Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > CORRESPONDENTES DE GUERRA

Quixotes do nosso tempo

Por Maria Carolina Nomura, de Havana em 02/11/2004 na edição 301

Em conferência do 4º Encontro Mundial de Correspondentes de Guerra, o jornalista espanhol Fran Sevilla, correspondente em conflitos como a da Bósnia, na antiga Iugoslávia, do Afeganistão e das duas guerra do Iraque, defendeu o compromisso social dos jornalistas com as vítimas e atacou o ‘espetáculo’ feito pelas grandes cadeias de mídia com o teatro de operações.

Sevilla divide a cobertura dos conflitos bélicos em três categorias: as guerras esquecidas, as de baixa densidade e as guerras ‘midiáticas’, estas últimas com grande difusão de imagens-espetáculo e pouca visibilidade das conseqüências reais da guerra na população civil.

A tendência da guerra-espetáculo acompanha alguns fatores que devem ser repensados pelos meios de comunicação e seus profissionais, defende. O primeiro é a distorção da realidade, uma vez que o objetivo agora não é mais informar, mas sim criar o espetáculo que mais atraia audiência.

A verdade das vítimas

‘Por exemplo, a queda da estátua de Saddam Hussein: foi tudo uma grande montagem’, afirma. ‘O câmera fechou o foco da imagem num bando de iraquianos que estava ao redor da estátua, mas se o foco fosse aberto ver-se-ia perfeitamente que era muito pouca gente, pois 1.000 pessoas num país de 14 milhões é ridículo’. Sevilla conta que essa imagem foi veiculada no horário de maior audiência nos Estados Unidos.

O segundo fator é o ‘seguidismo da TV global’. Segundo o jornalista, é cada vez mais difícil contrastar as imagens que vêm dos Estados Unidos. Ele relata que estava em Cabul quando as televisões do mundo todo mostravam imagens de mulheres tirando a burca e homens se barbeando. Ele escreveu para o jornal dizendo o que realmente estava acontecendo, que isso era mentira porque ainda existia muito medo. Mas os editores sequer leram o que ele havia escrito e titularam sua reportagem ‘Cabul: a queda do véu’.

Fran Sevilla destaca também o desconhecimento e o despreparo dos jornalistas que vão cobrir um conflito. Afirma que geralmente são jovens em busca de aventura e fama. Pouco lhes importa as conseqüências da guerra para aquela gente. O que lhes interessa é a grande imagem ou a grande história que lhes poderá render um Pulitzer. No entanto, não estão comprometidos com a verdade das vítimas, em apurar o que realmente aconteceu, quando, onde e por quê.

Juntando as peças

‘Muitas vezes esses jornalistas tampouco podem dizer muita coisa, porque simplesmente desconhecem a história do país, sua geografia e sua geopolítica’, alerta. ‘Ainda não entenderam que a grande arma da nossa profissão é o saber, é ter uma bagagem de conhecimento suficiente que lhes permitam ter um senso crítico apurado’. O espanhol afirma que os jornalistas têm que estar comprometidos com o saber e com a verdade das vítimas. Entender do que se fala, ser objetivo e procurar ver o mundo sob os mais diversos pontos de vista. Sevilla desabafa:

– A guerra não tem nada de épico. Eu sinto o cheiro da morte toda vez que me lembro dos cadáveres em decomposição nos campos de refugiados, nas prisões, nos rios e selvas que cruzei. Tenho a imagem guardada dos meninos queimados, das mulheres estupradas com seus rostos destroçados pela guerra. E me pergunto: por que eles?

Fran Sevilla expressou seu pesar pelos jornalistas que ficaram no caminho e disse que mesmo assim devemos prosseguir, Quixotes do nosso tempo, com os valores e compromissos previamente assumidos para não deixar que crimes fiquem impunes e que a sociedade logo se esqueça do que se passa do outro lado do mundo. ‘Devemos seguir, juntando as peças do grande quebra-cabeça da vida e denunciar’, conclamou.

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Jornalista

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