Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Questão maior que a liberdade de imprensa?

Por Carlos Eduardo Pestana Magalhães em 12/07/2005 na edição 337

É bem emblemático o caso da repórter americana condenada nos Estados Unidos por não revelar a fonte que lhe desvendara o nome de uma agente da CIA. Além de mostrar que a frágil democracia americana está cada vez mais frágil, aponta uma outra característica da cultura do país: a necessidade de heróis. A jornalista do The New York Times, Judith Miller, condenada à prisão, é figura conhecida e premiada no meio jornalístico dos EUA.

‘Uma das principais repórteres investigativas do Times, trabalha no jornal desde 1977. Já ganhou o Prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo americano e, mais recentemente, cobriu a Guerra do Iraque. Foi correspondente no Cairo e em Paris, além de ter feito várias coberturas internacionais.

O caso que a levou à cadeia começou em 2003, quando o nome da agente secreta Valerie Plame vazou para a imprensa. A identidade foi revelada por um colunista conservador, Robert Novak. Em seguida, Miller e Cooper começaram a investigar a história para seus veículos de comunicação. Agora, o promotor quer saber quem no governo americano vazou o nome da espiã, um crime pelas leis dos EUA.

O vazamento ocorreu dias depois de o marido de Plame, um ex-diplomata, publicar artigo em que contestava duramente pontos da política externa do presidente George W. Bush. Um dos pontos curiosos é que Judith Miller, apesar de ter investigado a história e entrevistado suas fontes a respeito, jamais publicou uma linha sequer sobre o tema. Sua prisão provocou reações de entidades defensoras da liberdade de imprensa, e ela teve apoio total do jornal em que trabalha.

O outro jornalista envolvido, Matthew Cooper, da revista Time, concordou na última hora em depor e não vai para a cadeia. O jornalista disse que sua fonte – a pessoa que havia fornecido informações para sua reportagem – liberou-o do compromisso de confidencialidade.’ (‘Repórter é presa nos EUA por não abrir fonte, Folha de S. Paulo, caderno Mundo, 7/7/2005)

Com todo esse currículo, com certeza Judith Miller não ficará largada às feras. O jornalão NYT dará amplo apoio legal e financeiro à repórter e, quando sair da prisão, independentemente do tempo que ficar na cadeia, terá muito material para um livro e, quem sabe, pode até virar um filme. Hollywood anda sedenta de argumentos assim, bem ao estilo do ‘herói americano solitário’, se bem que não tão solitário assim.

A atitude de Judith em não revelar a fonte é meritória. Para um jornalismo livre, investigativo e socialmente responsável, é fundamental não revelar a fonte de uma notícia, desde, é claro, que o fato investigado seja verdadeiro, e não uma farsa. Sem isso, ficaria difícil para qualquer repórter conseguir informações valiosas para suas matérias. Qualquer pessoa que tenha informações sobre determinado assunto não teria coragem de divulgar se não houvesse esse compromisso com o jornalista. É um comportamento aceito pela imprensa séria e socialmente responsável, em qualquer lugar do mundo minimamente democrático.

Mediocridade menor

Cabe aos veículos de informação divulgar informações, e não julgar. Para isso existe a Justiça. Se a informação divulgada for considerada confidencial, de segurança nacional, o problema não está em quem divulgou, veículos de imprensa ou repórteres, mas sim no vazamento da notícia. Se ela vazou e não podia então há problemas na esfera governamental responsável pelo controle das informações consideradas confidenciais.

Querer responsabilizar e punir a mídia é uma atitude antidemocrática, autoritária e de desespero por não se conseguir administrar segredos oficiais, não importa quais. E, como é complicado reconhecer que houve falha, é mais ‘fácil’ responsabilizar a imprensa e punir jornalistas. Só uma democracia frágil age assim, mesmo que usando artifícios legais como um tribunal. Coisas assim tiram a legitimidade da Justiça, mesmo que sob uma aparência legal.

Ainda mais quando se sabe que toda essa história tem um fundo político e de disputa dentro do governo Bush. O vazamento do nome da agente da CIA só aconteceu depois que seu marido, um ex-diplomata, posicionou-se publicamente contra a política externa americana. Foi uma espécie de retaliação? Faz parte do comportamento bushiano, de que quem está contra a sua administração é inimigo? Ou se é mocinho ou bandido, não tem meio termo, segundo a ótica da Casa Branca.

Com os atentados em Londres, onde mais de 50 pessoas morreram, esse maniqueísmo barato só se fortalece, assim como a hipocrisia dos líderes mundiais que fazem coro a Bush e ao seu fiel escudeiro Blair, condenando os atentados. Se ao menos tivessem a mesma vontade e ênfase ao condenarem o genocídio que americanos e ingleses fizeram e ainda fazem no Afeganistão, no Iraque e em outras partes do mundo, além dos constantes desrespeitos aos direitos humanos nas prisões espalhadas pelo mundo – já denunciaram a existência de navios-presídio americanos com detentos muçulmanos em águas internacionais, para ficarem fora do alcance das leis internacionais de proteção ao prisioneiro –, a mediocridade seria um pouco menor e, quem sabe, mais aceitável.

A lenda e os fatos

Não se condena com a mesma rapidez e peso o que acontece nas capitais dos países mais ricos e o que acontece no resto do mundo. Por que 50 ingleses mortos no atentado valem mais que os milhares de mortos diariamente no Oriente Médio, na África, na Ásia, na América Latina? De maneira geral, a imprensa americana, inglesa, francesa etc., que ainda pautam o resto da mídia mundo afora, também faz essa distinção. São poucos os veículos que ainda têm alguma independência para mostrar os reais motivos do cenário político mundial e apontar as responsabilidade pelos ‘terrorismos’ que ronda o planeta. Não há só um terrorismo.

A imprensa americana ainda está sem credibilidade. Só agora, depois das inúmeras denúncias mundo afora e também no país, que alguns veículos resolveram tomar alguma atitude para mudar um pouco o comportamento vil e covarde que tiveram desde o 11 de Setembro. De lá para cá, de maneira geral, a grande imprensa americana agiu mais como uma agência de propaganda do que como divulgadora de informações. Aceitou calada a censura do governo federal sob a justificativa do combate ao terrorismo e da proteção à democracia nos EUA. Concordou com os argumentos ‘patriotas’ de Bush de defender a nação e de vingar o 11 de Setembro, não investigando com rigor as denúncias de existência de armas de destruição em massa no Iraque e as ligações de Saddam Hussein com a al- Qaeda de bin Laden. Tudo se mostrou falso, era só investigar jornalisticamente as informações. No entanto, a imprensa americana se acovardou e perdeu credibilidade ao apoiar, quase sem restrições, as posições políticas e as decisões de Bush quanto às invasões do Afeganistão e do Iraque.

Judith Miller e a sua prisão podem representar uma espécie de redenção de parte da imprensa. Sua prisão injusta poderá ser usada, conscientemente ou não, para revigorar o papel da imprensa escrita nos EUA. Ela poderá se tornar a mais nova heroína do país em função da sua recusa em delatar a fonte da informação. Talvez um símbolo de que a mídia americana esteja precisando para sair do buraco em que se meteu. Sacrificou-se, sendo condenada à prisão, em nome da liberdade de imprensa. E se isso realmente acontecer, em vez de representar um avanço para a imprensa livre, mostrará que a mídia americana precisa desesperadamente de heróis. E assim, mais uma vez, a lenda prevalecerá sobre os fatos.

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