Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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ENTRE ASPAS >

Repórter pediu para ser morta com arma

16/08/2006 na edição 394

Muitos leitores esperaram ansiosos pelos detalhes do seqüestro da jornalista americana Jill Carroll, que ficou 82 dias em cativeiro no Iraque – de janeiro a março deste ano. Desde que voltou aos EUA, a repórter manteve uma postura discreta. Esta semana, no entanto, o silêncio foi quebrado. O Christian Science Monitor, jornal para o qual era trabalhava como freelancer quando foi raptada e onde trabalha atualmente como editora em Boston, começou a publicar uma série de 11 capítulos onde Jill conta em primeira pessoa como foram os momentos de tensão que viveu durante sua captura e cativeiro. No sítio do jornal, são disponibilizados também entrevistas em vídeo com Jill, fotos e todas as matérias publicadas no diário relacionadas ao assunto. O jornalista Peter Grier lhe ajudou a escrever a série.


Não quero a faca


Depois de seis semanas em cativeiro, quando ia gravar um segundo vídeo, Jill estava certa de que seria assassinada por seqüestradores que mataram seu tradutor Alan Enwiya. ‘Nós precisamos fazer um novo vídeo. No último, você estava em boas condições, o que fez com que o governo agisse devagar’, disse Abu Nour, o mais velho dos seqüestradores. ‘O governo britânico agiu rápido depois que a refém Margaret Hassan foi mostrada em más condições’.


Jill lembrou que Margaret foi raptada em Bagdá em 2004 e depois havia sido assassinada por seus seqüestradores. ‘Eu fiquei horrorizada. Se eu tinha de ser morta, eu queria que fosse rápido. Então implorei para [o seqüestrador] Abu Hassan’, relatou. Jill pediu para que ele a matasse com uma arma de fogo e não com uma faca. ‘Prometa que você usará esta arma para me matar. Eu não quero aquela faca, não quero a faca, usem a arma’, disse na época aos prantos para o iraquiano que tinha à mostra uma pistola 9 mm. Hassan respondeu que não ia matá-la e ficou sem reação à atitude da repórter.


Cilada


A correspondente foi seqüestrada quando estava indo encontrar o político sunita Adnan al-Dulaimi para entrevistá-lo. O motorista do Monitor, Adnan Abbas, levou Jill e seu tradutor para o local do encontro com o político e eles chegaram 20 minutos mais cedo da hora marcada. Eles esperaram em uma sala reservada e, um pouco depois da hora marcada, um homem avisou que Dulaimi não poderia atendê-los naquele momento – pois estava em uma coletiva – e perguntou-lhes se eles poderiam voltar ao meio-dia. Neste momento, Jill questionou-se por que não havia sido avisada da coletiva de imprensa. Os dois concordaram e saíram, para encontrar Adnan. Quando eles estavam indo embora, um caminhão parou em frente a eles, bloqueando a estrada. Então homens armados se aproximaram do carro. Jill presenciou o assassinato de Alan.


Perda lastimável


Jill ainda está devastada com a morte de seu tradutor. ‘Alan foi vital para o meu processo de apuração. Nós fomos uma equipe por quase dois anos. Também éramos amigos e trabalhávamos em condições perigosas e difíceis’, afirma Jill sobre seu tradutor. ‘Alan me contou histórias engraçadas sobre seus filhos e eu costumava brincar que era espiã da sua esposa Fairuz, e contaria a ela se eu o pegasse olhando para uma mulher bonita’, relembra ela com carinho. ‘Nós tomamos cuidados básicos de segurança. Eu estava vestida com um véu preto que escondia meus cabelos e minhas roupas ocidentais’, contou.


Alan Enwiya é um dos quase 100 jornalistas e assistentes de mídia assassinados no Iraque desde março de 2003. Ele deixou mulher e dois filhos. O Monitor, a pedido dos leitores, criou um fundo para ajudar a família de Alan a fim de permitir a eles iniciarem uma nova vida nos EUA, onde têm parentes.


Momentos de tensão


‘Nos primeiros minutos depois do seqüestro, os homens me encheram de perguntas em árabe. Eu fingi não entender, com medo que eles pensassem que eu sabia muito e me matassem’, confessou ela. No cativeiro, os iraquianos deram a Jill um novo hijab (véu), um novo nome (Aisha) e tentaram convertê-la ao islamismo. Em alguns momentos, a repórter – que fala árabe –, foi interrogada; em outros, pôde assistir ao programa da apresentadora americana Oprah na TV. Ela também pôde brincar com os filhos dos seqüestradores.


Jill afirmou que foi bem tratada em alguns momentos. ‘Você vai ficar nesta sala. Não coloque a mão nesta janela. Temos um lugar no subsolo muito pequeno, escuro e frio. Se você colocar a mão nesta janela, vamos colocá-la lá. Alguns dos nossos amigos acham que deveríamos fazer isto, mas eu falei ‘Não, ela é uma mulher’. Mulheres são muito importantes no Islã’, disse um dos seqüestradores.


Segundo Jill, os seus raptores lhe informaram que não tinham nenhum problema com ela, ‘mas com seu governo’. ‘Nós só queremos te manter em cativeiro por algum tempo. Queremos que nossas mulheres sejam libertadas da prisão de Abu Ghraib. Talvez quatro ou cinco mulheres. Queremos pedir ao seu governo isto’, falou um intérprete dos seqüestradores. Na época, foi divulgado que 10 iraquianas estavam dentre as 14 mil pessoas presas por forças da coalizão, suspeitas de atividades insurgentes.


Quando Jill voltou aos EUA, ela havia revelado que tinha sido ameaçada diversas vezes por seus seqüestradores. Antes de ser solta, a jornalista foi forçada a gravar um vídeo no qual denunciava a presença dos EUA no Iraque e elogiava os soldados iraquianos que combatiam as forças americanas no país. Posteriormente, Jill negou os comentários feitos e disse ter sido forçada a gravá-los.


Na semana passada, o Exército Americano informou que prendeu quarto iraquianos suspeitos de estarem envolvidos no seqüestro de Jill.


A série é dividida em Introdução; Parte 1 – O seqüestro; Parte 2 – Um espião com um sistema de rádio; Parte 3 – O primeiro vídeo; Parte 4 – Uma mãe como mulher-bomba; Parte 5 – Filmes de ‘Combatentes da Guerra Santa’; Parte 6 – Recitando versos do Alcorão; Parte 7 – Falsas esperanças; Parte 8 – Um novo inimigo; Parte 9 – Os ‘combantes da Guerra Santa’; Parte 10 – Liberdade; Epílogo. Informações de Svea Herbst-Bayliss [Reuters, 13/8/06] e de Jill Carroll e Peter Grier [Christian Science Monitor, 14 e 15/8/06].

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