Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MONITOR DA IMPRENSA > IMPRENSA NOS EUA

Ranking aponta distorções em cobertura

16/11/2004 na edição 303

Em julho deste ano, o jornalista da Newsweek Evan Thomas fez uma previsão certeira: ‘A mídia, eu acredito, quer que Kerry vença. E eu acho que ela vai mostrar Kerry e Edwards como jovens, dinâmicos e otimistas.’ Thomas só mostrou-se errado em um ponto: primeiro, afirmou que o ‘apoio’ da imprensa poderia dar aos candidatos democratas pelo menos 15 pontos percentuais de vantagem. Três meses depois, com a eleição mais próxima, disse que estava errado em sua previsão, e especulou que a inclinação da mídia valeria cerca de cinco pontos para Kerry e Edwards. Errou nos dois chutes, mas estava certo quanto ao comportamento adotado por parte da grande imprensa nos meses anteriores à eleição.

Pesquisa feita pelo Pew Reseach Center em maio com 247 jornalistas que trabalham em veículos de alcance nacional nos EUA chegou a um resultado que hoje não surpreende. Dos entrevistados na ocasião, apenas 7% se declararam ‘conservadores’ (índice bastante baixo comparado ao da população total, que chega a 33%). A maioria dos jornalistas (54%) afirmou que se considera ‘moderado’, e um em cada três profissionais (34%) disse ser ‘liberal’, número significativamente maior do que o do resto da população, que é de 23%.

O problema é que a ideologia política dos jornalistas, pela pesquisa do Pew, parece realmente influenciar na maneira como eles conduzem sua profissão. Em maio, apenas 8% dos jornalistas entrevistados acreditavam que a mídia estava sendo ‘muito crítica’ ao presidente Bush, enquanto para 55% ela não era ‘crítica o bastante’.

Mesmo antes do resultado das eleições, em 2/11, o Media Research Center (MRC), organização conservadora de monitoramento da mídia americana, publicou um ranking das ‘dez piores distorções da mídia na campanha de 2004’. Segundo a organização, a campanha presidencial deste ano será lembrada como a que teve o maior partidarismo e parcialidade na cobertura feita pela imprensa. Segue o ranking.

Em primeiro lugar, o fiasco da fraude de Dan Rather

Em setembro, Dan Rather, âncora do noticiário Evening News, da rede CBS, afirmou ter obtido documentos que mostravam que George Bush havia recebido tratamento diferenciado quando serviu na Guarda Nacional, na década de 1970. Na mesma noite, o programa 60 Minutes deu destaque ao caso. O suposto furo virou matéria de todos os grandes veículos de comunicação dos EUA.

Dois dias depois, entretanto, a autenticidade dos tais papéis – que teriam sido escritos pelo então chefe de Bush, o tenente-coronel Jerry Killian – começou a ser questionada. A viúva de Killian afirmou à ABC Radio que seu marido não costumava datilografar e guardar registros antigos; seu filho afirmou à Associated Press que duvidava que o pai fosse o autor dos documentos. Em resposta, Rather fez um pronunciamento onde repetiu as acusações a Bush, ignorou grande parte dos questionamentos (inclusive os feitos pela família de Killian) e afirmou que os críticos da CBS não eram confiáveis.

Nas semana seguinte, o âncora e a emissora continuavam a tentar apontar os verdadeiros culpados pela confusão. Apenas 12 dias depois da primeira reportagem sobre o assunto Rather revelou que a CBS havia conseguido os documentos de um ex-membro da Guarda Nacional que tinha uma longa história de rancor com Bush. Ainda assim, Rather não chegou a admitir a fraude; afirmou apenas que a emissora não podia garantir a veracidade dos papéis. ‘Se eu acho que eles são forjados? Não’, respondeu o âncora em entrevista ao Chicago Tribune.

Em segundo, o ataque ao Swift Boat Veterans for Truth

Segundo o MRC, a imprensa nacional tratou John Kerry, desde o início da campanha, como um herói condecorado da guerra do Vietnã. Mas, além de entrevistar um pequeno grupo de veteranos partidários do democrata, os jornalistas não fizeram uma ampla apuração para confirmar ou questionar as histórias de heroísmo do senador durante o conflito.

Em maio deste ano, porém, um grupo formado por mais de 250 veteranos do conflito lançou um desafio à versão de Kerry para sua atuação heróica. Em uma coletiva de imprensa, os Swift Boat Veterans for Truth afirmaram que o candidato democrata havia exagerado em sua ficha militar e traído seus companheiros quando posteriormente se opôs à guerra.

Se o grupo – ou Kerry – mentiu não vem ao caso. A imprensa americana continuou a ‘apoiar’ o candidato, ignorando, na medida do possível, as acusações feitas pelos veteranos. Os noticiários das redes ABC e NBC nem ao menos reportaram sua coletiva de imprensa; o da CBS questionou sua integridade.

A NBC ignorou o grupo até agosto, quando o Swift Boat arrecadou US$ 150 mil e veiculou um anúncio na televisão. Pouco tempo depois, a emissora apresentou uma reportagem onde sugeria que o comercial era ‘produto do trabalho grosseiro de forças anti-Kerry’. O World News Tonight, da ABC, só tocou no assunto quando o próprio Kerry fez um discurso onde atacava a credibilidade de seus ex-colegas. O discurso do democrata, em 19/8, marca o ponto em que a imprensa passou a dar ampla cobertura à história – porém, em vez de investigar o passado de Kerry, preferiu revolver o dos veteranos.

Em terceiro, a insistência no caso de Bush na Guarda Nacional

O esforço da imprensa em ignorar ou atacar os veteranos da guerra do Vietnã que criticaram Kerry, segundo o MRC, foi exatamente o contrário do que aconteceu quando defensores dos democratas, como Terry McAuliffe e Michael Moore, questionaram a veracidade da informação de que Bush teria prestado serviço na Guarda Nacional do Texas. ‘Repórteres imediatamente adotaram a questão como se fosse sua e chamavam de insatisfatória toda resposta dada pela Casa Branca’. Em apenas 15 dias, no começo do ano, as redes ABC, CBS e NBC levaram ao ar 63 matérias sobre a história de Bush na Guarda Nacional.

Em quarto, a transformação da boa economia em má notícia

Quando Bill Clinton concorreu à reeleição em 1996, o desemprego nos EUA chegava a 5,2%, o índice de inflação a 3%, e a previsão de crescimento econômico era de 2,2%. Segundo o MRC, as condições hoje são semelhantes, se não melhores: desemprego a 5,4%, inflação a 2,7%, e, pelo consenso dos economistas, o crescimento do período deverá chegar a 3,7%. Mas as emissoras de TV americanas insistiram, durante a campanha presidencial, em não destacar os relatórios econômicos positivos e abordar qualquer estatística que mostrasse indício de enfraquecimento da economia.

No início de abril, quando foi anunciado que 300 mil empregos haviam sido criados no mês anterior, o âncora do Nightly News, Brian William, da rede NBC, disse que ‘os números estavam muito bons para ser verdade’. No World News Tonight, da ABC, o âncora Dan Harris apresentou uma matéria sobre ‘como aqueles que estavam encontrando empregos não estavam conseguindo o que realmente queriam’. Segundo a repórter responsável pela história, ‘cerca de 16% dos taxistas americanos que circulam nas ruas hoje fizeram faculdade’.

Em quinto, os ‘dois pesos, duas medidas’ para as Convenções dos partidos

O MRC acusa a grande imprensa de tratar de forma diferente as convenções dos partidos Republicano e Democrata. ‘Em Boston, os jornalistas das emissoras trataram os democratas como celebridades, mas na convenção republicana em Nova York estes mesmo jornalistas guiaram a oposição’. Pouco antes do começo da Convenção Republicana, Tom Brokaw, da NBC, avisou a seus telespectadores que eles não deveriam acreditar que os republicanos tomam posições moderadas só porque políticos moderados como John McCain estariam no palco. Na noite seguinte, Dan Rather começou o CBS Evening News dizendo que, ‘dentro de uma fortaleza segura’ aconteceria a Convenção Republicana para renomear George Bush e ‘exibir o lado moderado do partido. Será que os eleitores irão engolir?’, perguntou. Na CNN, Judy Woodruff levantou a mesma questão.

Tudo muito diferente da cobertura vista cinco semanas antes, na Convenção Democrata em Boston. Segundo o MRC, ‘a CNN e o resto da mídia liberal estavam entusiasmados com o evento’. Na ABC, Charles Gibson, do Good Morning America, celebrava a ‘energia dos democratas’; na CBS, Hannah Storm deu bom dia aos telespectadores do Early Show para logo depois informá-los que a primeira noite da convenção havia sido ‘absolutamente elétrica’; e, depois do discurso do então candidato a senador Barack Obama, Chris Matthews, da MSNBC, declarou que havia acabado de ver ‘o primeiro presidente negro’ do país. Enquanto isso, John Roberts, na CBS, destacava o ‘carisma’ do candidato a vice, John Edwards, e Dan Rather, na mesma emissora, dizia que parecia haver um verdadeiro trovão que sacudia o Fleet Center, local da convenção.

Em sexto, o foco na boa imagem de Edwards

Quando Dick Cheney foi escolhido candidato republicano à vice-presidência, há quatro anos, a imprensa do país destacou repetidamente seu conservadorismo exacerbado. Já a escolha de John Edwards como vice dos democratas, este ano, foi celebrada pela mídia. O liberalismo exacerbado de Edwards (ele é considerado o 4° senador mais liberal do país), entretanto, parece ter sido ignorado. A grande imprensa – liderada pela CBS – concentrou suas análises na boa imagem de Edwards. Pouco experiente, sim, mas dono de talento político e estilo próprio, afirmaram os âncoras e analistas dos telejornais. O senador foi mostrado como a esperança para a vitória de Kerry. ‘Os democratas concretizaram o que muitos vêem como seu time dos sonhos’, apontou o repórter Byron Pitts depois do anúncio da escolha do candidato, na CBS.

Em sétimo, a cobertura tendenciosa de Byron Pitts

Ainda Byron Pitts: segundo o MRC, o repórter da CBS se esmerou em fazer uma cobertura positiva da campanha do candidato democrata. Sempre que tinha chance, Pitts emplacava uma história pró-Kerry no Evening News ou no Early Show. Em junho, por exemplo, narrou um perfil da mulher do senador, Tereza Heinz Kerry, em tom elogioso. Definiu-a como uma mulher ‘rica, mas ao mesmo tempo acessível’ e ressaltou que ela até ‘cozinhava brownies’ para os membros da campanha do marido, enquanto ‘seus amigos próximos a chamavam de ‘Mamãe T’’, por cuidar de todos.

Um mês depois, ao ser feito o anúncio da escolha de Edwards para vice, o repórter constatou: ‘Quando você fala com os democratas… de longe o nome que mais ouve é o de John Edwards. Ele tem 51 anos e em 2000 foi eleito pela revista People como o político mais sexy dos EUA’.

E, em agosto, ao traçar um perfil de Kerry, Pitts produziu uma matéria de mais de três minutos que, para o MRC, poderia facilmente passar por um anúncio comercial financiado pelo partido democrata. Em um ponto da narração, Pitts dizia, dramaticamente: ‘O discurso de aceitação da nomeação democrata, hoje à noite, é mais do que simplesmente um dia comum, é seu destino’.

Em oitavo, a reportagem ameaçadora da CBS sobre alistamento militar

Em 28/9, o Evening News, da CBS, apresentou uma reportagem com uma mãe de família, eleitora de Bush, que estava com medo de que o presidente impusesse um novo alistamento militar aos jovens do país. O repórter Richard Schlesinger afirmava que Beverly Cocco, assim como muitas outras mães, estava aterrorizada com a possibilidade de ver seus filhos mandados ao Iraque. ‘Você votaria em um democrata?’, perguntou a ela o repórter. ‘É claro que sim’, respondeu Beverly. ‘Eu votaria em qualquer pessoa que deixasse meus meninos ficarem seguros em casa’. Horas depois da matéria ter ido ao ar, blogueiros começaram revelar que a mulher apresentada como uma simples ‘mãe de família’ é também uma ativista política – Beverly é a responsável pelo grupo Pessoas Contra o Alistamento na região da Filadélfia. Desta forma, a reportagem da CBS alarmou os telespectadores e escondeu o ativismo de sua principal personagem.

Em nono, a deturpação do relatório de investigação do 11 de setembro

No dia em que o relatório da Comissão independente de investigação dos atentados de 11 de setembro foi divulgado, em junho, as emissoras americanas destacaram e basearam sua cobertura em uma única frase do documento: ‘Nós não temos evidências de que o Iraque e a al-Qaeda cooperaram nos ataques contra os EUA.’

O MRC acusa as redes de TV de distorcerem a frase e ignorarem outros aspectos expostos no relatório, segundo os quais existiam contatos entre o Iraque e a al-Qaeda – mesmo que não explicitamente nos atentados terroristas de 2001. Apoiadas na frase em questão, ABC, NBC e CBS foram categóricas em afirmar em seus telejornais que ‘não há nenhuma conexão entre a al-Qaeda e Saddam Hussein’.

E, finalmente, em décimo lugar, a ‘paranóia’ de Keith Olbermann

Quando o secretário de Segurança Nacional, Tom Ridge, elevou o nível do alerta contra o terror nos EUA, poucos dias depois da Convenção do Partido Democrata, Keith Olbermann, que apresenta o programa Countdown na MSNBC, afirmou que a campanha de Bush pela reeleição baseava-se em amedrontar a população, para assim controlá-la. ‘A História nos mostra que presidentes exageraram ameaças de segurança pública para ganhar vantagem política ou justificar necessidades estratégicas complexas. Pergunte a Lyndon Johnson. Pergunte a William McKinley. Precisamos perguntar a George Bush?’, disse ele no ar. Olbermann também comparou os alertas de terror do atual governo com o Macarthismo na década de 1950. Por tanto, foi chamado pelo MRC de paranóico e acusado de bolar uma espécie de teoria da conspiração anti-Bush. As informações são de Brent H. Baker, Rich Noyes e Tim Graham [Media Research Center, 28/10/04].

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