Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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MONITOR DA IMPRENSA > Mídia & terrorismo

Por que devemos publicar as fotos dos terroristas

Por Roy Greenslade em 01/08/2016 na edição 914
Reproduzido do Guardian, 1/08/2016; tradução de Jô Amado

Alguns jornais e emissoras franceses decidiram parar de publicar fotografias de pessoas que cometem atrocidades terroristas para evitar que gozem de uma suposta “glorificação póstuma”. Entre os jornais estão o influente diário Le Monde e o católico La Croix. Entre as emissoras de TV que adotaram a autocensura estão dois dos principais canais franceses: o BFM-TV e o France-24. A estação de rádio Europe 1 disse que não iria usar fotos dos criminosos em seu website, nem mesmo divulgar seus nomes.

O argumento por trás dessa decisão equivocada foi explicado pelo professor de psicopatologia Fethi Benslama, que o Monde citou: “Aqueles que cometem estes atos querem ser conhecidos e reconhecidos. Esperam por uma glória global – quanto mais sangrento, melhor.”

Ao propor um pacto entre os veículos jornalísticos, inclusive as redes sociais, ele argumentou que, não publicar as fotografias ou os nomes dos jihadistas seria “limitar o alcance de sua autoglorificação”. Em suas mentes frágeis, sugeriu o professor, “vale a pena um massacre para se tornar famoso por vários dias”.

Ao se tornarem mártires por sua causa, eles fortalecem a propaganda do Estado Islâmico. Outros veículos que favorecem a autocensura acreditam que publicar significa correr o risco de pôr os terroristas no mesmo plano que suas vítimas. Uma outra afirmativa (repercutindo as opiniões de tomar cautela ao divulgar suicídios) é a de que a identificação dos criminosos poderia inspirar atos terroristas copiadores daquele.

A comparação com o suicídio é equivocada

Embora eu compreenda a emoção subjacente a esses argumentos, eles não me convencem em absoluto. O dever da mídia é divulgar e expor. Sim, é verdade que devemos ter um senso de responsabilidade. Temos que estar conscientes de que aquilo que publicamos pode ter consequências. Mas a divulgação objetiva dos fatos, principalmente quando a sociedade vem sendo atacada, é essencial.

Nessas ocasiões, a retenção de informação pode alimentar boatos sem fundamento. E os boatos, por sua vez, alimentam medo (a reação passiva) e represálias inadequadas de vingança (a reação ativa). Ambas as reações fazem o trabalho dos terroristas por eles. Dividem a sociedade. Produzem decisões políticas reacionárias. E o autoritarismo aumenta a possibilidade de que os terroristas atraiam novos recrutas.

Em tempos de crise, as pessoas precisam de fatos e a identificação de terroristas, mortos ou vivos, é parte indispensável da informação exigida.

Na verdade, é evidente que há uma necessidade de saber o máximo possível sobre os terroristas individualmente, sobre suas vidas e seus passados. De que outra maneira podemos compreender os motivos para sua disposição para cometer esse tipo de atos? Deveríamos procurar mais informação, e não menos.

Fotografias dos autores de crimes inconfessáveis não glorificam, em sai, os criminosos. São um componente significativo dos dados objetivos necessários (com o efeito prático de estimular membros do público que os reconheçam, talvez com uma aparência diferente, a procurar e ajudar as autoridades).

No que se refere ao comportamento do imitador, a comparação com o suicídio é equivocada. Na Grã-Bretanha nós divulgamos os suicídios e as fotografias das pessoas envolvidas. O que não revelamos (ou não deveríamos revelar) são os detalhes precisos, a técnica. E também nos abstemos de fotografar alguém no momento do suicídio.

Orientações excessivamente rígidas

O terrorismo é outra questão. Não deveríamos censurar o que publicamos. Nossa melhor opção é de que as pessoas saibam o que aconteceu e quem foi responsável por isso. Não podemos tomar decisões editoriais baseados na possibilidade de que uma pessoa desequilibrada e alienada, com uma mente altamente influenciável, siga um exemplo. Levar isso a uma conclusão lógica significaria uma censura virtual das notícias.

Concordo com Laurent Joffrin, diretor do jornal Libération, que reagiu à iniciativa do Monde dizendo: “Sejamos realistas: publicar ou suprimir uma foto não irá mudar em nada a estratégia dos terroristas. Alguém acredita, seriamente, que privar os terroristas de imagens irá desacelerar seu comportamento, torná-los mais moderados ou dissuadi-los?”

Para o Estado Islâmico, os perfis de seus terroristas nos principais jornais de qualquer país são em grande parte irrelevantes. Como destacou Jason Burke, eles preferem glorificar seus jihadis nas redes sociais, que cruzam todas as fronteiras.

Mas o editor das cartas de leitores do Observer, Stephen Pritchard, ofereceu – ou melhor, tomou emprestado – um conselho sensato sobre como divulgar os fatos de maneira a minimizar qualquer senso de glorificação ou estimular o comportamento de imitador. Ele citou um conjunto de recomendações organizadas por jornalistas na revista norte-americana Mother Jones, em outubro de 2015: descreva o autor do crime em linguagem técnica e desapaixonada; minimize o uso do nome do autor; mantenha o nome do autor fora dos títulos das matérias; mantenha num mínimo o uso de imagens do autor; evite usar fotos do autor posando como “assassino em série”; evite usar vídeos ou manifestos do autor exceto quando forem de necessidade evidente ou de valor para a matéria.

Ainda assim, não sei se concordo inteiramente com essas orientações excessivamente rígidas. O que tenho certeza é que, ao se entregar à autocensura, a mídia francesa tomou a decisão errada.

***

Roy Greenslade é professor de Jornalismo e tem um blog no Guardian

 

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