Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MONITOR DA IMPRENSA > O POVO

Plínio Bortolotti

24/04/2006 na edição 378

‘Com a fartura de meios de comunicação nos dias de hoje é cada vez mais difícil algum jornalista conseguir aquilo que é uma das metas mais perseguidas por todos os profissionais: o ‘furo’, isto é, a notícia dada em primeira mão, com exclusividade. Pois O POVO teve uma oportunidade dessas e a perdeu.

Na edição de 12 de abril, na capa do ‘Vida & Arte’, com o título ‘Madame Lee faz a festa’, o jornal anunciava que a cantora Rita Lee estaria na cidade para comemorar o aniversário de 280 anos de Fortaleza. Seguia-se uma entrevista, feita por e-mail. Apesar do meio eletrônico, o tom das perguntas e das respostas era bem descontraído, parecendo uma conversa entre duas amigas: a repórter Eleuda de Carvalho e a cantora. Lá pelas tantas, respondendo a esta pergunta: ‘Vamos tricotar um bocadinho sobre seu programa Madame Lee, no GNT. Vi vários, e um me chamou a atenção, foi há um tempo, com Zélia Duncan. Menina, uma coisa sensual, quase um ménage a trois.’ Rita Lee: ‘Zélia realmente é um convite à sacanagem divina (sic), não é mesmo? Vou te dar um furo agora: Zélia será a nova garota dos Mutantes e já está ensaiando com Sérgio e Arnaldo Baptista para uma série de apresentações da banda pelo mundo, não é genial isso?’

De bandeja, alertando antes, Rita Lee disse o que era dito pela primeira vez: Os Mutantes, separados há 30 anos, iriam se reunir para fazer ‘alguns shows pelo mundo’ e que, ela, a cantora original do grupo, seria substituída por Zélia Duncan. Para quem tem menos de 50 anos e não se liga em música, Rita refere-se à banda de rock que chacoalhou a cena musical brasileira quando surgiu em 1966. Os Mutantes influenciaram gerações de artistas e mantêm fiéis fãs até hoje.

Apesar disso, no O Povo, a declaração ficou lá perdida, quase no fim da entrevista. A editoria de Comportamento e Cultura passou distraidamente pela informação, não voltou a falar com Rita Lee, nem se empenhou em esclarecer o assunto. No entanto, outros veículos aproveitaram a informação divulgada com exclusividade, mas subaproveitada pelo O Povo. Primeiro, o jornal Folha de S. Paulo, dando mais de meia página em sua ‘Ilustrada’ (14/4), com o título ‘Sem Rita, Mutantes voltam com Zélia Duncan’, com várias informações sobre a banda e os shows programados. A matéria da Folha de S. Paulo dá a dimensão do assunto no meio cultural: ‘Tudo começou com um boato no começo do ano. Os Mutantes voltariam para um show em 22 de maio dentro de um evento (em Londres) dedicado à Tropicália (…). Poucos acreditaram, mas mais informações foram se confirmando…’

Depois, foi a vez da revista Veja (19/4), exercitando a sua agressividade, com a irônica matéria ‘Dinossauros psicodélicos’. O texto da revista e uma sarcástica resposta de Sérgio Dias Baptista, intitulada ‘Iluminai a nós pobres velhos decrépitos’, podem ser lidos no Observatório da Imprensa. Sérgio, seu irmão Arnaldo e Rita formavam o trio principal dos Mutantes.

Confesso que eu também passei batido pela informação (talvez pela falta de destaque), mas fui alertado pelo leitor Murilo Bohet, que me escreveu: ‘O Povo não aproveitou o furo nacional que parece ter dado nos grandes (jornais) do país; foi uma informação mal aproveitada, algo quase imperdoável em meio a um noticiário tão morno.’ Jornalismo, mesmo o cultural, é informação – e a notícia deve merecer tratamento privilegiado.

É notícia ou propaganda?

Com uma diferença de apenas sete dias, O Povo publicou duas notícias semelhando-se a propaganda, ambas na editoria de Economia. A primeira, teve destaque na capa da edição de 8 de abril: ‘Pão de Açúcar oferece frango congelado ao preço de R$ 1,29’. Na página interna, a matéria destacava a promoção da rede de supermercados, afirmando que a empresa pretendia vender, em um dia, ‘mil toneladas do produto em todo o Nordeste’. Na edição de 15/4, era esta a manchete da página 20: ‘Ótica aposta em promoção e cresce 32%’. A matéria informava: ‘Com a estratégia de atender ao público de terceira idade, as óticas Itamaraty registram crescimento de 32% em suas vendas neste primeiro semestre (…). O aumento nas vendas se deve, em parte, à promoção ‘Sua idade, seu desconto’, que daria o percentual de abatimento equivalente à idade do comprador. Nas duas ocasiões, o jornal limitou-se a comentar a promoção de cada uma das organizações, sustentando as matérias apenas nas declarações de representantes das próprias empresas.

Neila Fontenele, editora de Economia, vê como ‘um serviço ao leitor’ a notícia sobre promoções comerciais que possam beneficiá-lo, como seria o caso do preço do frango. A respeito da notícia sobre a empresa ótica, ela diz que, em edição anterior, o jornal produzira outra matéria sobre o preço de lentes e armações, na qual ‘faltaram informações mais consistentes sobre a Itamaraty’ e que a editoria resolveu ‘retomar a pauta’. De fato, na edição de 7 de abril – sob o título ‘Promoções para todo mundo ver’ (pág. 26) –, um repórter relatava o que havia apurado, percorrendo as lojas óticas do centro da cidade, comparando-lhes o preço. Nesta matéria, nada vi que justificasse a volta ao assunto para abordar a situação de apenas uma das empresas citadas.

O Povo tem por norma respeitar o compromisso estabelecido no item 9 do Código de Ética da Associação Nacional de Jornais (ANJ): ‘Diferenciar, de forma identificável pelo leitor, material editorial e material publicitário’. Ou seja, todas as propagandas no jornal têm cercadura, às vezes também a advertência ‘Publicidade’, para separá-las das notícias. Se esses cuidados são observados em relação às propagandas, um rigor maior haveria de haver com a forma de produzir as notícias.

Se é legítimo que os jornais noticiem promoções, produtos e serviços de forma a atender a alguma necessidade dos leitores, matérias desse tipo não podem se equilibrar somente nas informações daqueles diretamente interessados em vendê-los, ou apenas nas declarações de representantes das empresas. Há de se pesquisar, verificar se há outras empresas oferecendo o mesmo produto, comparar preços e qualidade, ouvir clientes, entre outras providências, de forma a oferecer ao leitor um verdadeiro trabalho jornalístico.’

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VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

24/04/2006 na edição 378

‘Com a fartura de meios de comunicação nos dias de hoje é cada vez mais difícil algum jornalista conseguir aquilo que é uma das metas mais perseguidas por todos os profissionais: o ‘furo’, isto é, a notícia dada em primeira mão, com exclusividade. Pois O POVO teve uma oportunidade dessas e a perdeu.

Na edição de 12 de abril, na capa do ‘Vida & Arte’, com o título ‘Madame Lee faz a festa’, o jornal anunciava que a cantora Rita Lee estaria na cidade para comemorar o aniversário de 280 anos de Fortaleza. Seguia-se uma entrevista, feita por e-mail. Apesar do meio eletrônico, o tom das perguntas e das respostas era bem descontraído, parecendo uma conversa entre duas amigas: a repórter Eleuda de Carvalho e a cantora. Lá pelas tantas, respondendo a esta pergunta: ‘Vamos tricotar um bocadinho sobre seu programa Madame Lee, no GNT. Vi vários, e um me chamou a atenção, foi há um tempo, com Zélia Duncan. Menina, uma coisa sensual, quase um ménage a trois.’ Rita Lee: ‘Zélia realmente é um convite à sacanagem divina (sic), não é mesmo? Vou te dar um furo agora: Zélia será a nova garota dos Mutantes e já está ensaiando com Sérgio e Arnaldo Baptista para uma série de apresentações da banda pelo mundo, não é genial isso?’

De bandeja, alertando antes, Rita Lee disse o que era dito pela primeira vez: Os Mutantes, separados há 30 anos, iriam se reunir para fazer ‘alguns shows pelo mundo’ e que, ela, a cantora original do grupo, seria substituída por Zélia Duncan. Para quem tem menos de 50 anos e não se liga em música, Rita refere-se à banda de rock que chacoalhou a cena musical brasileira quando surgiu em 1966. Os Mutantes influenciaram gerações de artistas e mantêm fiéis fãs até hoje.

Apesar disso, no O Povo, a declaração ficou lá perdida, quase no fim da entrevista. A editoria de Comportamento e Cultura passou distraidamente pela informação, não voltou a falar com Rita Lee, nem se empenhou em esclarecer o assunto. No entanto, outros veículos aproveitaram a informação divulgada com exclusividade, mas subaproveitada pelo O Povo. Primeiro, o jornal Folha de S. Paulo, dando mais de meia página em sua ‘Ilustrada’ (14/4), com o título ‘Sem Rita, Mutantes voltam com Zélia Duncan’, com várias informações sobre a banda e os shows programados. A matéria da Folha de S. Paulo dá a dimensão do assunto no meio cultural: ‘Tudo começou com um boato no começo do ano. Os Mutantes voltariam para um show em 22 de maio dentro de um evento (em Londres) dedicado à Tropicália (…). Poucos acreditaram, mas mais informações foram se confirmando…’

Depois, foi a vez da revista Veja (19/4), exercitando a sua agressividade, com a irônica matéria ‘Dinossauros psicodélicos’. O texto da revista e uma sarcástica resposta de Sérgio Dias Baptista, intitulada ‘Iluminai a nós pobres velhos decrépitos’, podem ser lidos no Observatório da Imprensa. Sérgio, seu irmão Arnaldo e Rita formavam o trio principal dos Mutantes.

Confesso que eu também passei batido pela informação (talvez pela falta de destaque), mas fui alertado pelo leitor Murilo Bohet, que me escreveu: ‘O Povo não aproveitou o furo nacional que parece ter dado nos grandes (jornais) do país; foi uma informação mal aproveitada, algo quase imperdoável em meio a um noticiário tão morno.’ Jornalismo, mesmo o cultural, é informação – e a notícia deve merecer tratamento privilegiado.

É notícia ou propaganda?

Com uma diferença de apenas sete dias, O Povo publicou duas notícias semelhando-se a propaganda, ambas na editoria de Economia. A primeira, teve destaque na capa da edição de 8 de abril: ‘Pão de Açúcar oferece frango congelado ao preço de R$ 1,29’. Na página interna, a matéria destacava a promoção da rede de supermercados, afirmando que a empresa pretendia vender, em um dia, ‘mil toneladas do produto em todo o Nordeste’. Na edição de 15/4, era esta a manchete da página 20: ‘Ótica aposta em promoção e cresce 32%’. A matéria informava: ‘Com a estratégia de atender ao público de terceira idade, as óticas Itamaraty registram crescimento de 32% em suas vendas neste primeiro semestre (…). O aumento nas vendas se deve, em parte, à promoção ‘Sua idade, seu desconto’, que daria o percentual de abatimento equivalente à idade do comprador. Nas duas ocasiões, o jornal limitou-se a comentar a promoção de cada uma das organizações, sustentando as matérias apenas nas declarações de representantes das próprias empresas.

Neila Fontenele, editora de Economia, vê como ‘um serviço ao leitor’ a notícia sobre promoções comerciais que possam beneficiá-lo, como seria o caso do preço do frango. A respeito da notícia sobre a empresa ótica, ela diz que, em edição anterior, o jornal produzira outra matéria sobre o preço de lentes e armações, na qual ‘faltaram informações mais consistentes sobre a Itamaraty’ e que a editoria resolveu ‘retomar a pauta’. De fato, na edição de 7 de abril – sob o título ‘Promoções para todo mundo ver’ (pág. 26) –, um repórter relatava o que havia apurado, percorrendo as lojas óticas do centro da cidade, comparando-lhes o preço. Nesta matéria, nada vi que justificasse a volta ao assunto para abordar a situação de apenas uma das empresas citadas.

O Povo tem por norma respeitar o compromisso estabelecido no item 9 do Código de Ética da Associação Nacional de Jornais (ANJ): ‘Diferenciar, de forma identificável pelo leitor, material editorial e material publicitário’. Ou seja, todas as propagandas no jornal têm cercadura, às vezes também a advertência ‘Publicidade’, para separá-las das notícias. Se esses cuidados são observados em relação às propagandas, um rigor maior haveria de haver com a forma de produzir as notícias.

Se é legítimo que os jornais noticiem promoções, produtos e serviços de forma a atender a alguma necessidade dos leitores, matérias desse tipo não podem se equilibrar somente nas informações daqueles diretamente interessados em vendê-los, ou apenas nas declarações de representantes das empresas. Há de se pesquisar, verificar se há outras empresas oferecendo o mesmo produto, comparar preços e qualidade, ouvir clientes, entre outras providências, de forma a oferecer ao leitor um verdadeiro trabalho jornalístico.’

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