Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MONITOR DA IMPRENSA > ‘THE WASHINGTON POST’

O presente da família Graham ao jornalismo

Por David Ignatius em 14/08/2013 na edição 759

Tradução de Jô Amado, edição de Larriza Thurler. Informações de David Ignatius [“Post sale was Grahams’ gift to journalism”, The Washington Post, 8/8/13]

É fácil dizer que as mudanças são boas, mas quando elas acontecem, é um choque. Foi assim para as centenas de empregados do Washington Post como eu, quando ouvimos o patrão, na segunda-feira (5/8), anunciar que estava vendendo o jornal.

Para avaliar o que aconteceu esta semana, você tem que compreender como era pessoal a relação do dono com o Post. Trata-se de um diretor-executivo que guardou, à entrada de seu escritório, um velho carrinho de madeira que era usado para distribuir o jornal quando ele se chamava The Post and Times-Herald. Ele conhece quase todos os empregados pelo primeiro nome e quando menciona os prêmios de seu legado familiar Eugene Meyer, assim chamados em homenagem a seu avô, que comprou o jornal, muitas vezes sua voz fica embargada.

Os comunicados que enviava eram frequentes e, até a época da internet, escritos à mão. Os correspondentes estrangeiros, que arriscavam suas cabeças longe de casa, sabiam que Don [Donald Graham] lia seus trabalhos porque ele lhes escrevia mensagens pessoais, dando-lhes parabéns pelas matérias. Como centenas de correspondentes e repórteres podem comprovar, às vezes parecia que Don era o único que vira a notícia. Os copidesques, que haviam recebido a matéria, pareciam ocupados demais para escrever, mas não o dono.

Nixon estava mentindo

Sabendo como os Grahams adoravam o jornal, podíamos imaginar como deverá ter sido difícil para Don e sua sobrinha, a publisher do Post Katharine Weymouth, comunicar a uma sala lotada de empregados estupefatos que o jornal estava sendo vendido. Assim como ocorre com qualquer morte na família, houve vários estágios de dor – choque, desmentido, talvez um pouco de raiva e, então, a aceitação.

Muitos entre nós sentimos que Don e sua família fizeram uma coisa altruísta e corajosa, com um custo pessoal emocional. Conscientes de que os Grahams não tinham como manter o Post indefinidamente como um grande jornal, procuraram alguém que o pudesse fazer. Se Don tivesse esperado, as perdas do jornal teriam aumentado e ele poderia ter sido forçado a vendê-lo num leilão, à melhor proposta, abrindo a porta para pessoas que poderiam querer usar o Post para alavancar suas agendas políticas pessoais, e não a um jornalismo independente. Don optou por agir antes de ser forçado a fazê-lo, enquanto ainda podia fazer boas escolhas.

O prédio do Washington Post tem fantasmas. Eles ficam na redação, que, apesar do novo brilho, ainda é reconhecidamente o lugar onde Ben Bradlee persuadiu sua patroa, Katharine Graham, a acreditar que dois jovens repórteres, Bob Woodward e Carl Bernstein, tinham razão em dizer que Richard Nixon estava mentindo.

Um dono corajoso e com princípios

Muitos de nós ainda ouvimos os ecos da voz de Ben Bradlee na sala de conferências, contando piadas ou fazendo gozação com editores, ou observações sarcásticas de pessoas sobre as quais fazíamos matérias. Editor ainda jovem, eu costumava ficar por ali ouvindo cada palavra de Bradlee, assim como de seu sucessor, Len Downie, ou de outros deuses e saía daquela sala pensando “Não acredito que me estejam pagando para fazer este trabalho”.

Falei com Ben Bradlee na segunda-feira depois do anúncio da venda. Ele tinha acabado de chegar a sua casa de verão, em Hamptons, e, assim como todo mundo, ficou chocado. Ele vai fazer 92 anos dentro de algumas semanas, mas havia aquele urro familiar em sua voz quando disse: “Tenho que voltar aí e ajudar Don”.

Às vezes, acho que há fantasmas nas paredes do próprio prédio. Durante gerações, o Post imprimiu jornais aqui, nesta rua. Se você ficasse até tarde (e quem não ficava?), você podia escutar o barulho das velhas impressoras no subsolo, quando começavam a imprimir a primeira edição. E aí todo o prédio parecia vibrar e zumbir. Às vezes, quando o jornal cobria uma matéria quente, carros das embaixadas e dos escritórios de lobistas faziam fila do lado de fora para ter acesso às notícias em primeiro lugar.

Nosso novo dono é o fundador da Amazon, Jeff Bezos. Nenhum jornalista que se respeite iria cobrir de lisonja o novo patrão, por isso não o faço. Basta dizer que tem valor e que está entre os primeiros a decifrar uma maneira de tornar o conteúdo impresso (livros e jornais) disponível, de uma forma digital atraente e fácil, por meio do Kindle. E temos que achar que Bezos é um cara inteligente, certo? Ele comprou um grande jornal. Ele deve saber que ser um dono de jornal corajoso e com princípios é a coisa mais maravilhosa do mundo.

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David Ignatius é jornalista e escritor 

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