Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Quando o moralismo atrapalha o jornalismo

Por Thaís Naldoni em 16/03/2010 na edição 581

Há meses venho acompanhando o noticiário da TV Record e a cada dia que passa me espanta mais as doses de moralismo incrustadas em cada matéria sobretudo quando se trata das reportagens mais extensas, geralmente exibidas no Domingo Espetacular. No último programa, do dia 14/03, duas delas me chamaram muita atenção e mostram o quanto a influência da Igreja Universal ainda é notória na linha editorial, depois de muitas tentativas da emissora de manter distanciada a fé religiosa do Jornalismo.


Quando da morte do cartunista Glauco Villas Boas, da Folha de S.Paulo, e de seu filho Raoni Villas Boas, na última semana, em São Paulo (SP), e da intensa divulgação da doutrina seguida pelo artista, o Santo Daime, já esperava a vinda de chumbo grosso por parte das matérias da Record. Nota-se que, durante matéria sobre o caso, exibida no programa apresentado por Paulo Henrique Amorim, Fabiana Scaranzi e Janine Borba, as expressões usadas para descrever o uso da bebida sacramental levam o telespectador leigo a acreditar que a ingestão é maléfica e que o assassinato teria a ver – ainda que de maneira indireta – com consumo do chá.


Nunca ingeri o ayahuasca – nome da bebida na qual a doutrina do Santo Daime é baseada – mas acredito que seja um grande equívoco usar de preconceitos para falar da fé alheia e dos rituais praticados Brasil afora. Vivemos em um país laico e não é nada jornalístico induzir telespectadores a acreditar no que quer que seja… o papel do jornalista e do jornalismo é dar ao cidadão informações, que sirvam como ferramentas para que ele possa se formar e fundamentar sua própria opinião e conceitos.


Impressões equivocadas


Outro caso mostrado também no Domingo Espetacular do último domingo e que carrega na carga moral é o das fotos em que a modelo Cristina Mortagua aperece com seu filho – em poses sensuais – na coluna ‘Retratos da Vida’, do jornal carioca Extra.


Não discuto aqui o bom gosto ou falta de gosto das fotos. Tampouco se a vida da ex-modelo é polêmica. O fato é que, em razão do ensaio, Cristina foi chamada ao Juizado de Menores do Município do Rio de Janeiro para depor, porque seu filho é menor. O Juizado quer que as fotos sejam tiraras do ar.


Cristina alega que fez as fotos para dar uma força a seu filho, que sonha em entrar para a carreira artística. É uma pauta, claro. Mas o que chamou atenção, mais um vez, foi a matéria do Domingo Espetacular ter enfatizado de forma absurda o carinho entre mãe e filho, e a cena dos bastidores do ensaio em que mãe e filho dão um ‘selinho’, sugerindo, inclusive, uma relação incestuosa.


Que eu saiba, não é a primeira vez nem a última, que pais dão beijocas carinhosas nos lábios dos filhos, sem qualquer teor sensual. E carinho entre mãe e filho, até onde eu possa entender, é coisa de se admirar. Repito: não discuto o bom gosto ou a falta de gosto das imagens, mas daí a sugerir incesto, acho um pouco demais. Bato na tecla, mais uma vez, que as doses de moralismo postas no recheio de grande parte da linha editorial da Record, leva o telespectador a ter impressões equivocadas, sendo um desserviço à informação, além de poder gerar processos significativos e, porque não dizer, até justos.


 


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Jornalista com passagens pela Folha Online e Sportv, também atuou como repórter e secretária de redação da revista Imprensa

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