Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > AGÊNCIA BRASIL

Paulo Machado

20/07/2010 na edição 599

‘‘Estamos todos emagrecendo, lavando roupas de pés no chão. Cadê a bóia do pessoal, há o duro feijão sem sal e mais atrás vem um macarrão, parece cola de colá caixão, mais atrás vem a sobremesa, banana podre prá botá na mesa e mais atrás vem a batatinha, parece chumbo de matá galinha’ – Maria da Conceição Buarque Negromonte de Lima, 59 anos, ex-interna do Hospital Psiquiátrico José Alberto Maia, em Camaragibe, a 10 quilômetros de Recife (PE).

A ABr produziu uma série de 22 matérias, entre 28 e 30 de junho mapeando diversos aspectos da política pública de Saúde Mental no Brasil. O contexto dessa discussão é apresentado na notícia inicial: Transtornos mentais atingem 23 milhões de pessoas no Brasil. A série, finalizada com a publicação da matéria Temporão defende promoção da saúde mental desde a infância, trazendo declarações do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, marcou a realização da 4ª Conferência Nacional de Saúde Mental.

Ao contrário de outras coberturas temáticas, a reportagem não se reduziu ao evento ou às declarações de seus participantes para promover o debate. Buscou na realidade, tal como se apresenta em diversos estados, para mostrar a quantas anda a chamada reforma psiquiátrica, nove anos depois da edição da Lei que a instituiu.

Preciosidades como o trecho da música reproduzido no primeiro parágrafo desta coluna, foram captadas pela reportagem em entrevistas com pacientes que passaram boa parte de suas vidas ‘depositados’ em manicômios de Recife -PE, Goiânia – GO, Santos – SP e Porto Alegre – RS. As matérias descrevem mudanças significativas na vida de muitos ex-internos incorporados a programas psico-sociais de tratamento e como eles recuperam a cada dia a dignidade humana com a oportunidade da volta a convivência com a sociedade que um dia os excluiu.

Especialistas e funcionários de instituições de tratamento também relatam suas experiências. Falam sobre o conhecimento adquirido com as novas terapias e os resultados obtidos e fazem críticas a lentidão na implantação da infra-estrutura básica de atendimento por parte do governo.

As matérias também mostram as aparentes contradições da reforma ouvindo fontes contrárias ao modelo. Associações de classe, como a dos psiquiatras, muitas vezes defendem interesses corporativos que conflitam com os interesses da saúde dos pacientes, familiares ponderam sobre eventuais necessidades de internação em casos extremos temendo a politica de extinção de leitos preconizada pela reforma. Nessa diversidade de opiniões a reportagem consegue transitar por boa parte do universo de interesses, de necessidades e de soluções que influenciam a formulação e a condução da política pública, sem tomar partido, sem tentar induzir o leitor a conclusões.

Apesar desta postura permear toda a cobertura, a assessoria de Comunicação Social do governo do Estado do Rio Grande Sul protestou junto à esta Ouvidoria contra o conteúdo da matéria No Rio Grande do Sul, Hospital São Pedro guarda resquícios de modelo manicomial, publicada dia 28 de junho.

Segundo o diretor Paulo Burd: ‘Ficamos estarrecidos com as afirmações ali contidas, por se tratarem de um ataque agressivo e acima de tudo mentiroso sobre a realidade e o papel que o HPSP [Hospital Psiquiátrico São Pedro] exerce, à semelhança de tantas outras denúncias, em outros campos, que o atual governo estadual tem sofrido.’

A Agência Brasil respondeu: ‘A matéria em questão evitou tecer opinião sobre a realidade encontrada no Hospital Psiquiátrico São Pedro em Porto Alegre. A afirmação sobre descuido com pacientes é foi feita pela psicóloga Sandra Fagundes e não pela repórter. Como segue trecho abaixo […]. A matéria não diz que atualmente se pratique eletrochoque, mas que no passado isto era feito e reproduz o relato da freira que trabalha no hospital há cerca de 60 anos e contou sobre o surgimento do eletrochoque. Quanto ao título ‘Hospital São Pedro guarda resquícios de modelo antimanicomial’ refere-se ao fato de apesar do número de pacientes em modelo asilar (que residem no hospital) ter reduzido imensamente ele, assim como diversos outros hospitais psiquiátricos do país, ainda guardam resquícios (resíduos, vestígios, segundo o dicionário Aurélio) do modelo antigo, já que nele ainda moram pessoas, diferente do que prega a reforma psiquiátrica. A reforma prevê que estas pessoas sejam desinstitucionalizadas, saiam da instituição hospitalar e possam ter uma vida mais humanizada fora do hospital em um residência terapêutica ou retornando ao convívio familiar quando isto é possível.’

Uma das frases mais contundentes da notícia sobre o hospital – a de que ele é ‘a lembrança ainda viva dos tempos de encarceramento da loucura’, significa que esta foi a impressão que o ambiente causou à repórter a título de lembrança de uma situação passada que realmente se verificou. Portanto, consideramos que, ao contrário do que o demandante afirma, a matéria não possui ‘conteúdo mentiroso ou tom agressivo’.

Se há alguma reparação a fazer, ela refere-se à generalização contida no título da notícia: ‘No Rio Grande do Sul’. Ao privilegiar o nome do estado em que se localiza o hospital e não o caso específico da unidade de atendimento, a manchete chama a atenção do leitor para uma eventual politica generalizada do governo do Rio Grande do Sul no que tange à Saúde Mental, informação que não se confirma no conteúdo da matéria.

Como em jornalismo não é possível se esgotar um tema em uma só notícia, consideramos uma falha a falta de links associando aquela matéria ao conjunto da cobertura, pois permitiria aos leitores observar que há outras duas notícias nas quais os programas psico-sociais daquele Estado são descritos de maneira exitosa: Residências terapêuticas valorizam autonomia de ex-internos de hospitais psiquiátricos e Gaúcha conquista casa própria depois de passar 20 anos em hospital psiquiátrico.

Polêmicas a parte, podemos afirmar que a Agência Brasil, ao tratar do tema, abriu uma importante janela para o debate – parafraseando Heloísa Monteiro Baraci, de 55 anos, que descreveu para a reportagem o que sentiu ao retornar ao lar depois de passar 20 anos internada no Hospital São Pedro: ‘Quando cheguei a minha casa a primeira coisa que fiz foi abrir a janela do meu quarto. No hospital não tem janelas para a gente abrir’.

Até a próxima semana.

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