Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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MONITOR DA IMPRENSA >

Problemas e soluções

03/08/2004 na edição 288

A revista Editor &Publisher [26/7/04] publicou ampla reportagem de Joe Strupp, Shawn Moynihan e Charles Geraci sobre a questão da parcialidade política da imprensa, tema sempre muito debatido mas que ganhou força com a recente publicação de pesquisas mostrando que, nas redações americanas, predominam profissionais de tendência esquerdista.

Segundo o Pew Research Center, os liberais excedem os conservadores numa proporção de cinco para um nos jornais de circulação nacional, apesar de o grupo predominante ser dos que se autodenominam ‘moderados’. Pesquisa do instituto Gallup feita em setembro do ano passado mostra que 60% dos americanos com visão política direitista acham que a mídia tem tendência liberal. Mesmo entre os liberais, 18% concordam com isso. Há também uma corrente que enxerga a imprensa como direitista – 30% dos liberais têm essa opinião, defendida no livro What Liberal Media? (Que mídia liberal?), de Eric Alterman. A chegada da Fox News, rede de notícias notadamente conservadora, à liderança de audiência em seu segmento, é um fator que corrobora esse ponto de vista.

Se os liberais são mesmo maioria nas redações, por que isso acontece e como acabar com a desigualdade ou, ao menos, não deixar que ela transpareça nas matérias? Uma explicação pode ser a de que os estudantes de comunicação conservadores tendem a seguir carreira em relações públicas, deixando o trabalho jornalístico propriamente dito para os liberais. O professor David Baron, da Universidade Stanford, publicou em fevereiro um artigo em que teoriza que os meios de comunicação toleram a predominância de funcionários esquerdistas porque eles aceitam trabalhar por menos dinheiro. Para ele, a tendência liberal dos veículos é ‘condizente com a maximização de lucros’.

O crítico de mídia William McGowan tem outra explicação: os conservadores querem trabalhar nos jornais, mas não suportam o ambiente hostil à sua ideologia, já que nas redações encontram uma maioria de colegas liberais. Comumente sequer são contratados. Segundo McGowan, os jornalistas ‘são um grupo auto-seletivo’.

Seguindo a linha das ações afirmativas para inclusão de minorias, há editores defendendo a adoção de uma política de cotas para a contratação de mais repórteres conservadores. John Leo, colunista da revista U.S. News & World Report, é contra. Ele acredita que os jornais devem aumentar a diversidade em suas conferências editoriais. ‘Todos sabemos que as conferências mudaram no dia em que participou o primeiro negro. E foi algo muito bom… Eu não me importo de saber quantos democratas ou liberais há na equipe, contanto que se faça algo para mudar a cultura de uma nota só na redação’.

Valores diferentes

A pesquisa do Pew Research Center mostra que 40% dos jornalistas acreditam que as matérias evidenciam demais a tendência política dos seus autores. O fato é que os profissionais de imprensa têm princípios, educação e cultura muito diferente de seus leitores. Um exemplo é sua postura com relação à religião. Enquanto 56% dos americanos são de opinião de que para ser uma pessoa ‘moral’ é necessário acreditar em Deus, esse índice cai para 6% entre jornalistas de veículos de alcance nacional.

A preocupação com o enorme fosso cultural entre os jornalistas e o público tem aumentado. Ficou famoso o caso de uma circular enviada pelo editor do Los Angeles Times, John Carroll, à redação pedindo mais cuidado para que matérias sobre aborto não transparecessem parcialidade. A atitude foi motivada por uma matéria sobre nova lei texana que obriga os médicos a alertarem suas pacientes sobre o aumento de risco de aparecimento de câncer de mama após um aborto. Carroll ficou incomodado com o fato de que não foi mencionada nenhuma evidência científica em favor da lei, apenas a posição política daqueles que a apoiavam.

Phil Bronstein, editor da San Francisco Chronicle, admite que a predominância de liberais na redação é um problema, mas aponta que as matérias incompletas nem sempre são resultado da tendência política de seus autores. ‘Elas muitas vezes são reflexo de falta de conhecimento. Há uma presunção liberal-progressista nessa área e é incumbência dos nossos repórteres desafiar essa presunção’, explica. Ele cita como exemplo a cobertura do problema dos sem-teto que vivem nas ruas de San Francisco. ‘Há de se pensar que não se trata apenas de um momento ruim na vida de algumas pessoas. É preciso refletir também a visão do comerciante sobre aquelas pessoas na calçada, em frente à sua loja’.

Nada imparcial

Para manter imparcialidade política, o editor executivo do Washington Post, Leonard Downie Jr. não vota há 20 anos. Ele diz que gostaria que seus subordinados fizessem o mesmo, mas sabe que não pode obrigá-los. ‘Gostaria que nossas mentes estivessem o mais abertas possível. Qualquer outro ativismo político está banido’.

No fim das contas, é consenso entre os editores que a imparcialidade não existe. ‘Bons repórteres escrevem matérias redondas e balanceadas’, diz David Cay Johnson, jornalista vencedor de Pulitzer que atualmente cobre a área tributária para The New York Times. ‘Trabalhei em cinco grandes jornais sentado junto a pessoas que tinham visões políticas que iam do comunismo ao fascismo e seria difícil para mim encontrar algum sinal disso em seus trabalhos como repórteres. Uma análise melhor que a ‘liberal versus conservador’ seria a ‘ideológico versus não-ideológico’ e ‘redondo versus não-redondo’’.

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