Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

ENTRE ASPAS > MÉXICO

Sobrevivência e morte nas redes sociais

27/09/2011 na edição 661
Tradução e edição: Leticia Nunes

Homens armados pararam o trânsito e despejaram 35 corpos, em plena hora do rush, em uma passagem próxima a um centro de compras muito frequentado por turistas na violenta cidade mexicana de Veracruz, na semana passada. Antes da chegada da polícia ou da imprensa, já pipocavam no Twitter mensagens com informações sobre a audácia dos bandidos.

“Evitem a Praça Las Américas”, escreviam alguns internautas. “Há homens armados. Não são soldados, seus rostos estão cobertos por máscaras”, ressaltavam outros. Relatos como estes se tornaram comuns no México no último ano, especialmente em regiões violentas onde o trabalho da imprensa é prejudicado pela pressão de narcotraficantes e governos corruptos.

Curiosamente, no mesmo dia do grande fluxo de mensagens por conta dos corpos despejados na rua, a Assembléia Legislativa do estado de Veracruz criminalizou o uso do Twitter e outras redes sociais para “perturbar a ordem pública”.

É a primeira lei deste tipo no México, e pelo menos outro estado, o de Tabasco, considera adotar medida similar. O medo das autoridades é o poder das redes online em disseminar o pânico no país. Em agosto, duas pessoas foram processadas em Veracruz por terrorismo depois que mensagens suas no Twitter – sobre um falso boato que dizia que as escolas da cidade estavam sendo atacadas – provocaram pânico entre pais, que saíram às ruas para buscar os filhos. Na ocasião, o secretário do Interior do estado de Veracruz, Gerardo Buganza, afirmou que houve pelo menos 26 acidentes de trânsito, e diversas pessoas, por conta dos engarrafamentos, largaram seus carros no meio da rua.

Ferramenta de segurança

Ainda que haja, desta forma, o risco de falsos boatos provocarem pânico em regiões fragilizadas pela violência, muitos mexicanos vêem as mídias sociais hoje como uma necessidade para o país. Enquanto em países como Egito e Síria, ou na China, as redes são usadas como um caminho para driblar as fontes de repressão e unir pessoas por uma causa, no México elas se tornaram ferramentas que auxiliam a população a sobreviver em meio aos perigos locais. As mensagens enviadas pelos mexicanos “não são tentativas em tempo real para conseguir mudanças no governo”, avalia Nicholas T. Goodbody, professor de estudos da cultura mexicana no Williams College, no estado americano de Massachusetts. “Estas pessoas estão tentando guiar sua rotina”.

“A mídia social está preenchendo uma lacuna deixada pela imprensa”, diz Andrés Monroy-Hernández, aluno de doutorado no M.I.T. Media Lab. “Em diferentes regiões do México, tanto o estado quanto a imprensa são fracos, enquanto o crime organizado se torna mais forte e, em alguns lugares, substitui o estado”. Hoje, o México é um país extremamente perigoso. Nos últimos cinco anos, cerca de 40 mil pessoas foram mortas na guerra do narcotráfico. Ao mesmo tempo, o país observa o crescimento da classe média, acuada pela violência e “armada” com computadores e telefones celulares. Há mais de 30 milhões de internautas (com acesso regular à web) no México – 95% destas pessoas têm perfil no Facebook. O Twitter tem mais de quatro milhões de usuários. Há ainda diversos blogs e sites dedicados a cobrir, com a colaboração de leitores, a violência espalhada pelo país.

Muitas das informações mórbidas e assustadoras espalhadas pelas mídias sociais não são encontradas na imprensa tradicional. Muitos mexicanos dizem que confiam mais no Twitter do que nos veículos de imprensa locais, e muitos pais e avós estão aprendendo com seus filhos e netos a mexer na internet com o objetivo específico de ampliar sua segurança.

Há muitas contas anônimas no Twitter voltadas a fornecer informações úteis sobre criminalidade e violência. Anonieta Salazar Loftin, aluna de doutorado em história mexicana na Universidade do Texas em Dallas, diz que estas contas prestam um serviço público necessário. “Elas preenchem a necessidade de informação de uma maneira imediata e acessível e, em um nível psicológico mais profundo, fornecem algum conhecimento e certeza em meio à incerteza”, analisa.

A lei de Veracruz é voltada especificamente a boatos falsos que criem pânico desnecessariamente. Mas a instantaneidade e a impossibilidade de se checar dados e fatos contidos nos relatos das redes sociais fazem com que ela se torne perigosa para pessoas bem-intencionadas que compartilhem informações que possam estar erradas. Para muitos mexicanos que acompanham as consequências da guerra do narcotráfico via Twitter, o compartilhamento de informações sem regulação é mais benéfico do que danoso para a população. Alertas digitais sobre tiroteios e postos de controle dos carteis ajudam a salvar vidas, dizem eles.

Novo alvo

Mas a situação não é tão simples. À medida que passaram a prestar um serviço de utilidade pública, os internautas também se expuseram àqueles que mais temem. Há pouco mais de duas semanas, um homem e uma mulher na faixa dos 20 anos foram encontrados mortos, pendurados em uma ponte na cidade de Nuevo Laredo, com um aviso preso a seus corpos: “Isso vai acontecer a todos os traidores da internet”. Uma terceira pessoa foi encontrada dias depois com uma nota que afirmava que havia sido morta por causa de postagens nas redes sociais.

E assim, os carteis de drogas, que tanto intimidaram e silenciaram a imprensa e a polícia, agora ameaçam a liberdade na internet. Diante do novo risco que correm, estes internautas já começaram a tomar cuidados. “As pessoas estão se unindo e expondo a verdade”, diz um deles. “Uns cuidam dos outros”.

Apesar da nova lei que pune falsos boatos, na semana passada o governador do estado de Veracruz, Javier Duarte de Ochoa, concedeu o perdão aos dois tuiteiros processados pelas mensagens sobre os ataques às escolas. Ochoa foi além e anunciou a decisão no próprio Twitter. A ação do governador pode servir de sinal de mudança no comportamento das autoridades diante das redes sociais: elas estão aprendendo a lidar com elas, ou, pelo menos, a tolerá-las. Informações de Damien Cave [The New York Times, 24/9/11]

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