Domingo, 08 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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Terra Magazine

18/08/2009 na edição 551

GUERRA NA TELINHA

Diego Salmen

Leal: embate Globo X Record é ‘disputa comercial’

‘Quinta-feira, 13, 20h00. Abertura dos telejornais nas duas maiores emissoras do país. Começa mais um capítulo da batalha televisiva iniciada um dia antes entre as redes Globo e Record.

Para além da disputa pela audiência, o incidente desnuda o uso indevido de espaços públicos para disputas particulares. A avaliação é de Laurindo Leal Filho, doutor em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade.

– São duas empresas comerciais que se utilizam do espaço público – que não é delas, é da sociedade – para resolver pendências comerciais e empresariais. Isso é absolutamente incompatível com o Estado democrático.

Autor de diversos livros sobre o assunto (‘A TV sob controle, a resposta da sociedade ao poder da televisão’ e ‘A melhor TV do mundo, o modelo britânico de televisão’, dentre outros), Laurindo avalia, nesta entrevista a Terra Magazine, que a disputa comercial entre os dois canais tem como ponto positivo a exposição da história de ‘relações promíscuas’ da Rede Globo. Além de evidenciar a defesagem e a falta de legislação para o setor de telecomunicações.

O estopim da luta de foice entre os dois canais foi a publicação de reportagem com mais de 10 minutos de duração pelo Jornal Nacional na terça-feira, 11, repercutindo denúncia do Ministério Público de São Paulo que incriminou o bispo Edir Macedo e outros nove membros da Igreja Universal por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

No dia seguinte, o revide. Em reportagem de cerca de 15 minutos veiculada pelo Jornal da Record, a emissora – controlada pela Universal – recorreu a imagens de arquivo para vincular a Globo à ditadura militar e aos escândalos Time-Life e Proconsult. E destacou que a emissora carioca ignorou o movimento Diretas-Já, em 1984.

Nesta quinta-feira, novo round, com os mesmíssimos ingredientes.

Em nota enviada a Terra Magazine, a Central Globo de Comunicação afirma que está dando ao caso Universal ‘tratamento equivalente’ ao que deu a outros fatos jornalísticos, como a deflagração da Operação Satiagraha, em julho de 2008. A central de comunicação da Rede Record afirmou, por sua vez, que a emissora ‘não está atacando ninguém, apenas respondendo às acusações feitas e aos ataques que partiram da Rede Globo’.

‘O que o cidadão em casa tem a ver com a briga entre a empresa Record e a empresa Globo? Ele não tem nada a ver com isso’, critica Laurindo. ‘ Ele tem que receber um serviço público correto de rádio e TV, que atenda aos seus interesses e as suas necessidades Laurindo’.

Confira a entrevista:

Terra Magazine – Como o senhor avalia o embate entre Globo e Record observado nos últimos dias?

Laurindo Leal Filho -Sem dúvida é uma luta pela audiência. o fato de a Record a cada momento subir mais aceleradamente no Ibope, com resultados que nunca foram obtidos desde o surgimento da Globo. Desde que ela assumiu a liderança, nunca sofreu um abalo de audiência tão grande. Essa, sem dúvida alguma, é a razão central da investida da Globo contra a Record, ampliando e amplificando a manifestação do Ministério Público contra os proprietários da Record. Essa é a realidade. Agora, o problema que me parece mais grave para o Brasil e para o setor de comunicações é o fato de que duas empresas se utilizam do espaço público, já que ambas são concessões públicas, para fazerem trocarem acusações e fazerem ataques em defesas de seus interesses empesariais.

Sim…

Ou seja: são duas empresas comerciais que se utilizam do espaço público – que não é delas, é da sociedade – para resolver pendências comerciais e empresariais. Isso é absolutamente incompatível com o Estado democrático, onde o espaço público de rádio e televisão tem de ser organizado em função dos interesses da sociedade, e não dos interesses particulares e comerciais de Globo e Record. Esse é o grande problema que não está sendo discutido. O que o cidadão em casa tem a ver com a briga entre a empresa Record e a empresa Globo? Ele não tem nada a ver com isso. Ele tem que receber um serviço público correto de rádio e TV, que atenda aos seus interesses e as suas necessidades.

A Record diz que, por conta do domínio da Globo, o Brasil hoje vive um ‘monopólio’ na TV… Isso é real? Essa disputa não dá sinais de que estejamos caminhando para uma espécie de duopólio?

É verdade. Se há algo positivo nessa crise, é o fato de o monopólio da Globo estar sendo arranhado. Isso acontece tanto do ponto de vista da audiência… O fato de o reality show A Fazenda estar derrotando a Globo no domingo mostra que o monopólio está abalado. Esse é um fato importante, embora eu acredite que poderia ter sido abalado com outras armas, não com instrumentos semelhantes aos da Globo. O outro aspecto positivo é o fato de que a Record esta colocando no ar, para milhoes de brasileiros, informações sobre a história da Rede Globo que poucas pessoas conheciam. Todos nós na área de comunicação e na Universidade sabíamos desses fatos, mas a grande maioria da população com certeza não sabia quais eram as relações promíscuas que marcaram toda a história da Globo com todos os governos da República. Esse é um fato positivo: colocar para o grande público a história real da Globo.

A Record também acusa a Globo de estar com medo da concorrência; no entanto, em que medida há uma concorrência real? A programação dos dois canais é muito semelhante…

A concorrência existe. Basta ver os números do Ibope, eles mostram que a Record está roubando a audiência (da Globo). Ela rouba tendo como base a estrutura de programação da TV Globo, mas ela adiciona elementos novos e mais sofisticados até do que os da Globo. Na verdade a Record até aproveita um certo cansaço da fórmula global e dá a ela um novo dinamismo, algumas novas características. Quer dizer: a base é a mesma, mas a Record consegue, em alguns momentos, fazer um produto um pouco mais sofisticado e atraente do que o da Globo.

É um processo ‘antropofágico’…

É isso, é isso..

O que se tem no horizonte para equacionar esse problema? Qual seria a vantagem de a Record empatar com a Globo ou até mesmo superá-la na audiência?

Para o telespectador, nenhuma. Haja vista o que está acontecendo agora na disputa pelo segundo lugar na audiência com a troca de jornalistas entre o SBT e a Record. Para o telespectador continua exatamente a mesma coisa. Essas grandes emissoras têm um temos muito grande em investir em qualquer experimentação, e apostam naquilo em que, com quase plena certeza, dará audiência. Isso é muito ruim para a o cenário da televisão e da cultura brasileira.

Há um conservadorismo enorme…

Claro, porque são sempre os mesmos padrões, as mesmas fórmulas, e isso acaba inibindo uma grande produção cultural que existe pelo Brasil afora e que não tem canais para se manifestar para todo o público brasileiro. Essa disputa, para o telespectador, não traz nenhum benefício.

E por que o governo não consegue fazer valer a concessão pública às emissoras de TV como algo público de fato?

Porque todos os governos têm temor de mexer com a comunicação, especialmente a comunicação eletrônica. E, infelizmente, nós não temos no Brasil uma legislação que dê conta da situação atual. Basta ver que a lei que regula a rádiodifusão é de 1962, e continua em vigor. Essa área vira uma selva, uma terra de ninguém. Seria absolutamente impossível ocorrer esta guerra pública nos telejornais da Record e da Globo se houvesse por aqui o que há nos países democráticos: órgãos reguladores. É absolutamente incocebível que, num país sério, uma emissora coloque sete, oito, dez minutos de reportagem para falar mal da concorrente. Isso um órgão regulador jamais permitiria.

Só para deixar claro: órgão regulador não significa restrições à liberdade de expressão, como os proprietários de mídia alegam.

Não, são órgãos reguladores desse tipo de serviço público fundamentados na lei. É o que tem na Inglaterra, na França, em Portugal, na Espanha, nos Estados Unidos… O que é um espaço público precisa ser regulado pelo Estado em nome do público. Não tem nada a ver com censura. Mas estabelece parâmetros de funcionamento. Isso não existe no Brasil, e é isso que permite esse fenômeno que está ocorrendo agora.

A internet pode pressionar por uma mudança nesse panorama, não?

É, ela ajuda bastante, sem dúvida. Ela diversifica as fontes de informação e oferece algum tipo de alternativa. Mas ainda tem um poder muito reduzido se comparado ao da televisão aberta.’

 

Marcelo Carneiro da Cunha

Entre Globo e Record, qual a pior?

‘Estimados milhares de leitores, que satisfação estar de novo com vocês, aqui nesse ambiente desenfumaçado dos últimos dias.

Mas, como a realidade é algo que muda o tempo inteiro, enquanto bares e restaurantes se tornaram ambientes bem mais amigáveis aos seres humanos respiradores de oxigênio, o ambiente eletrônico da televisão anda tão esquentado que derreteu até o bombril da antena aqui de casa. Globo e Record se inspiraram no glorioso Senado Nacional e partiram pro chute na canela. Bom para todos nós. Quando os grandes e enormes brigam, parte do muito que eles sabem e a gente não, vem à tona.

Pra começo de conversa, devemos lembrar que essas duas redes de comunicações têm em comum apenas isso: serem duas redes de comunicação. No resto, Globo e Record são animais muito diferentes, mesmo que dotados de dentes grandes e mesmas intenções de predadores.

A Globo é como uma novela da Globo, que nos conta historinhas para boi dormir. Nenhuma novela da Globo quer mudar o mundo ou nos tornar pessoas melhores. Ela nos convida a comprar xampu, iogurte e automóvel, mais nada. Assim é a Globo.

Ela também é a expoente de uma era de grandes veículos que faziam e desfaziam o mundo em que vivíamos. A lógica de uma Globo é a de qualquer grande empresa ligada aos interesses do grande capital, e naturalmente as intenções desse povo nunca foram ajudar o mundo a ser um lugar mais legal, igualitário e modelado pela fraternidade socialista. A Globo é consequência do golpe militar, e não é exatamente surpreendente perceber que nasceu pra ser uma aliada natural e defensora de uma certa ordem. Mas ela também faz televisão de excelente qualidade, coisas do Guel Arraes, do Jorge Furtado, entre outras. Ela faz quando quer, só não quer mais porque parece que não precisa.

A Record é uma grande igreja do bispo Macedo com fachada de rede de comunicações. E a igreja do bispo Macedo não é moleza. Os tais templos dele têm cara de cartório e alma de cobrador de impostos. Entrou ali, pimba, você está achado por eles e perdido pra sempre. Eu lembro de ter escutado o bispo Macedo uma vez apenas, em um táxi de um convertido e salvo pela igreja do bispo.

Não sei se vocês já escutaram, mas é assustador o tal bispo. Assustador pelo tom da voz, de vampiro de filme do Polansky, assustador pela total falta de escrúpulos na hora de dizer a que veio e o que espera da gente. A igreja do bispo Macedo é que nem novela da Globo, só que sem a novela – débito ou crédito, estimado crente?

Uma rede de comunicações de uma igreja dessas faz o que, afinal das contas? Mesmo que ela faça jornalismo com bons profissionais, o que eles tiveram que fazer ontem e anteontem diante das câmeras foi dar a mensagem do chefe. E, diferentemente da Globo, o chefe da Record é o bispo!

Eu tenho saudades do SBT e da Tele Sena. Pelo menos ali ficava na cara que o que o Silvio Santos tinha era uma rede de televisão inteira devotada a vender Tele Sena. Assim, com as coisas claras e simplinhas, tudo, mas tudo mesmo fica mais fácil.

A Globo queria a nossa mente e o nosso corpo, hoje se satisfaz com uma parte razoável do nosso bolso, e ainda faz o Criança Esperança pra mostrar que é legal. A Globo é como a igreja Católica, que faz o que faz, mas com um jeito pra lá de respeitável.

A Record quer o que? Ela quer enfiar o exu caveira na gente e cobrar pra tirar, em suaves prestações mensais, pelos próximos 30 anos.

A Globo é conseqüência e representante de um modelo de sociedade que parece que se esgota. A Record é parte de um império tão sibilino quanto raso, se espalha por todo canto, mas, espero, não faz mais do que manchar o carpete.

A diferença, e talvez seja essa a causa da briga das duas, é que a Globo é uma empresa. Se ela precisa de dinheiro, tem que ir ali adiante, trabalhar, vender, faturar, pagar seus impostos, gerar lucro e então poder tocar no din din. A Record, não. Escasseou o caixa, aluga-se o Maracanã, faz-se uma celebração para Jesus Cristinho na versão do bispo, junta-se duzentos mil coitados, passa-se o saco, todo mundo contribui ou vai ver só, leva-se os sacos de dinheiro pros templos, pronto. Cash flow pra ninguém botar defeito, fora todo mundo com alguma decência no coração.

Talvez seja essa a causa da briga, como foi a causa da queda do Collor.. Collor caiu, como talvez vocês saibam, porque uma vez no poder, com a tolerância do andar hiper de cima, começou a acumular dinheiro com uma voracidade alagoense e até então desconhecida. O andar de cima tremeu, Collor caiu.

Talvez o sistema esteja informando ao bispo que melhor ele moderar a taxa de acumulação de capital, ou o céu cai em cima dele. Talvez o bispo já se sinta poderoso o bastante para peitar a banca.

Eu apostaria a minha fortuna pessoal, estimada em dez reais e quarenta e dois centavos, em que é exatamente isso que está acontecendo. E o que está em jogo é limitar o poder do bispo, e por isso, e por motivos de alinhamento estratégico semelhantes aos que fizeram o Lula abraçar o Sarney, nessa, e nessa apenas e por agora, estou com a Globo. Já o estimado leitor, faça a sua escolha. Se o bispo ganha, e ele pode ganhar, logo, logo, não tem mais escolha.’

 

Claudio Leal e Thais Bilenky

Record diz que não está em guerra, mas ataca Globo

‘Celso Freitas, apresentador do Jornal da Record, depois de série de ataques frontais à Rede Globo: ‘A Record não está em guerra com ninguém’. Mas durante longos minutos televisivos a emissora controlada pela Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) voltou a atacar o grupo de comunicações da família Marinho em horário nobre.

A longa reportagem do Jornal da Record começou recuperando imagens da edição de 12 de agosto de 2009 do Jornal Nacional, com as denúncias do Ministério Público contra o bispo Edir Macedo. Salta, então, para dezembro de 1995, com o JN fazendo ‘as mesmas denúncias’ por ter ‘medo de perder o monopólio de transformar a verdade em mentira’, sustentou a Record.

Apresentado pelos ex-globais Celso Freitas e Ana Paula Padrão, o telejornal acusa a Globo de fazer agressões sem nenhuma novidade e, ao contrário das demais emissoras da televisão brasileira, se estender na cobertura do caso Igreja Universal. Diferentemente da Cultura, por exemplo, que não o noticiou, a Globo dedicou dez minutos ao caso, ressaltou a concorrente.

A Record acusa a Globo de desrespeitar a liberdade religiosa ao exibir imagens de cultos e insinuar roubos na instituição protestante. Usar câmera escondida, segue a emissora de Macedo, para mostrar imagens que podem ser vistas abertamente na programação da madrugada da Record e em horários nobres de outras emissoras, esvaziam a cobertura ‘agressiva’ do caso.

Nesta quinta, o Jornal Nacional voltou a dedicar um bloco de reportagens sobre as investigações contra a Iurd. Amparado no jornal Estado de S. Paulo – destacado na edição -, o repórter César Tralli relatou que o dízimo de fiéis foi usado pela igreja de Edir Macedo para comprar imóveis (carros, emissoras de rádio e mais 19 empresas), como constatou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e o Ministério Público de São Paulo.

Entre os imóveis comprados pelo grupo, um prédio de R$ 8 milhões, em Salvador, e um terreno de R$ 8,48 milhões no Rio de Janeiro. O dinheiro passaria por ‘empresas de fachada’, segundo o MP. O advogado da Iurd, Arthur Lavigne, não concedeu entrevista à Rede Globo, mas em nota alegou não ter o inquérito do MP na íntegra.

Os dois grupos de comunicação recorreram a parlamentares para opinar sobre as investigações. A Globo ouviu os senadores Álvaro Dias (PSDB), Arthur Virgilio (PSDB), Eduardo Suplicy (PT) e Garibaldi Alves (PMDB).

A Record direcionou as entrevistas com os congressistas para a guerra entre as emissoras e a quebra do monopólio da Globo. Entre os entrevistados, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc (que defendeu o ‘não monopólio’), o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), Magno Malta (PR-ES) e o bispo Marcelo Crivella (PRB-RJ). Um membro do Ministério Público da Bahia, Almiro Sena, criticou indiretamente o trabalho dos colegas paulistas, ao falar em preconceito contra a religião. Cristovam Buarque se referiu à queda de audiência do ‘Jornal Nacional’.

Em nota enviada a Terra Magazine nesta quinta, a Central Globo de Comunicação afirma que está dando ao caso Universal ‘tratamento equivalente’ ao que deu a outros fatos jornalísticos, como a deflagração da Operação Satiagraha, em julho de 2008.

Já a central de comunicação da Rede Record afirmou, oficialmente, que ‘não está atacando ninguém, apenas respondendo às acusações feitas e aos ataques que partiram da Rede Globo’.

O Ministério Público de São Paulo, na denúncia acolhida pela Justiça, incriminou o bispo Edir Macedo e outros nove membros da Igreja Universal por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. O MP apontou oito empresas de comunicação entre as dez favorecidas por transferências eletrônicas da Igreja – noutras palavras, o dízimo dos fiéis irrigaria, entre outras empresas, a TV Record.

Na noite da quarta-feira, 12, durante cerca de 15 minutos, o Jornal da Record rebateu as denúncias, destacou os trabalhos sociais da Igreja e se concentrou nos ataques à rival. Controlada pela Iurd, a Record usou imagens de arquivo para vincular a Globo à ditadura militar e aos escândalos Time-Life e Proconsult. E destacou que a emissora carioca ignorou o movimento Diretas-Já, em 1984.

Na sequência, a Record defende a prática do dízimo recorrendo à definição no dicionário, falas da população nas ruas e do livro de Edir Macedo, ‘O Bispo’. Nele, Macedo diz que o dízimo ‘revela fé na prática’ e assegura que a Universal ‘não impõe nada, não cobramos nada de ninguém. Apenas conscientizamos as pessoas dessa prática’.

A reportagem argumenta, de acordo com o bispo no livro, que o crescimento da Igreja Universal explica e justifica as doações de fieis. Se o dinheiro fosse para ‘os bolsos do bispo’, não sobraria para a instituição se expandir. E se expande, mostra a reportagem, não apenas pelo Brasil, mas pelo mundo.

A Record cita, então, denúncias feitas à ‘família Marinho’, como do prejuízo do BNDES, ‘ocupação com submundo dos negócios’, acusações de um ex-funcionário de que a Globo desviaria dinheiro público para construir o Projac, questão ‘até hoje não devidamente esclarecida’, diz o telejornal.

A Record, então, atribui uma explicação: ‘Por trás dos ataques, a verdade: a queda de audiência (da Globo), e o crescimento da Record’, anuncia o repórter. Ao comparar o share, auferido pelo Ibope, entre 2004 e 2009, a Record informa que, enquanto cresceu oito pontos, a concorrente caiu dez.

O telejornal seleciona trechos da nota do advogado da emissora, Arthur Lavigne, que desfaz as acusações da Globo ao ‘repetir conteúdo de inquérito instaurado em 1999’. E depois a reportagem recorre a políticos de diferentes partidos e repartições em Brasília. Fernando Ferro, Carlos Minc, Marcos Maia, Antonio Carlos Valadares, Brizola Neto, Wellington Salgado, Magno Malta, Emiliano José, Jô Moraes e, por fim, Marcelo Crivella, sobrinho do bispo Edir Macedo.

NR – O Jornal da Record recorreu a enquete do Portal Terra para aferir a opinião dos internautas. Enquetes, bem como emails, não são critérios científicos. Como se sabe, uma só pessoa pode dar vários cliques.’

 

Alexandre Xavier

Se Deus é brasileiro, o Homer Simpson também é

‘No país da leniência crônica, de vez em quando é saudável que o circo pegue fogo. O bate-boca entre Renan Calheiros e Tasso Jereissati, por exemplo, foi mais esclarecedor do que 459 propagandas eleitorais gratuitas. Mas que algo de bom pode sair da briga do ano no Brasil (entre a Globo e Record)?

Porque como bem sabe o William Bonner, o telespectador médio do Jornal Nacional é o limitado do Homer Simpson. E, por analogia, o telespectador médio da Record deve ser o Ned Flanders (o vizinho fanático-religioso do Homer). Mas mesmo o Homer criou umas sinapses, evoluiu um pouquinho e aprendeu a pensar por conta própria (o Ned parece não ter jeito, continua encabrestado).

Claro que as coisas no Brasil não mudam de uma hora para outra, mas episódios como esse podem ajudar a amadurecer o público. Enquanto a audiência for composta por Homer Simpsons, a tevê aberta vai ser sempre (com raras exceções) esta máquina de exterminar neurônios que é hoje.

O alento é que, se as emissoras não se modernizarem, a internet vai engolí-las nas próximas décadas. E o bacana da internet é que nela o conteúdo não é feito para a massa, ele é descentralizado, o que traz muito mais diversidade e menos banalização.

Mas, ok, suponhamos que o entrevero entre a Globo e a Record seja, por si só, saudável para o telespectador. Mas, se nenhuma das duas é santa, de que lado você está? E quem vai ganhar essa queda-de-braço?

Entre um país cheio de Homers e outro cheio de Ned Flanders, me parece melhor um país cheio de Homers. Afinal, é menos demoníaco achar que a vida é beber cerveja em frente à tevê a achar que Deus deu dinheiro para o Real Madrid comprar o Kaká. Se a Globo pecou muito durante sua trajetória (principalmente durante os anos de chumbo), hoje o cenário é outro. Não dá para ficar em cima do muro.

Mesmo se o Coaf e o Ministério Público estiverem equivocados, as práticas da Igreja Universal continuam sendo menos louváveis do que as da Globo. Arrebanhar fiéis, acreditar em demônios e em dízimos, isso tudo é medieval demais para ser verdade hoje em dia. Menos pior o interesse da Globo, que não é das mais nobres, mas é meramente comercial.

A Globo angaria antipatia junto a muitos espectadores por esse motivo: o de querer se manter como a rede queridinha dos brasileiros para lucrar mais com publicidade em detrimento da qualidade da informação e do entretenimento (e, em algumas ocasiões, em detrimento da saudável concorrência).

Mas é menos danoso para o Brasil ter como líder de audiência uma emissora de tevê independente, mas chapa-branca, do que uma emissora sustentada ideologicamente (e, segundo o Coaf, financeiramente) por uma organização religiosa (de qualquer natureza ou credo, o que interessa aí é o conceito).

Um argumento válido que a Record tem usado nessa ‘tela quente’ com a Globo é o fato de que o monopólio da emissora carioca tem de acabar. Mas que raio de concorrência eles propõem? Dentre as estrelas da casa tá cheio de ex-globais! Para que ter uma emissora concorrente da Globo com refugo da Globo?

No Jornal da Record até o cenário remete à Globo (sem mencionar, é claro, os apresentadores). Repare que inclusive o tipo de letra do GC (os caracteres que aparecem na telinha da emissora do Edir Macedo) são parecidos com o da Globo. Em vez de tentar quebrar o monopólio com algo novo, a Record usa da estética da Globo para atrair audiência. É, no mínimo , patético. É mais do mesmo.

Ah, claro, lá agora tem o Gugu. Aquele mesmo que era do SBT (e não da Globo!). Que ótimo, olha que novidade. Teremos uma disputa entre Gugu e Faustão nas tardes de domingo. A Record quer ser uma alternativa na tevê aberta ou quer voltar no tempo?

Seria melhor mesmo se tivéssemos três canais de tevê aberta dividindo o poder e a liderança em igualdade de condições como ocorre, por exemplo nos EUA e na Argentina. Enquanto isso não acontece, melhor alugar umas temporadas dos Simpsons para assistir no DVD. Ali o Homer e o Ned são de mentira e as piadas são boas.’

 

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