Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MONITOR DA IMPRENSA > THE NEW YORK TIMES

Quando o pessoal interfere no profissional

15/12/2009 na edição 568

Quando jornalistas levam um assunto para o lado pessoal, o resultado de seus artigos costuma ser criticado, observa o ombudsman do New York Times, Clark Hoyt, em sua coluna de domingo [13/12/09]. Dois exemplos recentes no mês passado mostraram isso.

Charles DeLaFuente, editor do NYTimes, perdeu um voo da Jetblue no aeroporto de Newark por conta de uma série de circunstâncias. Após o incidente, ele levou a empresa aérea a uma corte de pequenas reclamações, entrando em um acordo para reembolso parcial de seus gastos. Depois, ele foi um passo além, escrevendo sobre o caso no NYTimes, na seção de reclamações do diário. Já Suzy Buckley, freelancer do diário em Miami, recebeu a pauta de fazer um artigo sobre lugares para ir e o que fazer na cidade da Flórida. Dentre suas recomendações, um cheeseburger e uma cerveja em um bar que é de co-propriedade de seu namorado de longa data.

Foram várias as reclamações sobre ambos os casos. Em relação a DeLaFuente, muitos questionaram se não era abuso de poder usar o jornal para reclamar. Sobre Suzy, foi um leitor quem alertou para o fato da relação da jornalista com Joshua Woodward, co-proprietário do Burger Bar. Isto já teria inclusive sido publicado no jornal, quando Woodward foi preso em Los Angeles suspeito de causar um aborto espontâneo de uma criança que supostamente era dele com uma outra mulher. Depois disso, Suzy terminou o relacionamento com ele, antes de a matéria ser publicada, porém depois de já ter sido escrita e enviada para o diário.

Editores concordam que a reclamação e a menção ao bar não deveriam ter sido publicadas no NYTimes. No último domingo, uma nota dos editores informou que o jornal não sabia da relação de Suzy com Woodward. ‘Se soubéssemos, o restaurante não teria sido citado’, revelaram. Eles concordam, ainda, com novas regras para a seção de reclamações, para que o foco seja em reclamações que atingem a um maior número de pessoas.

O jornalão já tem uma série de regras éticas que têm o objetivo de evitar tais situações. William Schmidt, subchefe de redação, observou que existe uma proibição específica contra usar cartões de visita, artigos de papelaria ou outros materiais do NYTimes para qualquer propósito que não o de trabalho. ‘O artigo de DeLaFuente era como se ele estivesse escrevendo uma carta usando o NYTimes para enviá-la para um milhão e meio de pessoas’, disse.

Jodi Rudoren, subeditora da seção metropolitana na qual as reclamações são publicadas, disse que perguntou a DeLaFuente que horas ele e seus filhos chegaram ao aeroporto. Quando ela soube que foram apenas 30 minutos antes do embarque, ou seja, consideravelmente tarde, ela acrescentou esta informação ao artigo. ‘Deveria ter cancelado a publicação da reclamação’, ponderou. DeLaFuente não viu a situação como abuso de poder. Ele disse que seu caso contra a JetBlue já tinha sido resolvido e por isso ele escreveu sobre o caso, para não mostrar que estava usando o jornal para conseguir algo que queria.

Segundo Jodi, a seção de reclamações foi criada em maio para deixar os nova-iorquinos desabafarem sobre as queixas comuns da vida urbana e suburbana. Para começar, a equipe chegou a enviar algumas contribuições. Na prática, quase ¼ é escrito por jornalistas do NYTimes. Depois do artigo de DeLaFuente e de outro editor, publicado há duas semanas, uma leitora escreveu para dizer que leitores que gostariam de submeter suas reclamações poderiam estar se sentindo intimidados pela presença de tantos membros da equipe do diário na seção. É uma boa razão para deixar de publicar contribuições da própria equipe. Uma outra, apontada pelo ombudsman, é o fato de parecer que os jornalistas estão usando a plataforma para uso pessoal.

Sobre o caso de Suzy, o editor da revista na qual saiu sua matéria, Jeffries Blackerby, explicou que contratou-a pois estava buscando alguém de morava em Miami para dar dicas da cidade. Ele consultou diversos amigos de revistas de viagem e todos indicaram a mesma pessoa. Ao enviar seu artigo, Suzy chegou a mencionar que seu namorado era proprietário do Burger Bar. ‘No entanto, coloquei todos os novos lugares que vendem hambúrgueres na matéria’, explicou ela. Blackerby disse não ter gostado da ideia de divulgar os novos restaurantes e disse para ela citar apenas um deles. Suzy achou que ele não tinha visto problema de conflito de interesse e escolheu o do namorado.

Segundo as regras do NYTimes, Suzy não poderia ter escrito para o jornal, pois repórteres que dão dicas de viagem não podem aceitar gratuitamente viagens, hospedagens ou refeições – o que não foi o caso dela. Blackerby disse não ter perguntado isto para a freelancer, pois ela não estava viajando exclusivamente para fazer a matéria. ‘Não acho que fiz nada de errado’, comentou ela. ‘Em Miami, é inevitável que se conheça as pessoas sobre as quais se escreve. O Burger Bar é super conhecido.’

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