Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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EDIçãO BRASILEIRA DA COLUMBIA JOURNALISM REVIEW >

Para ler e para ver

Por Leão Serva em 24/01/2018 na edição 972

Museu expõe fotógrafos de guerra brasileiros

Uma geração de brasileiros se destaca entre os grandes fotógrafos de guerra da atualidade, seguindo o caminho aberto por André Liohn e Maurício Lima. Além dos dois mais conhecidos, Felipe Dana, Gabriel Chaim, João Castellano e Yan Boechat mostram seus trabalhos na exposição Na Linha de Frente, no novo Museu da Fotografia de Fortaleza (CE), composta de cerca de 70 trabalhos.

Cada um apresenta um recorte específico de seus trabalhos, sempre em zonas de conflitos recentes. A exposição tem curadoria do paulistano Fernando Costa Netto, fotógrafo com coberturas de conflito, que dirige a galeria DOC, especializada em fotografia documental.

Em 2011, André Liohn foi o primeiro brasileiro a ganhar a medalha de ouro Robert Capa para fotografia de guerra. Em 2016, Maurício Lima foi também pioneiro ao ganhar o Pulitzer. Os prêmios são como o Oscar e o Nobel. Ambos se tornaram referência na fotografia mundial e influência para jovens brasileiros que nas próximas décadas vão provavelmente sonhar com sua trajetória, como Piquet e Senna despertaram o sonho de gerações de automobilistas brasileiros.

Como os corredores de Fórmula 1, os dois têm estilos diferentes, em uma divisão à maneira do que Nietzsche classificava como apolíneo (Lima) e dionisíaco (Liohn), um mais estético, o outro mais catártico, um mais geométrico e o outro mais cru. Essas características, sutilmente diferentes, se manifestam também na distância que cada um mantém de seu objeto. Lima permite ver a cena em seu contexto, Liohn parece em algumas fotos estar dentro do fotograma.

A mostra de Fortaleza vai permitir conhecer e analisar o trabalho dos outros membros dessa tribo de valentes, reconhecendo em cada um os aspectos da dualidade nietzschiana.

Em Fortaleza, Lima mostra seu trabalho Farida, Um Conto Sírio, em que acompanha o drama de uma família entre os milhões de refugiados que deixaram o Oriente Médio nos últimos anos em busca de abrigo na Europa.

Liohn apresenta fotos de vítimas do ditador líbio Muamar Kadafi, civis, rebeldes ou soldados, em um conjunto de fotos que ele denominou Sem Filtros, título revelador de seu desconforto com tratamentos de imagens.

João Castellano apresenta retratos de crianças sobreviventes do conflito contra o Estado Islâmico, no Iraque e na Síria, uma série de fotos que ele chamou de Sonhos. Também Gabriel Chaim procura destacar os efeitos da guerra na Síria sobre os elos mais fracos, crianças, jovens, mulheres. Seu trabalho se chama Manifesto Inequívoco.

Yan Boechat trabalha com fotografia e textos sobre os conflitos que cobre. Na mostra, apresenta imagens tomadas na região de Mossul (Iraque) durante o cerco ao Estado Islâmico.

Felipe Dana tem passado temporadas em coberturas dos conflitos no Oriente Médio para a agência Associated Press. Trabalha com fotografias, vídeos e tomadas com drones. Ele apresenta um conjunto denominado Faces da Guerra, com retratos de cenas de terror entre civis e destruição absoluta de lugares e prédios.

Aberto no início de 2017, o Museu da Fotografia se tornou rapidamente um foco de atração para turismo cultural na capital do Ceará. Ele tem cerca de 2.000 fotos em seu acervo permanente, enquanto sedia mostras temporárias, como Na Linha de Frente.

Na Linha de Frente
Museu da Fotografia Fortaleza
(Rua Frederico Borges, 545, Varjota, Fortaleza, CE).
De 3 de outubro de 2017 a maio de 2018.
Visitação: de quarta-feira a sábado, das 12h às 17h

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Adeus ao cavalo, o melhor amigo do homem

Em algum momento longínquo, antes da história, o homem do Velho Continente encontrou um companheiro inseparável, o cavalo. O relacionamento deu ao Homo sapiens quatro pernas velozes, um fôlego para longas jornadas e costas inquebrantáveis. A união ampliou a capacidade de deslocamento, apressando a longa migração de nossa espécie.

Sem os cavalos, os mongóis não conquistariam a Ásia, os romanos não dominariam seu império, Átila não teria chegado a Roma, árabes e turcos não teriam propagado o islamismo por três continentes; a América não teria sido dominada por espanhóis e portugueses, os americanos não teriam feito os filmes de bangue-bangue. O relacionamento entre as duas espécies era tão harmônico que os índios americanos conheceram o cavalo no século 16 e na conquista do Oeste, 200 anos depois, eles já eram exímios acrobatas.

A simbiose profunda deu margem a uma elaboração mítica, os centauros. A imagem não estava tão distante da realidade: os primeiros habitantes do México que enfrentaram os espanhóis, sempre sobre cavalos, pensavam ser atacados por seres desconhecidos, cuja parte superior parecia humana.

Farewell to the Horse (Adeus ao Cavalo, ainda sem edição em português), do jornalista e crítico literário alemão Ulrich Raulff, mostra como acabou esse casamento de 6.000 anos. A invenção dos motores criou máquinas que, uma a uma, superaram as capacidades do animal.

O ponto crucial do divórcio foi a Primeira Guerra Mundial, quando morreram 6 milhões de cavalos. Em novembro de 1917, pela primeira vez na história, os ingleses fizeram, na Batalha de Cambrai, um ataque massivo de cavalaria com tanques de guerra. Só os novos blindados conseguiam romper as trincheiras que marcavam aquele conflito.

Nesse momento, o cavalo se tornou obsoleto em sua mais poderosa função, a militar. Em seguida, foi-se o domínio da agricultura, dos transportes urbanos, de levar e trazer etc. e tal. O século 20 marcou o final do nosso relacionamento. Hoje os cavalos são preservados em funções de rememoração de antiguidades, como peças de museus ou rituais. Adeus ao Cavalo é uma espécie de ode a esse companheiro deixado para trás no caminho.

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Uma biografia para dar independência a Vadico

Quando Oswaldo de Almeida Gogliano morreu, em 11 de junho de 1962, tinha 52 anos e uma carreira consagrada como músico e compositor de técnica e talento. Mas o jornal O Globo, como fariam inúmeros outros obituários, estampou na capa: Vadico, parceiro de Noel, morreu aos 52 anos.  Se estivesse vivo, talvez morresse de desgosto.

Tudo que Vadico tinha feito ao longo dos anos, desde a morte prematura do parceiro, em 1937, foi tentar provar que sua carreira não se esgotava no papel de coadjuvante do talentoso carioca de Vila Isabel.

Quando olhamos para trás com a teleobjetiva da história, algumas figuras dominantes tendem a obscurecer outras tantas. A música popular brasileira do início do século 20 parece ter apenas nomes como Chiquinha Gonzaga, Almirante, Pixinguinha, Francisco Alves, Carmen Miranda e uns poucos outros. Mesmo Noel Rosa só é lembrado após um bem-sucedido esforço de recuperação feito nos anos 1950 e 1960. Muitos outros gênios ficam escondidos. É o caso de Vadico.

Mostrar sua estatura inteira é a tarefa cumprida pela biografia Pra Que Mentir?, do jornalista e escritor Gonçalo Junior, que mostra como o talentoso paulistano de família italiana já era reconhecido antes de mudar para o Rio e encontrar o parceiro mais famoso, em 1932, e seguiu acumulando sucessos o resto da vida, também curta: nos 17 anos que ele trabalhou nos Estados Unidos, de início como parte do Bando da Lua, que acompanhava Carmen Miranda (aparece com ela em seis filmes), ou nas parcerias com outros letristas, incluindo Vinicius de Moraes, como músico e arranjador de inúmeros discos que fizeram história.

Gonçalo Junior escreve bem e se aproveita da delícia de contar histórias que ajudam a iluminar a biografia de seu personagem, envolto em um tempo a que a memória brasileira atribui aura romântica, associada a certa ingenuidade nacional, do Rio de Janeiro boêmio dos tempos de capital, da gestação da revolução musical representada pela Bossa Nova (1959).

E a crônica daquele tempo é fundamental para compreender a vida de Vadico. Um exemplo: não é possível entender sua morte, por ataque cardíaco, sem ser informado, pelo texto, sobre a Copa do Mundo de 1962, no Chile. Pois foi naquele momento, quando os jogos só eram acompanhados ao vivo pelo rádio, que Vadico acompanhou nervoso a dura partida contra a Espanha, que o Brasil ganhou de virada (2 X 1) no finalzinho. Foi um jogo para testar cardíacos, como escreve Gonçalo Junior.

O peito de Vadico não passou no teste: ele desmaiou durante a partida. Seu coração deve ter começado a falhar, mas ele não quis ir ao hospital, foi para casa, descansou, voltou ao trabalho no dia seguinte. Mas cinco dias depois, quando se preparava para uma gravação em estúdio, morreu.

Nas 412 páginas, Gonçalo mostra que Vadico tinha uma carreira muito maior do que a de principal parceiro de Noel (fizeram 11 músicas juntos). Mas Noel é uma figura dominante na obra, desde o título, tirado de uma parceria dos dois. Também o enredo da vida do músico, mesmo sem querer, potencializa a relação dos dois, pois Vadico frequentemente teve de afastar a sombra de Noel ou lutar para ser reconhecido como autor das músicas que fizeram juntos.

Além disso, não há como apagar a luz ofuscante do sucesso que aquelas 11 canções tiveram na história da música popular brasileira: são músicas como Feitio de Oração, Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e aquela que serviu de título para o livro. Por isso, o espectro de Noel fica reforçado no livro consagrado à independência de Vadico.

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Seis perguntas para o escritor que consagrou a expressão “pós-verdade”

O livro The Post-Truth Era (A Era da Pós-Verdade) foi lançado em 2004, 12 anos antes da campanha que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos e da expressão ser eleita palavra do ano pelo Dicionário Oxford. Seu autor, o ensaísta americano Ralph Keyes, reclama da superficialidade do debate no país, inclusive sobre o fenômeno que ele aponta, como diz nesta entrevista à Revista de Jornalismo ESPM.

O sr. não inventou o termo pós-verdade, mas foi com seu livro que a palavra ganhou o debate público. Depois foi para a capa da Economist e se tornou a palavra do ano no Dicionário Oxford. O sr. crê que recebeu os créditos intelectuais devidos?
Pergunta interessante. Provavelmente não, mas a maioria dos tópicos sobre os quais tenho escrito (solidão, memórias da adolescência, altura, tomada de riscos, erros de citação, falhas etc.) só viraram temas populares algum tempo depois que meus livros sobre esses assuntos foram publicados. Em A Era da Pós-Verdade eu tentei expandir o tema, olhá-lo de uma perspectiva histórica. Mas essa abordagem não recebe muita atenção na era ™Trump-Twitter∫, quando as posições simplistas tendem a prevalecer.

O termo pós-verdade pode sugerir que algum dia a  imprensa foi capaz de dizer a verdade, quando provavelmente nunca foi, ou que os políticos falavam a verdade, o que nunca aconteceu também. Afinal, em que verdade você pensava quando adotou a expressão pós-verdade?
Concordo que a desonestidade não é um fenômeno contemporâneo, mas acredite que, em um tempo anterior, pelo menos prezávamos o princípio de falar a verdade e não queríamos ser pegos mentindo. Na era da pós-verdade, em que a distância entre honestidade e desonestidade diminuiu, isso já não parece fazer diferença.

Pensando que jornalistas e políticos talvez nunca tenham sido completamente verdadeiros, o sr. não pensa que poderia ser mais objetivo debater se estamos passando por uma época na qual os fatos e a cobertura de fatos já não têm a importância que tiveram?
Isso faz sentido, estamos vivendo ao mesmo tempo uma era da “pós-verdade” e do “pós-fato”, em que um assessor do presidente dos Estados Unidos fala de “fatos alternativos”. O senador americano Patrick Moynihan (1927-2003) dizia que todos temos direito a nossas próprias opiniões, mas não aos nossos próprios fatos. Aparentemente, isso já não vale para os dias de hoje.

O sr. consegue prever um cenário em que esse contexto de trivialização extrema das mentiras e falsas notícias, de que a internet se tornou uma fábrica, possa ser contido? As coisas podem melhorar? Como?
Penso que, em algum tempo, haverá uma reação na direção da honestidade extrema. Nenhuma geração quer ser como a anterior, a de seus pais, e talvez uma forma pela qual essa reação se realize seja na direção de uma narrativa escrupulosamente verdadeira. Eu espero, qualquer dia.

Nesse caso, é natural falar em fatos alternativos?
É natural para muitos, principalmente para os âncoras de talk shows conservadores, comentaristas de programas jornalísticos de TV a cabo e políticos sem escrúpulos.

O Brasil tem vivido um período de muito atrito político, e o questionamento da imprensa tem sido mais prejudicial do que os ataques do trumpismo nos Estados Unidos. O sr. tem perspectivas de lançar seu livro no Brasil?
Com toda a atenção que o debate despertou em seu país, eu gostaria de ver em edição brasileira. Talvez meu livro possa ter mais impacto aí do que teve em sua terra natal.

The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life
Ralph Keyes
St. Martin’s Press, 320 páginas

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Leão Serva é jornalista, professor do curso de graduação em Jornalismo da ESPM e escritor, autor de Jornalismo e Desinformação (Senac, 2001) e coautor de Como Viver em São Paulo Sem Carro – 2013. Dirige a agência de conteúdo Santa Clara Ideias.

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