Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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MONITOR DA IMPRENSA >

Paulo Machado

10/03/2009 na edição 528

‘‘MEC quer acabar com a alfabetização’. Essa foi a informação que o leitor da Agência Brasil recebeu ao ler a matéria Unesco quer sensibilizar gestores sobre importância do acesso à leitura e à escrita, entre os dias 18 de fevereiro, data em que foi publicada, até o dia 26 de fevereiro, data em que foi corrigida e a palavra alfabetização foi substituída pela palavra analfabetismo, graças à percepção do leitor Landro Oviedo.

Tal como Landro, 142 leitores enviaram mensagens para esta Ouvidoria entre julho de 2008 e janeiro de 2009 para reclamar de erros que perceberam nas matérias da ABr e que deram origem a processos internos. Antes de abrir um processo, a equipe da Ouvidoria analisa a pertinência da reclamação do leitor que, se constatada, é encaminhada à chefia da Agência para os procedimentos que julgar necessários, dentre eles fazer a devida correção ou pronunciar-se a respeito, justificando a manutenção da informação na forma originalmente publicada.

Os erros cometidos nas matérias são classificados pela Ouvidoria conforme critérios pré-estabelecidos: erros gramaticais, de digitação ou padronização, falta ou erro de apuração, falta de informação ou ainda informação errada. Essa classificação permite tentar identificar as causas dos erros nas diferentes etapas do processo de produção da informação e sugerir medidas para que eles não se repitam.

Na verdade, os erros nas matérias têm sido muito mais numerosos do que os apontados pelos leitores. Em média, 40% das notícias contêm erros, segundo apuração feita por um serviço interno da ABr que visa a detectá-los e corrigi-los antes que sejam percebidos pelos leitores. Afinal, o que está em jogo são a qualidade da informação jornalística e a conseqüente credibilidade do veículo de comunicação – seu maior patrimônio.

Tão importante quanto a quantidade de erros é o seu tipo, porque muitas vezes eles alteram, deturpam a informação que o jornalista quer transmitir. Se um erro médico pode causar a morte do paciente, quais os danos que um erro de informação jornalística pode causar ao leitor? Essa é uma pergunta que todo jornalista deveria se fazer diariamente, várias vezes ao dia, ao ter que tomar inúmeras decisões no processo de produção da noticia.

Além da classificação inicial das demandas dos leitores, a Ouvidoria faz uma apuração mais detalhada para descobrir onde e porque os erros são cometidos. Os erros de apuração talvez sejam aqueles que mais danos causam ao leitor, pois afirmam algo que é inverídico. Foi sobre um erro desses, cometido na matéria Cooperativa do Haiti usa minifábrica brasileira de processamento de castanha de caju, publicada 23 de dezembro de 2008, que o leitor Rafael Beleboni reclamou à Ouvidoria. Segundo o leitor, diferentemente do que a matéria informava, os recursos que financiam o programa são totalmente brasileiros e não do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Além disso, os produtores de castanha não fornecem o produto para ‘grandes industrias’ pois não há grandes industrias no Haiti e, tampouco, o produto é exportado, mas, sim, vendido nas ruas, de maneira rudimentar, com baixo valor agregado.

Outro tipo de erro, observado pelos leitores, é aquele em que o jornalismo da ABr comete imprecisões como, por exemplo, na matéria Primeira clinica pública de SP para tratar dependentes químicos não aceitará infratores, publicada em 28 de janeiro. Segundo o leitor Irandi Vieira de Oliveira, ora a notícia fala em infratores cumprindo pena, ora fala em pessoas que tiveram passagem pela policia. Ele pergunta: jovens que tiveram passagem pela policia, mas não estão cumprindo pena podem ou não ser atendidos pelo programa do governo de São Paulo? A resposta à dúvida do leitor deveria estar na notícia e poderia ser decisiva para ele saber se uma determinada pessoa terá ou não acesso àquele serviço público. Sabe-se lá quantas decisões importantes os cidadãos que têm filhos, amigos ou parentes necessitando de tratamento não tomariam em função dessa informação? Ou ainda a usariam para discutir a eficiência e a eficácia da política pública objeto da notícia? Para combater a imprecisão, uma vez o jornalista Joseph Pulitzer, estabeleceu três regras básicas que valem ouro para o jornalismo: ‘Exatidão, exatidão e exatidão’.

Muito se tem falado e pesquisado a respeito da qualidade da informação jornalística e de seu papel na construção de significados pela sociedade. Pesquisadores de universidades mundo afora têm se dedicado a estabelecer indicadores e a desenvolver metodologias que permitam sua aferição. No Chile, a Universidade Católica desenvolveu o Valor Agregado Periodístico (VAP, sigla em espanhol), na Argentina, o Instituto de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica desenvolveu o Percepción de la Calidad Periodística (PCP, sigla em espanhol). No Brasil, a Unesco – organismo das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura, mantém um projeto em parceria com a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi) chamado Indicadores de Qualidade da Informação Jornalística, que objetiva propor instrumentos de medição de excelência e contribuir para o desenvolvimento do setor no país. A parceria Unesco-Renoi se estenderá até o final de 2009, quando a etapa conceitual do projeto dos indicadores deve ser concluída. Na sequência, pesquisadores da Renoi agregarão os resultados num sistema informatizado que possa servir de ferramenta para a avaliação da qualidade dos meios de comunicação brasileiros. Mas a maior parte das redações desconhece esses métodos ou prefere ignorar esse conhecimento, optando por trabalhar sem indicadores de qualidade da informação que produzem. A EBC, como empresa pública de comunicação, poderia adotar ou mesmo criar algum tipo de sistema de avaliação como maneira de implementar mecanismos para o controle social e democrático da qualidade da informação.

Enquanto isso, alguns leitores dedicam um certo tempo à crítica do jornalismo praticado pela ABr. Esse é o caso, por exemplo, de Rafael Moreira Gomes: ‘estive lendo algumas notícias no site de vocês e acabei enviando um e-mail contendo um erro de português de uma das matérias que li, porém, ao ler outras matérias encontrei alguns outros erros de português, tais como virgulas desnecessárias, frases simples separadas por ponto final e que poderiam ser unidas numa frase composta. Em alguns outros casos o texto não está bem apresentado, pois no começo diz-se algo, no meio diz-se mais um pouco e no final se conclui o que começou a ser exposto no primeiro parágrafo. Esse é o caso da notícia sobre Cesare Battisti… [ Embaixador brasileiro é chamado pela chancelaria italiana a explicar refúgio dado a Cesare Batisti, publicada em 14 de janeiro]. … a mensagem começou a ser exposta desde o primeiro parágrafo [motivos da condenação de Battisti]e acho que se expusessem todas essas informações de uma só vez o texto seria melhor assimilado, porque não está bem claro por quais motivos ele foi condenado, só diz que matou, mas não diz o porquê . Fica confuso para quem ainda não tinha nascido na década de 70, como eu, e não conhece o Grupo Brigadas Vermelhas, entender porque o primeiro-ministro Aldo Moro foi assassinado.’

A Agência Brasil respondeu ao leitor que: ‘a técnica jornalística consiste em dar as informações principais no primeiro parágrafo, que chamamos de lead. Em seguida, entramos nos detalhes. Não podemos dar todas as informações em um parágrafo senão o texto fica cansativo, pesado e deixa de interessar ao leitor. Em uma agência de notícias na internet, os textos devem ser curtos, com exceção de matérias especiais. Quanto às questões sobre Aldo Moro e as Brigadas Vermelhas, concordamos que seria interessante dar mais informações. Nem sempre isso é possível pela necessidade de colocar logo o texto no ar, uma vez que trabalhamos com jornalismo em tempo real.’

Para Carina Andrade Benedeti(*) o jornalismo arvora para si a competência de construir o discurso informativo jornalístico: ‘É em nome dessa competência de bem informar em condições adversas de tempo que sua credibilidade ( e autoridade) social existe. A ampliação do poder da atividade jornalística na sociedade impõe-lhe exigências de qualidade cada vez maiores, de forma que as dificuldades peculiares da atividade, e as restrições criadas pelos interesses financeiros no jornalismo (pela concorrência) não servem de justificativas absolutas para as suas deficiências.’

Ainda sobre a qualidade da informação, o jornalista norte americano Kevin Mckenzie disse que: ‘Por mais de 20 anos escrevi artigos diários em jornais e nunca ninguém perguntou aos meus leitores se meu trabalho era bom. Os prêmios de jornalismo que recebi foram decididos por meus pares e nunca pelo público leitor. Hoje a definição de qualidade passa a ser decisão do leitor em cujas mãos está o destino do jornalismo.’

Até a próxima semana.

(*) ‘A Qualidade da Informação Jornalística: Uma Análise da Cobertura da Grande Imprensa sobre os Transgênicos em 2004’ Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Brasília, 2006.’

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