Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1020
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ENTRE ASPAS >

Paula Barcellos

23/03/2004 na edição 269

‘Quando defendeu sua tese de doutorado em História, na Unicamp, em 2001, a atual coordenadora da rede municipal de teatros do Rio, Beatriz Kushnir, despertou a curiosidade, a fúria e os aplausos de muitos jornalistas que estavam em plena atividade durante o regime militar. Com o título Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 – agora publicado pela Boitempo (408 páginas, sem preço definido) -, Beatriz trouxe à tona uma face do jornalismo, que na maioria das vezes costuma ser mascarada: sua colaboração com o Estado nos anos de repressão. Para chegar a essa constatação, a historiadora inverteu a estratégia do jogo: em vez de partir dos jornalistas para chegar aos censores, foi aos censores para chegar aos jornalistas. Daí, surgiu uma surpresa: os primeiros 10 censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas, no período estudado por Beatriz, eram jornalistas.

– O objetivo é iluminar um território sombrio e desconfortável: a existência de jornalistas que, ainda nas redações, foram censores federais e policiais – conta.

Um dos entrevistados para a pesquisa foi o jornalista Antônio Aggio Jr., que, no período da censura, trabalhava na Folha da Tarde . Apesar de, a princípio, Aggio ajudar Beatriz em sua tese, ele não poupou críticas ao ler o trabalho pronto: ‘Para alicerçar sua tese na parte relativa à Folha da Tarde, Beatriz vale-se de um argumento mentiroso e calunioso. Estou providenciando sua responsabilização perante a justiça’, disparou em seu artigo publicado no site do Observatório da Imprensa. Polêmicas a parte, a historiadora Beatriz Kushnir, com sua ousada publicação, está contribuindo para uma releitura crítica dos 40 anos do golpe militar.

-Ao contrário da maioria dos estudos sobre a imprensa durante a ditadura militar, em que o enfoque é a forma pela qual os jornalistas reagiram à censura, na sua tese você faz o caminho inverso: parte dos censores para chegar aos jornalistas. O que levou a essa opção?

– Ao iniciar minhas pesquisas de doutoramento em História, na Unicamp, financiada pela Fapesp, fiquei surpresa ao constatar que os primeiros 10 censores do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP), quando da transferência da capital federal para Brasília, eram jornalistas. E todo pesquisador sabe que um ‘achado’ ocorre quando uma constatação foge às regras que havíamos apreendido como ‘conhecidas’. Mas tal ‘descoberta’, como outras que o livro aponta, não são facilmente assimiláveis por uma memória política que estabeleceu para o país um outro patamar, muitas vezes distante do percorrido pelo regime civil-militar do pós-1964, por exemplo. Tentando compreender esse achado, verifiquei que os editais dos concursos públicos para censor federal, quando traçavam o perfil do candidato, admitiam uma única atividade concomitante: ser jornalista. Esse fato aguçou ainda mais a minha curiosidade. Até porque, creio ser importante, em um trabalho na área das Ciências Sociais, podermos remar contra a maré e trazermos à tona ponderações e perspectivas inovadoras, olhares que revelem, desvendem. Esses nos obrigam a rearrumar o tabuleiro do jogo. E isso, para mim, é fundamental.

– Como você explica o fato de alguns profissionais da imprensa colaborarem com a repressão?

– É preciso compreender, por um lado, a instabilidade profissional dos homens e mulheres de jornal e a necessidade que tinham de outros empregos, muitas vezes públicos, que garantir a sobrevivência. Estar no aparelho de Estado ou ser empregado num jornal, uma empresa, confere regras, e isso é uma constatação que não pode ser desprezada. A República brasileira é também um período de longas intervenções ditatoriais. Temos mais momentos de exceção do que de democracia. A censura aos jornais, portanto, não se iniciou no pós-1964, ou no pós-1968. Ela esteve presente na República Velha, no Estado Novo e também em períodos tidos como democráticos. Gosto muito de uma frase do Millôr, no famoso número 300 do Pasquim, quando os censores deixam a redação. Ele diz: ‘Sem censura não quer dizer com liberdade’. Quantos de nós fomos educados para viver ‘com liberdade’?

– Como tal colaboração com a ditadura refletiu na sociedade?

– O ato de colaborar com a ditadura nos impõe refletir, criticamente, a idéia da sociedade brasileira como ‘democrática por natureza’, e para tal são muito oportunas as ponderações feitas por Daniel Aarão Reis Filho acerca do processo de anistia e de oposição ao regime civil-militar. Durante esse período, meio ‘fim de festa’, parcelas da sociedade brasileira buscaram se divorciar da ditadura, optando por manifestações tidas como de esquerda. Desejavam demarcar as ‘fundas e autênticas raízes históricas’ do país. Para eles, a ditadura era um passado e um pesadelo momentâneo, que precisava ser exorcizado. Como demônios e fenômenos externos, a idéia era que a sociedade não tinha, e nunca teve, nada a ver com a ditadura. Ficam, então, questões difíceis de responder: por que a ditadura durou tanto tempo e não foi simplesmente repudiada? E por que foi aprovada uma anistia recíproca?

– Você se decepcionou com a imprensa?

– Não sei se decepção é o termo mais correto. Creio que hoje compreendo que a imprensa é uma empresa de cunho privado que vende um serviço de utilidade pública. Mas, como destacou Cláudio Abramo, o jornal tem um dono e nele só sai o que o patrão quer. Tendo isso em mente, passa-se a ler, de forma mais realista, o que está impresso. Sabendo sempre que, no dia seguinte, o papel do jornal vai embrulhar peixe nas feiras. Mas o que nele está impresso pode ter mudado vidas de modo radical. Algo é fundamental não se perder: quem o compra deposita neste ato um pacto de confiabilidade no que está escrito. Quebrar esse acordo gera uma ambigüidade na apreensão do real que permite um sem-número de considerações. Assim, muitos pagaram pelo papel-jornal para saberem o que se passava nos seus mundos. Outros sofreram com o que estava impresso nessas páginas.

– Dessa forma, o jornalismo acaba sendo fonte da história. Então, como se dá a relação entre imprensa e história, jornalista e historiador?

– Os historiadores que vêm trabalhando com o contemporâneo fazem o que se denominou ‘história do tempo presente’. No encontro de jornalistas e outros intelectuais para uma atuação política, abriu-se um espaço que flexibilizou lugares e atuações profissionais. Não se contentando em registrar apenas os ecos da atualidade, os jornalistas buscaram um olhar crítico sobre o material produzido, exercitando-se em uma história do imediato. Esse encontro, esperamos, deve se dar para além das disputas, respeitando as especificidades de cada oficio. Assim, não devemos cair na armadilha que amarra o historiador às considerações para a posteridade, enquanto o jornalista buscaria vencer a angústia do esquecimento a cada jornal que no dia seguinte está no lixo. O grande encontro possível desses sujeitos das letras permite que o tempo presente seja uma não-história do instante. E nada mais importante do que a narrativa jornalística e a reflexão histórica sobre um período, por diversos ângulos, para que isto possa acontecer.

– Logo após a defesa da sua tese, em 2001, parte da imprensa reagiu muito mal, inclusive jornalistas que você entrevistou para o trabalho. Antônio Aggio Jr. chegou a afirmar que sua tese seria mentirosa e sensacionalista. Como justifica essa reação?

– Durante as reflexões sobre os 30 anos do AI-5, em 1998, o jornalista Jânio de Freitas fez uma análise, em meu juízo, extremamente reveladora, comentando que muitos dos jornalistas que estavam nas redações em 1968 ainda lá permaneciam em 1998. Assim, como o panorama mudou, discursos sobre trajetórias também querem se adaptar a esses ‘novos momentos’. Isto porque muitos servidores foram aposentados, outros construíram para si uma imagem positiva e até mesmo heróica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tantos se readaptaram e estão na mídia como sempre. Um retrato que exponha e desfoque esse esforço de adaptação nunca poderá ser bem aceito.

– De certa maneira, reações como a de Aggio não seriam também uma forma de censura?

– Sinceramente, prefiro não polemizar. Meu trabalho se pretende muito mais amplo do que se debruçar apenas sobre trajetórias individuais. Não quero que um esforço de cinco anos e meio, extremamente rico para mim, seja perdido e apague o empenho de repensar as outras possibilidades de apreender a relação imprensa/Estado.

– Passados 40 anos do golpe militar, como você analisa a imprensa hoje? Ainda persiste algum tipo de censura?

– A censura, travestida de defesa da moral e dos bons costumes, é para mim sempre política, e se calca, para efetivar suas ações, em pressões econômicas. Por ser uma empresa privada que visa o lucro, o órgão de imprensa tende a perder suas funções básicas: fiscalizar o poder, buscar a verdade dos fatos e fomentar o espírito crítico. Atualmente, temos acesso a muita informação, às vezes em excesso e sem proveito, mas adquirir conhecimento é parte de outro procedimento. Talvez a censura contemporânea seja essa enxurrada de dados e a ausência de conteúdo.’



Stefania Chiarelli

‘Memórias tortuosas da luta contra a ditadura’, copyright Jornal do Brasil, 20/03/04

‘Uma tempestade como a sua memória, Martha Vianna, Record, 182 páginas, R$ 25

Na década de 1970, predominou uma linha político-memorialista na literatura brasileira, dado a necessidade premente e legítima, naquele momento, de romper o silêncio e registrar como foi a ditadura no país. Basta lembrar de obras como A festa, de Ivan Ângelo, ou Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, em que a presença de um narrador cuja fala é autobiográfica denota afiliação a uma vertente documentalista. Ao lado destes, o chamado romance-reportagem, ao estilo de O que é isso companheiro?, de Fernando Gabeira, cumpria a função de fazer denúncias, uma vez que a imprensa não podia publicar abertamente inúmeros fatos.

Ao narrar a luta clandestina e abordar os mecanismos de repressão, essas obras cumpriram o papel de se posicionar frente à situação política de então. Entretanto, hoje, passados mais de trinta anos, esse modelo de literatura ainda teria algo a dizer? Com relação à forma, Uma tempestade como a sua memória acaba sugerindo resposta negativa, a partir da constatação de que inexistem maiores investimentos na linguagem literária. Quanto ao conteúdo, sem dúvida, a recuperação da memória dos que lutaram contra a repressão é importante para a reconstituição da história da luta política no Brasil.

A autora Martha Vianna, ex-militante da Ação Popular, baseou-se em entrevistas e depoimentos dos envolvidos nos episódios do período. Martha narra o início do engajamento de Maria do Carmo Brito na política, por intermédio da Juventude Estudantil Católica. De família mineira de classe média e filha de líder sindical, a jovem envolve-se com Juares Brito, companheiro de luta com quem se casa em seguida.

Uma tempestade como a sua memória narra a tragédia ocorrida em 1970, quando o casal é surpreendido. Cercado pela polícia, Juares se suicida, antecipando a morte. Maria do Carmo é presa e torturada durante dois meses, antes de ser libertada com 40 pessoas na Argélia. Viúva, parte aos 27 anos para o Chile de Allende, onde acaba envolvida com as traições do Cabo Anselmo. Em 1973, após a derrubada de Allende, sai do país e passa por diversos países, terminando em Angola.

Nos trechos sobre a experiência da guerrilheira no Brasil, o livro descreve minuciosamente as formas de tortura do período, do pau-de-arara, passando por afogamentos até o uso de drogas como pentotal, conhecido como soro da verdade. Também mapeia movimentos, sindicatos, ligas e grupos políticos da época, além de acompanhar a luta de Maria do Carmo ao lado de líderes como Lamarca na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

A obra ganha força por exibir as contradições entre os próprios guerrilheiros, que muitas vezes divergiam sobre o tipo de ação política a ser praticada: ‘Essa visão mágica e abençoada da luta armada nasceu dos militantes de origem militar e influenciou muita gente’, afirma a autora, que também expõe a faceta amarga da vida na clandestinidade, revelando o lado humano não só dos guerrilheiros do sexo masculino, mas das mulheres que se dedicaram à atividade, e de como ambos desenvolveram estratégias de sobrevivência diante da tortura.

Dado o caráter documental do livro – que traz fotografias de época, recortes de jornais, documentos oficiais, cartas e trechos de informes do Dops – um reparo é que o resultado seria bem mais rico se a própria Maria do Carmo Brito assinasse o texto, uma vez que, na tentativa de dar voz à protagonista, o recurso de alternar a narração em terceira pessoa com trechos curtos em tom de depoimento acaba cansativo e pouco eficaz.

Em 1979, com a anistia, Maria do Carmo finalmente pôde retornar com a família ao país. Apesar da demora na publicação do depoimento, para o leitor interessado nos bastidores da luta durante a ditadura, o balanço final da ex-guerrilheira tem sabor de dever cumprido: ‘Nossa geração pelo menos conseguiu mostrar ao mundo inteiro o horror que este país era, e não deixou que a ditadura se implantasse de graça, sem que corresse um pouco de sangue.’’



Leticia Helena

‘Seminário discute os 40 anos do golpe militar’, copyright O Globo, 21/03/04

‘Começa amanhã, no Rio de Janeiro, o seminário ‘40 anos do golpe – Ditadura militar e resistência no Brasil’, que até sexta-feira debaterá temas como censura, tortura, repressão, milagre econômico e luta armada para lembrar o aniversário do golpe, em 31 de março de 1964. O evento é uma criação coletiva de pesquisadores da UFF, da UFRJ, do Centro de Pesquisa e Documentação Histórica da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV) e do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, que reuniram especialistas de todo o país para discutir causas e conseqüências da ditadura militar.

Debates acontecerão em três lugares diferentes

Os debates acontecerão às 10h, às 14h e às 18h em três lugares diferentes: o histórico Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (IFCS), no Centro do Rio; o Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da UFF, em Gragoatá, Niterói; e o auditório do CPDOC, no Flamengo, também no Rio. A novidade é que, além de professores, historiadores e cientistas políticos, estudantes universitários também apresentarão suas teses ao longo dos quatro dias.

– A procura superou nossas expectativas. Recebemos, por exemplo, 60 trabalhos de estudantes, dos quais selecionamos 16 – diz o coordenador do setor de pesquisa do CPDOC, Celso Castro, um dos organizadores do evento. – O seminário será o maior evento acadêmico do país sobre a ditadura – completa ele.

A lista de convidados inclui especialistas estrangeiros, como o holandês Kees Koonings, da Universidade de Utrecht, autor de um estudo que compara a atuação de militares na política em diversos países. Já o brasilianista James Green, da Universidade da Califórnia, vai falar sobre desfiles de moda e espetáculos teatrais que denunciaram a ditadura nos Estados Unidos nos anos 70.

Os debates foram divididos em 14 temas. Na abertura, amanhã, às 10h, será discutido o golpe, com a conjuntura política de 1964 e as conseqüências para o Brasil. O encerramento, na sexta-feira, será sobre ‘Cinema e história’.

Já o Centro Cultural Banco do Brasil realiza de amanhã até sexta-feira o ciclo de palestras ‘Pensando 1964’. Os debates serão às 18h30m, cada dia com um tema diferente: história, cultura, sociedade e política. Entre os conferencistas estão o poeta Ferreira Gullar e o brasilianista Thomas Skidmore.

Na semana que vem, será a vez do seminário ‘64 + 40: Golpe e campo(u)s de resistência’, na UFRJ. O evento começa em 29 de março e, até 2 de abril, incluirá exposições, exibição de filmes da época, esquetes teatrais e de poesia, e debates sobre temas como repressão, resistência e movimento estudantil.’

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