Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > GLAUCO (1957-2010)

Quando o moralismo atrapalha o jornalismo

Por Thaís Naldoni em 16/03/2010 na edição 581

Há meses venho acompanhando o noticiário da TV Record e a cada dia que passa me espanta mais as doses de moralismo incrustadas em cada matéria sobretudo quando se trata das reportagens mais extensas, geralmente exibidas no Domingo Espetacular. No último programa, do dia 14/03, duas delas me chamaram muita atenção e mostram o quanto a influência da Igreja Universal ainda é notória na linha editorial, depois de muitas tentativas da emissora de manter distanciada a fé religiosa do Jornalismo.


Quando da morte do cartunista Glauco Villas Boas, da Folha de S.Paulo, e de seu filho Raoni Villas Boas, na última semana, em São Paulo (SP), e da intensa divulgação da doutrina seguida pelo artista, o Santo Daime, já esperava a vinda de chumbo grosso por parte das matérias da Record. Nota-se que, durante matéria sobre o caso, exibida no programa apresentado por Paulo Henrique Amorim, Fabiana Scaranzi e Janine Borba, as expressões usadas para descrever o uso da bebida sacramental levam o telespectador leigo a acreditar que a ingestão é maléfica e que o assassinato teria a ver – ainda que de maneira indireta – com consumo do chá.


Nunca ingeri o ayahuasca – nome da bebida na qual a doutrina do Santo Daime é baseada – mas acredito que seja um grande equívoco usar de preconceitos para falar da fé alheia e dos rituais praticados Brasil afora. Vivemos em um país laico e não é nada jornalístico induzir telespectadores a acreditar no que quer que seja… o papel do jornalista e do jornalismo é dar ao cidadão informações, que sirvam como ferramentas para que ele possa se formar e fundamentar sua própria opinião e conceitos.


Impressões equivocadas


Outro caso mostrado também no Domingo Espetacular do último domingo e que carrega na carga moral é o das fotos em que a modelo Cristina Mortagua aperece com seu filho – em poses sensuais – na coluna ‘Retratos da Vida’, do jornal carioca Extra.


Não discuto aqui o bom gosto ou falta de gosto das fotos. Tampouco se a vida da ex-modelo é polêmica. O fato é que, em razão do ensaio, Cristina foi chamada ao Juizado de Menores do Município do Rio de Janeiro para depor, porque seu filho é menor. O Juizado quer que as fotos sejam tiraras do ar.


Cristina alega que fez as fotos para dar uma força a seu filho, que sonha em entrar para a carreira artística. É uma pauta, claro. Mas o que chamou atenção, mais um vez, foi a matéria do Domingo Espetacular ter enfatizado de forma absurda o carinho entre mãe e filho, e a cena dos bastidores do ensaio em que mãe e filho dão um ‘selinho’, sugerindo, inclusive, uma relação incestuosa.


Que eu saiba, não é a primeira vez nem a última, que pais dão beijocas carinhosas nos lábios dos filhos, sem qualquer teor sensual. E carinho entre mãe e filho, até onde eu possa entender, é coisa de se admirar. Repito: não discuto o bom gosto ou a falta de gosto das imagens, mas daí a sugerir incesto, acho um pouco demais. Bato na tecla, mais uma vez, que as doses de moralismo postas no recheio de grande parte da linha editorial da Record, leva o telespectador a ter impressões equivocadas, sendo um desserviço à informação, além de poder gerar processos significativos e, porque não dizer, até justos.


 


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Homenagem ao cartunistaDiário de Pernambuco

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Jornalista com passagens pela Folha Online e Sportv, também atuou como repórter e secretária de redação da revista Imprensa

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/03/2010 TerezaCantalice

    Querida Taís, quero parabenizar seu artigo e dizer que o Brasil está precisando de pessoas com pensamentos e atitudes como a sua.Que reflete opiniões e expressa sentimentos, com críticas e elogios tamébm.
    Parabens de verdade.

  2. Comentou em 17/03/2010 TerezaCantalice

    Querida Taís, quero parabenizar seu artigo e dizer que o Brasil está precisando de pessoas com pensamentos e atitudes como a sua.Que reflete opiniões e expressa sentimentos, com críticas e elogios tamébm.
    Parabens de verdade.

  3. Comentou em 17/03/2010 Carlos Alberto Durães

    Parabéns Thaís, pelo artigo.

    Alguém já disse que contra Crenças não há fatos…o preconceito é realmente uma pobreza quase incurável.
    Vi a reportagem da Record no caso Glauco e não considero isso jornalismo.
    Aliás você definiu de forma excelente o papel do jornalista, que é passar informações, as mais plurais possíveis, para o leitor/espectador e não sob o pretexto de sua profissão, apenas disseminar a sua própria e às vezes preconceituosa e ‘pobre’ opinião.

  4. Comentou em 17/03/2010 Ariane Galdino

    Muito bem colocado pela jornalista. Comentários sensatos. Concordo plenamente, a Record tenta sim ser moralista e a religião paira sobre o ar, estúdio, pessoas, etc… daquela emissora.

    Bacana! Parabéns!

  5. Comentou em 17/03/2010 Claudia Zardo

    Discordo- Nós últimos dias tenho feito jornalismo comparado na TV aberta e entre as emissoras a Record foi a que mais próxima chegou do que se chama de jornalismo. Incluindo a cobertura do julgamento do casal Nardoni, caso este que a imprensa já fez justiça com as suas próprias câmeras.

    Eu vi a matéria e creio que às vezes ‘o mal das coisas está nos olhos de quem o vê’.Logo , talvez o preconceito esteja mais em você do que no que você vê no trabalho deles.

    O chá em questão é um alucinógeno. Qualquer químico admite isso. Qualquer ser com mediana inteligência e mesmo sem qualquer religião sabe que se uma ser chega para você pedindo ajuda para sair das drogas e você der a ele um alucinógeno para se livrar das drogas, está desvenstindo um santo para criar um possível monstro.

    Thaís, antes de qualquer coisa, e bem distante do que é o ideal no jornalismo, sugiro que veja um filme de nome A ONDA. É uma boa explicação – racional – para o inexplicável social.

    Parabéns aos profissionais da Record, que ao contrário do restante têm também tratado o ‘suspeito’ de matar o Glauco como ‘supeito’, e não assassino – mesmo confesso, pois quem trabalha na Justiça sabe que o que jornalista acha que sabe ou acha que é nada vale em uma Justiça onde só aquilo que você consegue provar é o que é.

  6. Comentou em 16/03/2010 Tereza Cantalice

    Como Jornalista e daimista que sou, acredito que nossa televisão brasileira tem deixado muito a desejar quando o assunto é religião. Primeiro que várias matérias são publicadas sem o cuidado de se apurar os fatos de verdade, livre de qualquer influência de crença. O nosso Estado é Laico, mas infezlimente só no papel. O que de fato se vê nas emissoras é uma guerra de poder, que acaba por destruir coisas pequenas e significantes. Ninguem fala que o Santo Daime foi decretado Patrimônio Cultural do Brasil e que sua legalização se deu em 2001 e não agora. O que de fato foi publicado no Diario Oficial da União foi sim como as igrejas devem se comportar a partir daquela publicação e outras determinações para seu consumo. Inclusive que várias pesuisas e estudos já foram realizadas com a bebida e de fato se concluiu que o Daime não tem componente que vicie e portanto não é considerado uma droga.
    Quem critica talvez nunca tenha esperimentado, não conhece de fato e fala por falar, ou melhor, por influência da mídia, que sim tem o poder de influenciar e discriminar o que quizer.
    O jornalismo brasileiro tem suas deficiências. E quando as emissoras são comandadas por chefões religiosos ai se explica tudo. Queria ver uma matéria de fato e de direito, como àquela publicada pelo Fantástico. Como na Minissérie Amazônia. Ali sim é uma pesquisa de verdade.

  7. Comentou em 16/03/2010 José Albino

    Cara Thais Naldoni, muito bom seu texto.
    Concordo na totalidade com suas críticas.
    Eu aproveito e pergunto algo que esta me intrigando. Por qual razão a imprensa toda tem tratado o rapaz que atirou em Glauco como “suspeito”, mesmo tendo sido o crime presenciado por toda a família e por outras pessoas e saber-se que foi realmente o rapaz que atirou? É uma prudência dos jornalistas , exigência legal, o que é que esta por trás do uso do termo “suspeito”, já que há até confissão em vídeo do rapaz? Eu tenho dúvidas com relação sobre essa forma da imprensa toda se referir ao rapaz. Há na imprensa dúvidas com relação à autoria dos crimes? Por qual razão a imprensa não pode tratá-lo como assassino de Glauco? Agradeço antecipadamente o esclarecimento.

  8. Comentou em 16/03/2010 José Albino

    Cara Thais Naldoni, muito bom seu texto.
    Concordo na totalidade com suas críticas.
    Eu aproveito e pergunto algo que esta me intrigando. Por qual razão a imprensa toda tem tratado o rapaz que atirou em Glauco como “suspeito”, mesmo tendo sido o crime presenciado por toda a família e por outras pessoas e saber-se que foi realmente o rapaz que atirou? É uma prudência dos jornalistas , exigência legal, o que é que esta por trás do uso do termo “suspeito”, já que há até confissão em vídeo do rapaz? Eu tenho dúvidas com relação sobre essa forma da imprensa toda se referir ao rapaz. Há na imprensa dúvidas com relação à autoria dos crimes? Por qual razão a imprensa não pode tratá-lo como assassino de Glauco? Agradeço antecipadamente o esclarecimento.

  9. Comentou em 23/06/2008 andre aparecido

    gostaria de encontrar o pai da minha esposa que ela nunca conheceu a 20 anos desde que ela nasceu

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