Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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MONITOR DA IMPRENSA >

Terceiro blogueiro assassinado em três meses em Bangladesh

Por Leticia Nunes em 14/05/2015 na edição 850

O assassinato do blogueiro Ananta Bijoy Das, esfaqueado por homens mascarados na cidade de Sylhet em 12/5, é o terceiro ataque do tipo no país entre fevereiro e maio de 2015. Os outros dois assassinatos ocorreram em Daca, capital de Bangladesh. Nos três casos, os blogueiros se declaravam ateus.

Uma das vítimas, Avijit Roy, era dono do site para o qual Bijoy escrevia, o Mukto-Mona (“mente livre”). Roy, que era conhecido por seus textos contra o fundamentalismo religioso, foi agredido com objeto cortante em fevereiro, quando caminhava numa via movimentada junto a sua esposa. O outro blogueiro morto era Washiqur Rahman, também atacado com objeto cortante, em março.

morte blogueiro Bangladesh

Ativistas em protesto pela morte de Bijoy em Bangladesh (Foto: EPA/Landov)

Os ataques estimularam diversos protestos de estudantes e ativistas sociais, que acusaram as autoridades de não proteger os críticos do fanatismo religioso. Um islamita foi preso pela morte de Roy, enquanto dois estudantes de escolas corânicas foram presos pelo assassinato de Rahman. As investigações sobre o assassinato de Bijoy ainda estão em curso.

Assassinatos à luz do dia

De acordo com testemunhas, quatro agressores investiram contra Bijoy às oito e meia da manhã, perto de sua residência, quando ele se dirigia para o trabalho em uma instituição bancária. O blogueiro chegou a ser levado ao hospital, mas morreu assim que chegou. Os homens fugiram.

Bijoy já havia relatado ter recebido ameaças de morte por parte de extremistas islâmicos. Recentemente, ele havia sido convidado para participar de um evento a ser realizado na Suécia e organizado pela PEN, organização que defende a liberdade de expressão para escritores. Funcionários da embaixada informaram, no entanto, que o visto do blogueiro para entrada no país escandinavo fora recusado, pois havia o risco dele não retornar para casa. A divisão sueca da PEN informou à BBC que estava em processo de apresentação de um recurso para obtenção do visto quando soube do assassinato.

Ataques frequentes

No Twitter, houve várias manifestações de pesar pela morte de Bijoy. O blogueiro Imran H Sarker escreveu: “Nenhuma justiça, impunidade!”; já o blogueiro Rezwan usou a hashtag #Wordscannotbekilled (“palavras não podem ser assassinadas”).

Em contrapartida, algumas contas aparentemente ligadas a grupos militante islâmicos postaram mensagens reivindicando a autoria do crime e comemorando a morte do blogueiro. No início de maio, Asim Umar, suposto líder da Al-Qaeda no subcontinente indiano, divulgou um vídeo clamando a responsabilidade pela morte de Roy e por outros assassinatos.

Os ataques a escritores progressistas críticos do Islã vêm acontecendo com regularidade em Bangladesh, onde cerca de 90% dos cidadãos são muçulmanos e adeptos do conservadorismo religioso. Há alguns anos, inclusive, extremistas islâmicos chegaram a exigir uma lei relacionada a blasfêmia para impedir que blogueiros anti-islâmicos escrevessem sobre o Islã.

Bijoy era adepto do secularismo, previsto na constituição oficial de 1971, o qual prega a separação entre Estado e princípios religiosos.

Desde 2013, pelo menos cinco blogueiros foram atacados por islamitas depois que outro grupo extremista, o Hefazat-e-Islam, solicitou publicamente a execução de ateus que organizassem protestos em massa contra a ascensão do islamismo político.

Clima político venenoso

De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, as tensões entre o governo de Bangladesh e da oposição islamita tem colocado escritores progressistas em posição precária.

A Repórteres Sem Fronteiras divulgou em 2014 uma “lista negra” criada pelo grupo militante islâmico Ansar al Islam Bangladesh (também chamado Ansarullah Bangla Team), na qual constava o nome de diversos escritores vistos como adversários do Islã. Dentre os assassinatos reivindicados pelo grupo estavam o ataque em 2013 contra Rajib Haider, um ativista que pedia punições severas a islâmicos que cometeram atrocidades durante a guerra de 1971 no país.

Tahmima Anam, escritor e antropólogo de Bangladesh, disse que os blogueiros foram vítimas não apenas de bandidos assassinos, mas de um clima político venenoso, em que secularistas e islamitas, muçulmanos praticantes e ateus são constantemente colocados uns contra os outros.

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