Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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MONITOR DA IMPRENSA >

Os riscos de um negócio em expansão

Por Alastair Reid em 19/07/2016 na edição 912

Um vídeo recente de uma batida de carros publicado na página do Facebook do site The Lad Bible (1)  termina com um pedido aos espectadores para enviarem vídeos mediante pagamento. Seria esta uma prática perigosa ou normal?

O conteúdo gerado pelo usuário é um grande negócio. A abundância de smartphones e câmeras pequenas, portáteis, deu às organizações de mídia e aos publishers online um lucro inesperado com material barato – e até gratuito – para para adicionar às matérias jornalísticas e atrair audiência.

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No entanto, o uso de vídeos enviados por membros do público sem treino e inexperientes trouxe sérias considerações, de ordem ética, sobre a segurança desses colaboradores. Atualmente, muitos publishers estão determinados em garantir que qualquer pessoa que envie um vídeo não corra riscos desnecessários. Mas quando se tem certeza que determinados momentos emocionantes captados pela câmera irão gerar milhares de vídeos e compartilhamentos, as consequências de incentivar vídeos de natureza semelhante devem ser seriamente levadas em consideração.

Num vídeo publicado na página do Facebook do site The Lad Bible na segunda-feira (11/07), abaixo da legenda “Você alguma vez já viu alguém tão tranquilo depois de uma batida de carro?”, um homem capota seu carro evitando por pouco outra batida numa estrada do interior da Grã-Bretanha. O vídeo, que já foi visitado mais de 10 milhões de vezes, termina com um gráfico incitando os espectadores: “Filme. Envie o vídeo. Use-o. Qualquer vídeo aproveitado recebe 100 libras [R$ 430,00]!”

The Lad Bible tem 14 milhões de fãs no Facebook

Quando lhe foi perguntado se o vídeo poderia incentivar colaboradores a correrem riscos desnecessários em troca de dinheiro, a diretora de marketing do TheLadBibleGroup (LBG), Mimi Turner, disse que discorda “profundamente dessa crítica”, afirmando que o vídeo “mostra o lado bom das pessoas, sendo bons garotos”. “O LadBibleGroup não promove nem incentiva um comportamento que mostre pessoas se machucando, ou tentando machucar uma à outra”, disse Mimi Turner ao First Draft. “Nossa audiência ficaria muito indisposta com isso porque ela sabe que não é isso que queremos.”

Ela acredita que não foi a natureza espantosa da batida que tornou o vídeo tão popular, e sim a conversa positiva entre os homens depois do acontecimento. “O fato de que 27.177 pessoas gostaram do comentário ‘A maior batida de carros na Grã-Bretanha desde sempre’ é porque os caras envolvidos foram tão bem-educados e decentes em relação ao acidente”, disse Mimi Turner e o fechamento do vídeo era “prática normal”, introduzido nas últimas semanas no lugar de “material enviado ou adquirido”.

Apesar de ter começado há pouco tempo, The Lad Bible é atualmente um dos maiores publishers nas redes sociais: seus 14 milhões de fãs no Facebook são dois milhões a mais que o New York Times e mais que o Guardian e o BuzzFeed juntos. A BBC tem o maior número de publishers que a acompanham no Facebook e tem mais de 30 milhões de fãs na página BBC News.

Os publishers online que encontram e compartilham material das redes sociais sem produzir o seu – agregadores, no jargão da indústria – têm crescido num ritmo semelhante ao das redes que cobrem, mas The Lad Bible fica, disparado, à frente de todos os outros, em termos de alcance.

Atualmente, está planejando um trajeto semelhante ao do BuzzFeed e pretende voltar-se para notícias, segundo uma entrevista que Mimi Turner deu ao Digiday em novembro do ano passado. Embora o tamanho de sua audiência supere o de muitas organizações jornalísticas tradicionais, suas diretrizes de conteúdo não a têm conseguido – talvez compreensivelmente – acompanhar.

Códigos de ética

A BBC tem diretrizes para conteúdo gerado pelo usuário (user-generated content – UGC) instaladas desde 2006 e a primeira delas refere-se diretamente à segurança do colaborador, dizendo: “É fundamental que não incentivemos nossas audiências a porem em risco a segurança de duas equipes ou de outros, para coletar material para enviar à BBC.”

De forma semelhante, sua diretriz para colaboradores estimula: “Se você tirar uma fotografia de um evento, você deveria evitar situações de perigo, para você para outros, correndo riscos desnecessários ou violando qualquer lei.”

Verifique: como podem os jornalistas melhorar sua proteção enquanto testemunhas oculares ao cobrirem para as redes sociais notícias de última hora?

O Guardian também põe a segurança do colaborador em primeiro lugar nas suas diretrizes para o programa Guardian Witness, de conteúdo gerado pelo usuário (user-generated content – UGC), assim como o fazem as diretrizes da First Draft Coalition , uma organização integrante do  Eyewitness Media Hub e o recentemente lançado Social Newsgathering and Ethics Code da Online News Association (Associação de Jornalismo Online).

Mark Frankel, editor de mídias sociais para a BBC News, disse que a “segurança e o bem-estar” dos colaboradores está acima de tudo. “As informações que podemos passar a nossas audiências por meio do acesso a fotografias e vídeos gerados pelos usuários é extremamente valiosa para nós”, disse Frankel ao First Draft, “mas procuraremos sempre garantir que os colaboradores não se estejam expondo a riscos desnecessários ou incentivados a gravar imagens ou vídeos quando não estão em condições físicas e mentais para fazê-lo.”

O compromisso do TheLadBibleGroup (LBG) de pagar a membros da audiência por vídeos é uma prática mais generosa do que a de alguns outros publishers online, mas há riscos e responsabilidades que vêm ao encomendar esse tipo de material. É verdade que batidas de carro sem importância não são notícia, mas vídeos opinativos são bem aproveitados para o conteúdo online – e o fazem de maneira evidente.

As organizações jornalísticas estabeleceram códigos de ética em torno do envio de conteúdo gerado pelo usuário – UGC porque já morreram colaboradores – e continuam morrendo – no processo de divulgar as informações. É um peso que nenhum publisher responsável quer em sua consciência. Esperemos que os colaboradores do site The Lad Bible não corram riscos semelhantes.

(1) Não há uma tradução exata para o português porque a expressão inglesa Lad tem diferentes significados conforme o país, mas a grosso modo está associada a jovens rebeldes.

***

Alastair Reid é editor administrativo do site First Draft News

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