Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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MONITOR DA IMPRENSA >

Rio de águas turvas no caminho da direita francesa

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 17/05/2006 na edição 381

A venda de fragatas francesas a Taiwan, em 1991, está na origem de um escândalo político-financeiro que abala a política francesa e ameaça seriamente o mandato do presidente Jacques Chirac e o governo de seu primeiro-ministro Dominique de Villepin.


O caso tem um nome sonoro: Clearstream. Em inglês, significa exatamente o que ele não é, riacho de águas claras. Nada mais opaco que esse caso Clearstream, nome de uma sociedade bancária de Luxemburgo, um paraíso fiscal onde a lavagem de dinheiro de procedência duvidosa é coisa conhecida, mas feita com toda discrição.


Acontece que o affaire Clearstream está em todos os jornais franceses. O caso é tão complexo que a maioria dos cidadãos não tem capacidade nem interesse de entendê-lo. A leitura das grandes reportagens sobre o affaire, que a imprensa dá em primeira página há vários dias, interessa sobretudo a leitores mais atilados, capazes de compreender o jogo de interesses representados pelos diversos personagens do caso. Interessa, e muito, aos políticos de esquerda, que vêem no caso a prova da luta fratricida que a direita está vivendo e que só pode ser bem-vinda num cenário de definições de candidaturas à eleição presidencial de 2007.


A investigação judiciária para apurar a venda de fragatas e as supostas comissões que alguns personagens teriam recebido foi aberta em 2001. Desde maio de 2004, no entanto, os juízes que trabalhavam nesse inquérito foram levados a apurar falsas pistas sobre supostas contas de políticos abertas na sociedade Clearstream.


Emaranhado de histórias


A um ano da eleição, o affaire Clearstream aparece hoje como um subproduto da luta fratricida de personagens da direita francesa, que se odeiam mas convivem no mesmo governo: de um lado Chirac e seu primeiro-ministro, que o presidente gostaria de ver indicado como candidato de seu partido; do outro, Nicolas Sarkozy e seus correligionários.


Sarkozy é o mais forte candidato a candidato do partido majoritário UMP (Union pour un Mouvement Populaire), criado em 2002 para sustentar a candidatura de Chirac. Esses dois campos do mesmo partido cultivam uma rivalidade e um ódio mortal, apenas contido pela necessidade de convivência dentro do mesmo governo. O ministro do interior Sarkozy é uma espinha na garganta da dupla Chirac-Villepin.


Enquanto coabitam forçados por interesses político-eleitorais, o escândalo cresce com vazamentos para a imprensa de detalhes da investigação, que se defronta muitas vezes com o muro intransponível do ‘segredo de defesa’ – isto é, informações altamente secretas por envolverem venda de armamentos. Uma trama para um bom romance policial de John Le Carré.


Em maio de 2004, uma carta anônima assinada por um autodenominado ‘Corvo’ e enviada aos juízes encarregados do caso da venda das fragatas, denunciava personalidades do mundo político como detentoras de contas na sociedade Clearstream. Desfazendo a trama urdida pela denúncia anônima, a direção do banco informou aos juízes que nenhuma conta pode ser aberta por pessoa física. A carta anônima e a lista falsa de detentores de contas eram uma manipulação evidente. Mas quem era o ‘Corvo’ e a quem interessaria a denúncia que envolvia o nome de Nicolas Sarkozy, entre outros?


Esse emaranhado de histórias, investigação, manipulação, acusações e explicações mais ou menos críveis mobiliza a imprensa e a opinião pública francesa há algumas semanas. Nos últimos dias, o caso não saiu das primeiras páginas dos principais jornais. Poucas notícias tiveram peso para disputar com o affaire Clearstream a manchete principal.


Construção maquiavélica


Domingo, 14 de maio, o Journal du Dimanche (Le Monde, Libération e Le Figaro não circulam domingo) deu uma entrevista de capa com o principal personagem do caso: o general Philippe Rondot, do serviço secreto francês, cujas notas de reuniões com Villepin foram publicadas dias antes pelo Le Monde com exclusividade. Nessa entrevista ao JDD, ele dá uma versão que contradiz, segundo o Le Monde, suas notas de 2004 e 2005, que apesar de serem apenas frases esboçadas com iniciais dos principais personagens (PR para presidente da República, DDV para Dominique de Villepin etc.) serviram ao jornal como provas das reuniões e do teor das discussões. O Le Monde reconstituiu com fontes anônimas as reuniões que Rondot teria tido com DDV quando este teria pedido, em nome do PR, para o general esclarecer o envolvimento de NS (Nicolas Sarkozy).


Na entrevista ao Journal du Dimanche, o general desmente a interpretação do Le Monde: dá uma versão de sua reunião com o primeiro-ministro que inocenta Chirac e Villepin de uma suposta trama urdida para desmoralizar Sarkozy e afastá-lo da corrida presidencial. Disse que Villepin agiu de ‘boa fé’ ao pedir que investigasse o affaire. Rondot não acredita mais no bom andamento do processo depois dos ‘vazamentos, das manipulações e das informações truncadas’ que viu na imprensa nos últimos dias. E garantiu que não vai depor na Justiça. Se for levado a força, disse que não prestará depoimento.


Num encontro com diretores dos principais jornais, Dominique de Villepin fez um discurso moralizante sobre a responsabilidade da imprensa e a necessidade de deixar a Justiça trabalhar até que se apure toda a verdade.


Obviamente o sermão de Villepin não agradou aos jornalistas, que continuam a noticiar o caso como uma manipulação vinda não se sabe de onde, mas que teria sido usada pela dupla Chirac-Villepin para tentar desmoralizar o ministro do Interior, que aproveita para se mostrar como vítima de uma construção maquiavélica. Os políticos que governam a França nunca pareceram tanto com os das chamadas ‘repúblicas de banana’.


Uma crise atrás da outra


O general Rondot, ex-conselheiro especial do Ministério da Defesa, minimiza o interesse de suas notas publicadas pelo Le Monde: ‘São apenas anotações para memorizar as discussões, a imprensa resolveu publicar algumas com fins duvidosos para tentar envolver o presidente da República, Dominique de Villepin e a ministra da Defesa, Michèle Alliot-Marie’, disse.


Sustentando que Dominique de Villepin ‘agiu de boa fé’ quando lhe pediu para investigar paralelamente à Justiça a carta anônima e a lista de nomes de detentores de contas, Rondot tenta ir contra a corrente da maior parte da imprensa, que apresenta Villepin como um personagem calculista, que quis apurar sigilosamente a denúncia na esperança de ter uma história de corrupção para afastar definitivamente Sarkozy da corrida presidencial. Não conseguiu nenhuma prova contra Sarkozy e fabricou antipatia nos principais jornais e na opinião pública. Sua cota de popularidade é a mais baixa que um primeiro-ministro já teve.


Tendo sido comprovada num primeiro momento a montagem do esquema de denúncia de contas secretas – ainda que o responsável ainda não tenha sido identificado –, por vários dias a imprensa deu como certa a saída de Villepin. Muitos jornais chegaram a citar nomes para substituí-lo, mas Chirac cortou os boatos pela raiz declarando que o primeiro-ministro gozava de sua total confiança. Mas não do Partido Socialista, que apresentou ao Parlamento uma moção de censura ao governo do primeiro-ministro, votada na terça-feira (16/5).


A moção foi recusada. Seriam necessários 289 votos para derrubar o governo do primeiro-ministro Villepin. A esquerda e mais uma dissidência de centro conseguiram somar apenas 190.


Uma pesquisa CSA para France-Europe Express e France Info, divulgada também na terça-feira, mostrou que 47% dos franceses desejam a permanência de Villepin à frente do governo. Apenas 37% gostariam de vê-lo partir.


No Partido Socialista, há quem defenda a refundação do regime com menos poderes para o presidente da República. Outros, como o prefeito de Paris Bertrand Delanoë, gostariam que os deputados ratificassem a indicação do primeiro-ministro, tornando-o mais legítimo, uma vez que aprovado pelo Parlamento.


O fim de mandato de Chirac vai se arrastar ainda por longos 12 meses se o affaire Clearstream não azedar de vez e a eleição não for antecipada, como muito políticos sugerem. Administrando uma crise atrás da outra, o presidente Chirac está no ponto mais baixo de sua popularidade e parece envelhecido e cansado.


***


P.S. (24/5/2006, às 20h19) – O corvo estava por perto. O personagem que enviou cartas anônimas ao juiz encarregado da investigação sobre a venda de fragatas a Taiwan era Jean-Louis Gergorin, que revelou o segredo no fim da semana passada em várias entrevistas. Primeiramente, ele falou ao Le Parisien, depois ao Libération e ao Le Figaro. O problema é que a versão de Gergorin, ex-vice-presidente do gigante dos armamentos EADS, afastado do cargo depois da publicação das entrevistas, coloca em maus lençóis o primeiro-ministro Dominique de Villepin.


Segundo o executivo, o nome de Nicolas Sarkozy teria sido mencionado numa reunião com o primeiro-ministro, que sempre negou essa hipótese. Com as revelações de Gergorin, Villepin fica mais fragilizado diante de seu rival na disputa pela indicação como candidato do partido do presidente Chirac.

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