Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > IMAGEM & SOCIEDADE

Suicídio em massa

Por Felipe Cartier em 23/03/2010 na edição 582

O regime escópico instaurado predomina a visão sobre todos os outros sentidos. Sendo assim, a televisão recai como um trunfo perfeito na sociedade ocidental. Na tela perfaz-se o que, desde a Renascença, é quesito para uma realidade dominada pelo olhar – a harmonia. A televisão tem como função captar o olhar por meio da imagem simetricamente perfeita. Para tal, criam-se mecanismos de dependências que vão se incorporando no mundo vital – digo vital, e não virtual.

O processo imagético inserido no sistema televisivo cria ambivalências quando comparado com a realidade. Essa mídia, de alto impacto sensorial, é capaz de transformar os processos factuais vigentes em realizações ficcionais. A imagem, então, passa a ser potencializada de ‘realidades’ com efeitos sublimatórios. Um esquema sedutor é concedido, alimentando o que Freud aponta como uma zona erógena de prazer – o olhar.

TV ‘pensa’ por si

Nesse aspecto, fica a cargo do telespectador requerer esse sistema sedutor movido pela civilização das imagens. O telespectador que se senta em frente à televisão, tomado pela imanência, sem ao menos questionar o que está sendo visto, comete seu suicídio mental: anestesia-se com a mesma, exime-se da crítica, do imaginário e atribui-se ao entretenimento uma opção de cura dos problemas existenciais. O mesmo deve ter noção que a televisão é capaz de ‘informar’, ‘entreter’, ‘divulgar’ e ‘promover’, de acordo com interesses próprios. Todos esses verbos inseridos num mesmo contexto, numa mesma seqüência, com cortes de fluxo, com sensações que (des)aceleram.

Ao telespectador resta a dúvida de tudo que vê. Não entregar-se nesse sistema como ferramenta de fuga. Caso contrário, a virtualização das realizações mundanas toma a frente das relações humanas. Ao privilegiar a anulação da razão em troca da emoção, da entrega, da amnésia crítica, preconiza-se a máxima de que se acredita muito mais no que a TV exibe do que a realidade intrínseca. A vontade de ser, absorver e compadecer com aquilo que a TV exibe nada mais é que o suicídio de si.

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Jornalista e ator, pós-graduado em Comunicação e Imagem – PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ

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