Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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MONITOR DA IMPRENSA >

Políticos na mira dos internautas

Por Elle Hunt, Nick Evershed e Ri Liu em 04/07/2016 na edição 910

Este ano, Hillary Clinton recebeu quase o dobro das ofensas que recebeu Bernie Sanders pelo Twitter, segundo uma análise amplamente abrangente feita para o Guardian que compara o tratamento recebido pelos políticos nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália.

As ofensas aos políticos pela internet, em especial às mulheres, são interpretadas por algumas pessoas como tendo a ver com a região ou o país. Porém, à medida que os casos em destaque apontam a necessidade urgente de limpar a rede, a abrangência do problema é agora revelada em maiores detalhes num trabalho feito por uma empresa de dados sociais com sede em Brisbane, a Max Kelsen.

A análise avaliou disputas de liderança envolvendo políticos de ambos os sexos, com o objetivo de examinar se há diferença nas ofensas feitas entre políticos em níveis semelhantes em seus respectivos partidos. O trabalho mostra que a ex-primeira-ministra da Austrália Julia Gillard recebeu quase o dobro das ofensas recebidas por Kevin Rudd, que ela derrotou do cargo de primeiro-ministro e que posteriormente a derrotou voltando ao poder.

No passado recente dos últimos seis meses, houve uma intolerância crescente de ofensas na internet a personalidades públicas, estimulada por casos em destaque no mundo todo e que se refletem no seriado A internet que queremos, do Guardian.

O estudo também mostra que as ofensas nem sempre são predominantemente dirigidas às mulheres. E, ao contrário do que dizem as reportagens, Jeremy Corbyn recebeu mais ofensas do que outras lideranças trabalhistas – duas mulheres e um homem – na disputa por um cargo, em 2015.

Os tweets analisados foram dirigidos ou sobre Julia Gillard e Kevin Rudd, entre janeiro de 2010 e janeiro de 2014; os referentes aos concorrentes à liderança do Partido Trabalhista britânico, entre agosto e novembro de 2015; os candidatos indicados pelo Partido Republicano norte-americano à eleição presidencial – Carly Fiorina, Ben Carson e Chris Christie –, entre janeiro e abril deste ano; e Bernie Sanders e Hillary Clinton, entre janeiro e 18 de junho deste ano.

Todas as manifestações foram classificadas de acordo com um conteúdo de palavrões e linguagem ofensiva, com o mesmo filtro de ofensas aplicado a todas elas. O remetente de um tweet foi identificado por gênero, quando possível, e todas as análises excluíram retuítes e posts que incluíssem uma URL, num esforço para excluir spams.

Para mais detalhes, use o cursor para rolar até a seção de metodologia. Um aviso: os gráficos da figura abaixo contêm uma porção de palavrões.

Estados Unidos

Hillary Clinton recebeu quase o dobro de tweets ofensivos do que recebeu Sanders. Dos 4,27 milhões de tweets mencionando Hillary Clinton, 2,08% foram considerados ofensivos, comparados ao 1,12% dos 3 milhões de tweets citando Sanders. Três quartas partes das ofensas dirigidas a ambos os candidatos foram feitas por homens. As ofensas a Hillary Clinton aumentaram nas últimas semanas, na medida em que sua indicação como candidata a presidente pelo Partido Democrata se tornou quase uma certeza.

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Este gráfico mostra as 80 palavras mais usadas a partir de tweets contendo ofensas, excluindo os nomes dos usuários.

As ofensas dirigidas a Carly Fiorina, única candidata mulher pelo Partido Republicano, foram extremamente carregadas de um conteúdo sexual e muitas vezes tendo seu gênero como foco. As ofensas dirigidas a Ben Carson frequentemente tinham como referência seu apoio a Donald Trump ou sua profissão anterior como neurocirurgião e alguns tweets continham ofensas raciais. As ofensas dirigidas a Chris Christie muitas vezes eram sobre seu peso. Dos quase 15 mil tweets citando Carly Fiorina, 2.285, ou 1,53%, foram ofensivos – comparados ao 1,28% de 352 mil citando Carson e aos 2,4% dos 167 mil citando Christie.

Três quartas partes das ofensas dirigidas a Carly Fiorina foram enviadas por homens, comparadas aos 76% de homens enviadas a Carson e aos 73% de homens dirigidas a Christie.

Este gráfico mostra as 80 palavras mais usadas a partir de tweets contendo ofensas, excluindo os nomes dos usuários.

Austrália

Embora Julia Gillard e Kevin Rudd contassem com números quase iguais no total das conversas pelo Twitter (551.038 contra 489.101 tweets, respectivamente), Julia Gillard foi alvo de quase o dobro de tweets ofensivos dos que recebeu Kevin Rudd.

A diferença entre gêneros no total das conversas foi de 63% masculinas e 37% femininas. Porém, após aplicar o filtro de tweets ofensivos, a diferença entre gêneros foi de 73% masculinas e 27% femininas. 72% das ofensas dirigidas a Julia Gillard e 77% daquelas dirigidas a Kevin Rudd foram enviadas por homens.

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Este gráfico mostra as 80 palavras mais usadas a partir de tweets contendo ofensas, excluindo os nomes dos usuários.

Nicholas Therkelsen-Terry, diretor da empresa Max Kelsen, disse que os resultados variaram de acordo com a região da Austrália. As ofensas contra Julia Gillard no Twitter não surpreenderam, disse ele. “Na época, foi tão divulgado e desde então veio se arrastando bastante.”

Ela não só recebeu quase o dobro das ofensas que Kevin Rudd recebeu no Twitter (“e Rudd não era uma pessoa querida”), como elas foram mais pessoais, violentas e frequentemente sexuais. Quase três quartas partes dos tweets ofensivos sobre Julia Gillard enviados durante os últimos quatro anos, desde janeiro de 2010, foram enviados por homens.

Uma manifestação destacou-se entre muitas outras, não só por seus tweets – extremamente explícitos – para ou sobre Julia Gillard, mas também pelo prolongado período de tempo ao longo do qual eles foram enviados.

O homem mencionou Julia Gillard mais de 300 vezes em menos de dois anos, de março de 2012 a janeiro de 2014, numa série de mensagens explícitas, em sua maioria ofensivas e muitas vezes violentas e sexuais. É difícil comunicar a magnitude de sua linguagem sem a reproduzir aqui, mas suas mensagens para ou sobre Julia Gillard são chocantes em sua violência e misoginia.

Em meados de maio, o último tweet que ele havia enviado para @JuliaGillard era de 2 de janeiro de 2014: “Um feliz ano novo e uma despedida, querida.” Desde então ele tornou sua conta privada. “As ofensas que ele despejava eram maldosas – sexuais, realmente hediondas, coisas que provavelmente são ilegais”, disse Therkelsen-Terry. “Pelo menos seriam, se não estivessem nas redes sociais.”

Entre as mensagens explícitas enviadas a Julia Gillard, muitas vezes de ofensas altamente sexuais, havia tweets sobre a família e os amigos do homem, coisas que tinha comido, os times esportivos pelos quais ele torcia. Sua foto de capa no Twitter parece ter sido tirada no dia de seu casamento. “O que nos levou a compreender que estas pessoas [que enviam ofensas] têm famílias, fazem coisas em seu dia-a-dia. Não se trata daquela gente esquisita que fica trancada num quarto escuro fazendo jogos de computador o dia inteiro.” Era assim que os autores de ofensas pela internet tendiam a ser vistos, disse Therkelsen-Terry. “Quase alivia a responsabilidade deles: ‘Ora, são só pessoas que mostram discordância pela internet…’ – Mas são pessoas.”

Na Austrália, entraram com ações, por ofensas no Facebook, Jenny Leong, uma política do Partido Verde de New South Wales, e Nova Peris, ex-senadora pelo Território do Norte. Chris Nelson, um quiropraxista da Costa Central de New South Wales, reconheceu culpa por uma das acusações de ofensa contra Nova Peris.

Reino Unido

Mas na análise da disputa pela liderança do Partido Trabalhista no Reino Unido, Nicholas Therkelsen-Terry encontrou uma “conversa diferente”. Não só a diferença de gênero ficou menos patente, como a maioria das manifestações ofensivas contra Jeremy Corbyn, Andy Burnham, Yvette Cooper e Liz Kendall pelo Twitter, de agosto a novembro de 2015, tinha relação com suas posições políticas. Estes usuários do Twitter “estavam envolvidos no discurso político”, disse Therkelsen-Terry. “Eles compreendiam as questões sobre as quais estavam discutindo e foi por isso que as manifestações foram contra posições políticas, e não contra a pessoa em si.”

Lindsay Hoyle, presidente do painel de segurança parlamentar pelo Partido Trabalhista, propôs a criação de um investigador permanente de mídias sociais para acompanhar as ofensas aos parlamentares nas redes sociais. Ela também está tentando encontrar-se com representantes do Facebook e do Twitter para discutir como melhorar a proteção às parlamentares femininas, após a morte de Jo Cox, do Partido Trabalhista. Esta tinha comunicado à polícia que era vítima de assédio mal-intencionado meses antes de ser assassinada, por um tiro e uma facada, à saída de uma biblioteca.

Na terça-feira (21/06), Yvette Cooper disse que havia informado a polícia sobre uma ameaça de matá-la, e a seus filhos e netos, devido à sua campanha favorável a que a Grã-Bretanha continuasse na União Europeia no referendo da semana passada. Sua colega Jess Philips, também do Partido Trabalhista, revelou recentemente que recebeu mais de 600 ameaças de estupro numa única noite.

As redes sociais como o Facebook e o Twitter vêm sendo cada vez mais pressionadas para assumir a responsabilidade pelo que é dito em suas plataformas, mas uma das dificuldades é o contexto.

Nicholas Therkelsen-Terry disse que a barreira para manifestações convenientes é maior num discurso formal, pronunciado numa sala cheia de pessoas desconhecidas, do que naquilo que é dito entre amigos e entre dois copos de cerveja. “A questão está no que diz respeito às redes sociais. Seria uma conversa entre pessoas com ideias afins ou seria intrinsecamente público e, portanto, deveria ser abordado de outra maneira?”

Um ponto fundamental é que as informações, em si, não constituem um modo preciso de refletir o impacto da ofensa. “Você pode ler uma nuvem de palavras, mas quando você começa a ler tweet por tweet, é um desafio e tanto”, disse Therkelsen-Terry. “Depois de 10 ou 15 tweets, você sente vontade de vomitar.”

Métodos

Como não teve acesso ao histórico dos tweets disponível no Twitter API [Application Programming Interface], a empresa de análise de mídias sociais Max Kelsen providenciou, a partir dos arquivos de seu banco de dados, tweets citando os políticos nos seguintes períodos: Julia Gillard e Kevin Rudd, de janeiro de 2010 a janeiro de 2014; os concorrentes à liderança do Partido Trabalhista britânico, de agosto de 2015 a novembro de 2015; Jim Murphy e Nicola Sturgeon, de abril de 2014 a novembro de 2014; Bernie Sanders e Hillary Clinton, de janeiro a junho de 2016; e os candidatos republicanos indicados para a presidência Carly Fiorina, Ben Carson e Chris Christie, de janeiro a abril de 2016.

Os tweets foram filtrados e separados entre os que continham palavras ofensivas e os que não continham. Embora isso inclua informações falsas – no caso de tweets fundamentalmente dirigidos a um político, mas contendo ofensas dirigidas a outro –, estas são minoritárias. O gênero dos remetentes foi designado, quando possível, com base nas informações disponíveis, como informação biométrica ou os tweets propriamente ditos.

Foram usados gráficos com a frequência de determinadas palavras para a Austrália e para os Estados Unidos, mas não para o Reino Unido, devido ao baixo volume de tweets.

***

Elle Hunt, Nick Evershed e Ri Liu são, respectivamente, repórter, editor e designer da versão do Guardian na Austrália

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