Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MONITOR DA IMPRENSA > ELEIÇÕES NOS EUA

‘Surpresa de outubro’ põe a mídia em xeque

09/11/2004 na edição 302

A cada ano eleitoral nos EUA especula-se qual será a surpresa jornalística de outubro. Já virou rotina: há sempre uma reportagem investigativa, publicada pouco tempo antes da eleição, que supostamente prejudicaria algum dos candidatos ao cargo em questão. Há quatro anos, uma emissora de televisão em Portland noticiou, cinco dias antes da votação, que o então candidato George W. Bush havia sido preso em 1976 por dirigir bêbado. Na eleição para governador da Califórnia, no ano passado, o Los Angeles Times publicou – também cinco dias antes da votação – uma matéria onde 16 mulheres acusavam o republicano Arnold Schwarzenegger de assédio sexual.

Na semana passada, foi a vez do New York Times e da CBS News reportarem que cerca de 380 toneladas de explosivos, que poderiam ser utilizados em mísseis, haviam desaparecido de um depósito de armas no Iraque. Segundo Jacques Steinberg e David Carr [The New York Times, 1/11/04], as ‘surpresas de outubro’ levantam diversas questões sobre a atuação da mídia. A mais importante delas: a imprensa deveria publicar uma informação controversa tão próximo ao dia da eleição?

Não existem regras claras que guiem as organizações de mídia por estes campos minados. Alguns jornalistas não vêem problema algum em publicar notícias controversas sobre candidatos nas últimas semanas antes da eleição. Outros preferem deliberar bastante sobre o assunto, montando equações sobre tempo e imparcialidade para avaliar suas decisões. Há também os que se recusam a noticiar qualquer artigo investigativo em data próxima à eleição. ‘Por um lado, você precisa publicar o que o público precisa saber antes da eleição. Por outro, você faz uma acusação tão perto do dia de votação que aqueles que são criticados não têm tempo para responder’, pondera o historiador Michael R. Beschloss.

Direito dos leitores / eleitores

Sobre o caso mais recente, o editor-executivo do New York Times, Bill Keller, afirma que a data da publicação da matéria não chegou a ser uma questão debatida ou considerada um problema. ‘A reportagem estava pronta e foi publicada mais de uma semana antes do dia da eleição. Havia bastante tempo para que os candidatos e suas equipes de campanha reagissem’, diz ele.

O principal estrategista político de Bush, Karl Rove, não concorda com a explicação. Para ele, a matéria sobre o sumiço dos explosivos no Iraque foi uma tentativa do jornal de prejudicar as chances republicanas. Em reação a ela, o departamento de pesquisa do Comitê Nacional Republicano enviou um e-mail para colaboradores e jornalistas acusando o Times de ser parcial e partidário.

E se a matéria só ficasse pronta dois dias antes da eleição? ‘A decisão de publicá-la seria mais difícil’, afirma Keller. Mesmo assim, ele não crê que uma matéria prejudicial há um candidato não possa ser noticiada poucos dias antes da eleição. ‘Se o jornalista descobre que um candidato mentiu sobre sua saúde ou sua ficha criminal, por exemplo, e não há dúvidas quanto à veracidade da informação, a história deve ser publicada? Claro. Os eleitores têm o direito de saber’, conclui.

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