.

O governo atual, que se instala sem estar legitimado, como disse Beatriz, usa os meios de comunicação para iniciar a política que ele detecta como principal, e a põe em primeiro lugar, a luta contra o narcotráfico. Intervém a televisão, que é muito forte, acompanhando as primeiras ações deste governo no estado de Michoacán. Não era claro que houvesse um nível tão grave de criminalidade ou de narcotráfico em Michoacán, agora uma das regiões paradigmáticas [da violência]. E há um acordo com os meios de comunicação para fazer isso.

Grande imprensa é ligada ao governo

Por que a senhora afirma isso?

S.L. Porque teria sido necessário colocar os fatos em contexto. A imprensa mexicana “importante”, dos grandes meios, é muito ligada ao sistema e ao governo, e em geral o serve, especialmente a televisão monopolista. Eu participo de um programa de televisão que se chama Periodistas (Jornalistas; procurar na programação do Canal 21), onde analisamos semanalmente os meios de comunicação. E a conclusão a que chegamos eu e meus colegas de programa é que a mídia foi usada para espetacularizar uma política que não sabíamos que iria definir o atual mandato presidencial.

E neste momento a estratégia fugiu das mãos do governo. O que deveria legitimar o presidente da República acabou por controlá-lo. Ele não tinha conhecimento de causa. É de um partido [PAN] que nunca havia governado, começou a governar pela primeira vez há dez anos e tem agora o segundo presidente. Havia sido de oposição e não tinha todos os fios de uma questão que está enraizada na sociedade mexicana.

Para os soldados no Vietnã

Uma jornalista, Anabel Hernández, escreveu um livro importantíssimo, que se chama Los Señores del Narco, onde dá uma explicação histórica que ninguém desmentiu: o México fez um convênio com os Estados Unidos para produzir drogas que os Estados Unidos compravam para seus soldados na Guerra do Vietnã. [Ver entrevistas em vídeo de Anabel Hernández.]

Como funcionava, segundo a jornalista, esse convênio?

S.L. O governo mexicano produz, controla a produção, ou tenta controlar, durante muitos anos. E o que acontecia, sem que o soubéssemos, é que a atividade havia escapado desse convênio e se havia convertido em um negócio. Pensávamos que o México era um país de passagem, que a droga vinha do sul, da Colômbia, e passava pelos céus mexicanos em aviões. Alguns bandidos mexicanos estariam ligados ao esquema, porque os aviões precisavam se reabastecer de combustível. Sabíamos que existia como negócio. E os meios de comunicação, pouco a pouco, foram convertendo em tema central suas informações sobre o narcotráfico: redes de televisão, cadeias de rádio e diários impressos. No México, hoje, quase só há notícias sobre o narcotráfico.

O que é o monopólio de televisão no México?

B.S. É um duopólio.

S.L. É um duopólio privado. São duas televisões.

Do cimento à análise política

[Carlos] Slim e [Emilio] Azcárraga?

S.L. Não. Azcárraga e [Ricardo] Salinas. A cadeia Televisa e a cadeia Azteca. É um duopólio com uma estrutura muito mais complexa. Têm televisão, rádio, informação sistematizada, revistas, TV a cabo, e com frequência associam-se também com quem maneja a análise da informação e a produção de informação sistematizada para os políticos. Fazem sínteses [análises de conjuntura]. Há um homem riquíssimo, Lorenzo H. Zambrano, produtor de todo o cimento [do país], que a América Latina também compra, dono da Cemex, metido nisso – não se entende como uma empresa de cimento financia novo jornalismo [alusão ao apoio dado por Zambrano à criação da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano, de Gabriel García Márquez] e financia sistemas de informação para os políticos. Tem uma empresa do que eles chamam “análise da informação”. Parece que a informação se converteu em algo…

Tão concreto como o cimento…

S.L. Exato.

B.S. Assim é.

Existem no México jornais ou revistas que desempenham um papel diferente do mainstream que as senhoras descreveram? Quer dizer, algum que tenha brios, que consiga fazer uma análise mais lúcida, ou apenas os que são ligados à oposição? Ou seja, quem apoia López Obrador diz que a política do governo está errada, e perde credibilidade porque apoia Obrador.

B.S. Mais do que meios de comunicação, há jornalistas que, nas seções de opinião, em seus trabalhos jornalísticos, independentemente de estar envolvidos com um meio de comunicação grande, são respeitados e reconhecidos em termos de uma opinião objetiva. Ademais, os grandes periódicos entenderam que essa pluralidade é absolutamente necessária, porque vende.

Claro.

B.S. Se tenho um periódico em que não há relevo, em que todos escrevem a mesma coisa, não o compro. Mas compro um periódico onde há diversidade de opiniões, articulistas e jornalistas que respeito e nos quais acredito.

O risco de buscar a verdade

E há repórteres, jornalistas por excelência, que descrevem a situação como a veem, sem uma tomada de posição prévia a respeito das relações causais?

B.S. Sim, eles existem. Existem nos estados da República [na mídia local], e, desafortunadamente, por isso são mortos. Os jornalistas que fazem um acompanhamento pontual, que denunciam, que vão dando pistas, visões diferentes das dominantes, que questionam, são perseguidos pelo narcotráfico. Algumas vezes, também pelas instâncias de governo locais, que protegem os cartéis locais, segundo elas para sua própria segurança.

Para sua própria segurança?

B.S. Sim, para que eu possa sobreviver, digo que você é maravilhoso. Ou não falo de você.

A senhora se refere aos governantes ou aos jornalistas?

B.S. Há muitos governantes que querem que em seu estado as coisas estejam tranquilas, então fazem acordos. Muitos prefeitos, muitos caciques que ainda existem, infelizmente, no nosso país. A situação que temos hoje é realmente complexa, estou muito preocupada porque o tecido social se rompeu. A estratégia de Calderón diante do narcotráfico, se de algum modo podemos denominá-la estratégia, foi tão ineficaz e pouco planejada que ele golpeia, golpeia, golpeia sem medir consequências. Para poder dizer alguma coisa, o que ele fez foi destruir um cartel, os cabeças, ou semicabeças, mas chegam outros, e outros, e se multiplicaram os pequenos cartéis.

Séries de TV compradas

A luta entre esses pequenos cartéis, provocada pelo inimigo que os golpeou, multiplica, reproduz de maneira indiscriminada, e com violência sem sentido, a guerra por território. Eu brigo por estes dez metros, aqueles outros já foram encarcerados, logo dois grupos vão disputar o território deixado. É como se a bolha de cima tivesse se rompido e cada um golpeia, rouba, mata nessas lutas. E isso me parece o resultado de uma estratégia pouco planejada, pouco inteligente, de Calderón e de seus chefes de segurança.

E não se resolverá com programas de televisão, como quiseram resolver o governo, a polícia, pagando séries de televisão para que apareçam equipes de policiais heróis, maravilhosos: a série que se chama El Equipo [ver reportagem no New York Times], exibida pela Televisa, onde os heróis são policiais federais. Ou uma que será exibida pela TV Azteca sobre a Marinha [ver entrevista no site da empresa Ciam, Consultores em Investigación y Análisis de Medios].

Com isso, com golpes espetaculares, não se revolvem os problemas, apresentando os narcotraficantes enfileirados, sem dizer depois o que se fez com eles. É inexperiência, é uma teimosia de não querer aceitar que precisa mudar essa estratégia que nos está deixando, a toda a sociedade mexicana, desmontados. E está deixando muitos mortos, e muitos órfãos, e muitas viúvas, e muitos viúvos.

Mais de 70 jornalistas mortos, 400 agressões

S.L. Voltando ao tema dos jornalistas, além dos conhecidos e respeitados, que têm microfone – Carmen Aristegui [ver site da MVS], ou Miguel Ángel Granados Chapa, por exemplo −, nos estados da República algumas publicações jogaram com a vida deles. O resultado, segundo a SIP [Sociedade Interamericana de Imprensa, na sigla em espanhol], é que estamos em primeiro lugar em número de jornalistas mortos e perseguidos. Um número muito grande, mais de setenta jornalistas assassinados e cerca de 400 denúncias de agressões documentadas, com nome e sobrenome, e circunstanciadas.

Mas há esforços, dentro de uma pluralidade que ainda existe no país. Não podemos falar de um controle de 100% da imprensa, ao contrário, e há algumas publicações, não necessariamente jornalísticas, que refletiram sobre essa estratégia mal colocada. Inclusive acadêmicos que encontraram espaço em sites. Os grupos da sociedade civil que acompanham assassinatos de jornalistas constataram que mais de 60% são assassinados por funcionários de governos.

A comporta aberta da violência

Quando se abre a comporta para esse nível de violência há muitas outras violências que recrudescem. Temos no México, então, o fenômeno do mulhericídio. Em Ciudad Juárez o número de casos tinha correlação com o número de grupos criminosos na fronteira com os Estados Unidos, como mostrou muito claramente uma pesquisa. O que acompanha tudo isso é a impunidade. Os analistas também dizem que só 3% dos crimes chegam aos tribunais, e não necessariamente para ser punidos. Não sabemos, porque não há transparência nessa cifra, e imediatamente o que se gerou foi o medo.

Se você me perguntar o que contribui para isso, não é o noticiário policialesco [la nota roja], nem o sangue, mas o noticiário que diz: hoje houve isso, hoje houve isso, até a mais ínfima das ações, que às vezes são atos de criminalidade comum. Esses fatos são somados ao narcotráfico, ao crime organizado, e isso criou muito medo entre as pessoas.

Isso se reflete na realidade. O país está militarizado. Nas estradas há barreiras e os soldados chegam em seus veículos para dissolver qualquer reunião. Ou seja, se o encontro de que participamos neste hotel estivesse se realizando no México, teriam chegado soldados para nos dispersar. É uma prática que cresce. Estamos numa espécie de voragem incontível, com algo tremendo, onde se combinam a criminalidade real, a criminalidade presumida, que não sabemos se o é de fato, a impunidade…

B.S. … e a corrupção.

S.L. E a corrupção. Quando Beatriz diz que há funcionários que se protegem, fala de um fenômeno que hoje podemos qualificar de máfia, que cobra de terceiros uma taxa de segurança, como na época da Lei Seca nos Estados Unidos. Por outro lado, de maneira evidente, e por isso se chama crime organizado, organizado com as estruturas do poder.

Num momento em que não escapamos nem um pouco da crise mundial, do crescimento, durante o presente mandato presidencial, da pobreza, do desemprego, dos fenômenos que acompanham a violência. E ninguém responde pelas viúvas dos militares, pelas viúvas dos sicários, pelas viúvas dos civis.

Diante de um acontecimento como o incêndio do cassino Royale, de Monterrey (26/8), o presidente fala de terrorismo. É uma palavra que provoca muito medo nos meios de comunicação. E não sabemos se é verdade, embora já tenham detido cinco pessoas [a entrevista foi concedida em 30/8; um irmão do prefeito de Monterrey foi preso posteriormente].

A senadora colombiana Piedad Córdoba [destituída em 28/9 sob acusação de colaborar com as Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia; cabe recurso ao Judiciário] fala, em seu país, dos “falsos positivos”. E há “falsos positivos” no México. Vemos na televisão que são mortos de fome os que recebem dinheiro para que se deixem retratar. Nem sabemos se estão encarcerados.

O trauma de Tlatelolco

Não há investigação jornalística. Agora, cada vez é mais perigoso – essa é a situação dos jornalistas. Não podemos exigir deles que investiguem, porque se investigarem talvez sejam assassinados. Não saberão de onde vem o ataque. É uma situação muito confusa, inacreditável. Temos o trauma do uso das forças militares em 1968, quando houve a matança de Tlatelolco [durante Jogos Olímpicos na Cidade do México, mais de 300 estudantes foram mortos na Praça de Tlatelolco por forças policiais e militares], e isso é inaceitável. Qual é a única cidade onde não há militares nas ruas? A Cidade do México, o Distrito Federal. Porque aí se concentra um quinto da população, que é a mais democrática e não admitiria tanques nas ruas. Não sabemos qual seria a reação da população se colocassem tanques nas ruas. Poderia haver uma verdadeira revolta, não?

B.S. Seguramente.

S.L. Obviamente, a sociedade civil se levantou em diferentes grupos. O mais importante é o do poeta [Javier] Sicilia [leia aqui sua “Carta aberta a políticos e criminosos”], que teve um filho morto em Morelos. E a sociedade civil questionou frontalmente o presidente, porque temos casos documentados, sistemáticos de abusos do Exército quando entra nos povoados. O Exército não é treinado para ações policiais. As pessoas dão testemunhos, recebemos casos em nossos computadores diariamente.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos se manifestou, representantes das Nações Unidas disseram que é preciso parar a intervenção do Exército porque não somente é uma estratégia equivocada, mas está afetando os direitos humanos. Muitos casos foram documentados. Normalmente, não têm nem presença nem discussão suficiente nos meios de comunicação, muito menos nas televisões do duopólio. E, não obstante, há lugares onde se podem discutir essas questões. Até agora, por exemplo, na rádio do governo chamada Instituto Mexicano de la Radio, onde falam [Ernesto] López Portillo [diretor do Instituto para la Seguridad y la Democracia], o ex-senador [Javier] Corral [presidente da Amedi] e outras pessoas. Eu mesma sou articulista desse Instituto, onde se podem colocar essas preocupações em debate.

Redes sociais

B.S. Também se pôs em marcha todo o trabalho das redes sociais. Cumpriram um papel fundamental. É onde há possibilidade de obter informações [em 24/9 assassinaram uma jornalista que usava uma rede social; foi a quarta jornalista morta em 2011; ver, neste Observatório, “Denúncias em rede social levam a assassinato de jornalista” e “Sobrevivência e morte nas redes sociais”].

As senhoras se referem ao Twitter, ao Facebook?

B.S. Sim. Há também Reporte Indigo e outros sites. Isso, em nosso país, é restrito, porque o acesso à internet chega, quando muito, a 25% da população. É muito pouco. É uma situação muito complicada. Não apenas temos medo, insegurança, desconfiança do outro, o que é socialmente delicado, e se questiona a legitimidade das instituições. Já não se acredita nas instituições. E isso gera um estado de ânimo muito generalizado. Corre-se o risco de que se comece a justificar, e não só justificar, chamar a mão pesada [la mano dura] do Estado. “Sinto-me tão desprotegida que, sim, venha a mão pesada, que venha o Exército”, o que é sociologicamente muito delicado e politicamente muito perigoso. “Não creio nas instituições. Em quem acredito? Na mídia? Tampouco na mídia. Tampouco na Igreja. Estamos órfãos!” E isso gera um desmanche social.

Agora se usou de muita violência contra imigrantes ilegais que passam [para os Estados Unidos], que são um assunto grave, mas distinto. Já são vítimas da violência. É carne de canhão. Ou os bandidos os assaltam para roubá-los, e os matam, porque é mais simples, ou os cooptam e os empregam. O Estado precisa dar uma satisfação à população, para interromper a multiplicação de grupos criminosos como se fossem fungos, tenham lá o nome que tiverem, o cartel de Sinaloa, o cartel de não-sei-o-quê. “Zetas”, todos são “Zetas”.

Cartel protegido?

Volto à pergunta sobre o trabalho dos jornalistas.

B.S. O que muitos jornalistas, particularmente mulheres, começaram a fazer foi publicar vários livros que contêm reportagens de investigação por longos períodos, em profundidade, que não se encontram na mídia, porque “time is money”, “space is money”. Abordam por um lado o narcotráfico e, por outro, o sistema de corrupção, ou o entrelaçamento entre autoridades e criminosos. Ultimamente noticiou-se que nos Estados Unidos foi capturado um homem muito ligado a um dos criminosos mais procurados, classificado na lista da Forbes como um dos homens mais ricos do México, El “Chapo” Guzmán. E também um ligado a “El Mayo” Zambada, o outro chefe do cartel de Sinaloa, que estão como testemunhas protegidas nos Estados Unidos, dando informações sobre o narcotráfico no México. Um dos cabeças do principal grupo de narcotraficantes. Quando se faz a conta de quem foi preso pelo governo Calderón, encontra-se uma porcentagem muito baixa de gente do cartel de Sinaloa. E há muitos presos dos outros cartéis.

S.L. Isso gera especulações. Noticia-se que os governos vêm protegendo o cartel de Sinaloa, enquanto perseguem os outros.

B.S. Sabemos que o cartel de Sinaloa é protegido pelos Estados Unidos.

S.L. Concordo com Beatriz. É muito complexo.

B.S. Se o PRI ganhar as próximas eleições presidenciais, vão fazer um pacto (com os traficantes). E vai haver uma trégua. E as coisas vão se tranquilizar. Não serão resolvidas, mas ocultadas.

S.L. Diminuirá o número de mortos nas ruas. Número muito reportado pela imprensa…

Os chefes acima dos chefes

As senhoras acreditam que existe alguém acima dos chefes dos cartéis, um industrial, um banco, político…

(Gargalhadas) S.L. Tem uma lista!

B.S. Muitos dos cabeças, que não aparecem, estão nos Estados Unidos.

S.L. E outros estão no que chamamos de poderes de fato [poderes fácticos].

O nível em que o governo faz acordo não é o do traficante.

B.S. e S.L. – Claro.

É o nível do chefe do traficante.

S.L. – Quando se diz de alguém que é o “super”, que foi o fundador do cartel dos Zetas, e se constata que ele não sabe ler nem escrever… Também para isso se necessita de inteligência, para montar negócios desse tipo é preciso ter certas capacidades.

Muitos prefeitos envolvidos

No México existe financiamento de campanhas eleitorais por algum desses indivíduos?

B.S. Não se consegue provar.

S.L. Há muito dinheiro dado pelo governo. As campanhas são financiadas pelo governo.

B.S. Por nós, os cidadãos. Há questionamentos quando o gasto da campanha não corresponde ao orçamento. Por lei, têm um teto. Digamos: você não pode gastar mais de 100. Mas todos estão vendo que isso custa 500. De onde vem o dinheiro extra? Há suspeitas, preocupação de que haja dinheiro do narcotráfico, mas não temos nada comprovado.

S.L. Foi feita uma análise segundo a qual 63% dos nossos prefeitos estavam…

B.S. Nessas estruturas mais baixas do Estado há muito, muito narcotráfico. Em Michoacán, particularmente.

S.L. Dinheiro lavado.

B.S. Lavado, mas não limpo…

As senhoras acreditam que possa haver novo deslocamento internacional das operações do tráfico?

B.S. Sim. Se conseguirmos resolver no México, irá para outro lugar. Como veio da Colômbia para o México. E temo que vá para a América Central.

Que é frágil.

B.S. É um exército de reserva para ser usado. Já estão entrando na Guatemala. E me preocupa. Se conseguirmos detê-los no México…

S.L. Se houver um pacto.

B.S. Se houver um pacto, ficarão tranquilos. Os políticos do PRI pactuaram.

Senador sob suspeita

S.L. Pactuaram. Há uma falta de vergonha. Uma alta figura do Senado, não posso provar nada, me parece estar envolvida. Apareceu numa lista da DEA. Manlio Fabio Beltrones. [As acusações mais fortes foram feitas em 1997 por dois repórteres do New Tork Times, Sam Dillon e Julia Preston, que depois publicaram o livro El Despertar de Mexico, ou Opening Mexico.]

Beltrones estava ontem num debate na televisão.

S.L. Claro. Quer ser presidente da República.

Seria um enredo perfeito para Hollywood.

S.L. Mataram [Luis Donaldo] Colosio [candidato à presidência pelo PRI em 1994, assassinado pouco antes da eleição], podem matar [Enrique] Peña Nieto [também do PRI, senador, ex-governador do Estado do México]. Eu, se fosse Peña Nieto [possível candidato em 2012], estaria aterrorizada. Nós, mexicanos, temos medo de um golpe.

B.S. Não o merecemos.

S.L. Não o merecemos, mas teríamos que estar, um milhão de pessoas, indignados.

B.S. Indignados, estamos. Não canalizamos a indignação. O medo paralisa.

S.L. Sim.

B.S. Há um golpe de Estado virtual. Não há um golpe de Estado real, mas virtual. Depois das seis da tarde as pessoas não saem às ruas.

Fora da Cidade do México. A Cidade do México está tranquila.

B.S. Está bastante tranquila. Você pode andar de noite. Existe a delinquência comum de uma cidade grande.

S.L. Deve haver gente ligada ao narcotráfico que vive na capital. Os enviados dos políticos que vivem nela vão prestar contas, encontrar-se com eles.

B.S. A Cidade do México é a única que não está militarizada, está tranquila. Praticamente todas as outras cidades estão militarizadas. Nas estradas, barreiras a cada momento. Você não sabe se para ou continua.

“Eu engoli a história do México”

S.L. Isso tem um efeito muito forte. Nós nos acreditávamos uma sociedade avançada, nos venderam isso, nós engolimos, digo por mim, não por outras pessoas. Eu engoli a história do México. A história de que fomos a primeira revolução social da História…

B.S. Eu também…

S.L. … de que houve progresso. Pensávamos, e nos diziam, que além do mais éramos o exemplo, numa porção de coisas, para a América Latina. Líderes naturais. (Risos.) E nós, cidadãos, engolimos a ideia prepotente de que “somos os chefes da América Latina”, “os irmãos mais velhos”. É muito forte.

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