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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MONITOR DA IMPRENSA > O POVO

Paulo Rogério

03/08/2010 na edição 601

‘‘A imprensa não é o Quarto Poder. É o contrapoder.’ Zuenir Ventura, jornalista e escritor

‘O jornal precisa cobrar mais, ouvir sociólogos, motoqueiros, saber como é a formação do policial. Isso não pode ficar assim!’. O primeiro telefonema do dia, na manhã da segunda-feira, 26, deu o tom do que seria a semana. As indagações não eram de um chefe de reportagem comunicando pautas para o repórter. Era do leitor Vicente de Paula, indignado com o assassinato do adolescente Bruce Cristian, 14, cometido por um policial do Ronda do Quarteirão no dia anterior. A foto estampada do pai, abraçado ao corpo ensanguentado do filho, indignou a população. Causou perplexidade, revolta e uma necessidade muito grande de falar, de deixar seu protesto registrado. A imprensa foi o canal escolhido. Centenas de cobranças semelhantes chegaram no O POVO Online. Algumas registradas na boa cobertura dada pelo jornal, sem os velhos clichês policiais. Se no primeiro dia exagerou ao publicar foto do corpo envolto em sangue, posteriormente foi bem ao ouvir especialistas em segurança, psicólogos, sociólogos, ex-policiais, políticos e espalhar o assunto pelas editorias. Na quinta-feira, 29, deu o diferencial com matéria relembrando casos semelhantes.

O leitor Célio Facó elogiou o modo como o tema foi tratado em Editorial na terça-feira, 27. ‘O jornal soube achar os termos certos: ‘despreparo policial’. Mais: achou-lhe as causas, identificado o soldado culpado, no próprio modelo de polícia e sociedade, esquizofrênicas, medrosas, que escolhemos instituir’ advertiu. Das observações recebidas (seis), apenas uma foi de critica por um título usado para relatar enterro do adolescente: Lágrimas por quem não deveria ter ido. Para a leitora Regina Barboza, jornalista aposentada, a manchete é ‘pseudopoética’ e deixa a sensação de que podemos escolher qualquer outro para colocar no alvo de um policial despreparado. ‘Se não era para o garoto ter morrido, quem deveria ter ido em seu lugar? Alternativas: eu; o senhor, o Cid, o Lula?’, desabafou. No dia seguinte mandou outra mensagem, agora se identificando e pedindo desculpas. ‘Às vezes sou meio irritadiça’, admitiu. Ainda bem que ela não é policial.

Oportunidades perdidas

A necessidade de confrontar discursos precisa ser encarada como desafio diário do jornalista. Desde março, o coordenador do Programa de Transporte Urbano de Fortaleza, Daniel Lustosa, vem enrolando a imprensa com datas para finalizar o túnel da avenida Humberto Monte. Era em maio, depois fim de junho, fim de julho e agora fim de agosto. A matéria publicada na quinta-feira faz apenas uma menção ao prazo prometido anteriormente, sem cobranças. Na sexta-feira foi pior. Ninguém teve coragem de indagar ao presidente da Etufor, Ademar Gondim, se população foi avisada das mudanças nas paradas de ônibus no Centro. A matéria apenas relatou alterações, embora na própria página vários usuários afirmassem não saber de nada. Cadê a indignação que o leitor espera?

Voto na privada

Com a campanha pela sucessão estadual ganhando espaço, os leitores começam a discutir um enfoque ou outro dado ao tema. O leitor Pedro Capibaribe não gostou nada da charge de segunda-feira, 26, da página 6, onde é colocada a cabine eleitoral e no lugar de uma cadeira para o eleitor, aparece um sanitário e o aviso: ‘Cuidado! Antes de votar, escolha cuidadosamente seu candidato’. Capibaribe qualificou de deselegante a opção do chargista Pedro Turano. ‘O jornal não é anarquista. Ele tem o papel de orientar. Se for para adotar tal postura que se faça em editorial’, afirmou. O chargista alega que o texto evita a possível mensagem anarquista. ‘A ideia foi fazer a provocação ao leitor para que ele pense bem para votar’, afirmou Turano. Parece que conseguiu o objetivo.

Cid em dose dupla

Um outro leitor, que pediu para manter o nome em sigilo, achou redundante a publicação de duas manchetes na edição de quarta-feira, 28, com o governador Cid Gomes falando sobre o assassinato do adolescente Bruce Cristian. Para ele as matérias falam a mesma coisa. De fato foi quase isso. Depois de 48 horas de completo silêncio, o governador falou no caso durante abertura de evento político: ‘Estou com uma trava no coração’. A declaração serviu de manchete do jornal e foi publicada na editoria Política, que normalmente encerra às 22 horas. Após o evento, em entrevista, Cid voltou ao assunto. Devido ao horário, a matéria foi para a Página 2, a última a ser fechada.

No relatório interno critiquei a decisão das duas manchetes. Defendi que, para manter equilíbrio, entrevista deveria ser uma secundária, com manchete dada às atividades de campanha de opositores que também abordaram tema durante a noite. Os editores do núcleo discordaram da avaliação alegando que era a primeira fala de Cid sobre o caso. O ideal era que tudo tivesse sido colocado em um único local. No caso a página 2.

E os outros?

Já o leitor Nelson Vidal se diz cansado somente de notícias locais de Política. Ele acha que O POVO não está dando quase nada para a sucessão em outros estados e muito pouco sobre a sucessão presidencial. ‘É natural uma cobertura mais local, mas é preciso ser mais abrangente. Quero saber mais sobre a campanha dos candidatos à presidência’ afirmou. Em um levantamento sobre as manchetes das páginas de Política do O POVO, de domingo até a última sexta-feira, dá para verificar a bronca do leitor. Das 30 páginas, 13 (44%) são sobre sucessão estadual, 9 (30%) sobre presidencial, 3 (10%) da Justiça Eleitoral, três (10%) de política local e duas (6%) de serviço. Da sucessão em outros estados, há apenas quatro ‘2 minutos’. Não estão incluídas notícias da Página 2. Compreende-se que a cobertura local é importante e deva ter o maior destaque, mas os leitores também querem saber o que ocorre em outros estados.

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