Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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Terra Magazine

27/10/2009 na edição 561


ESCÂNDALO
Wálter Fanganiello Maierovitch


Travestis brasileiros derrubam governador italiano. Protagonistas Natalia e Brenda em litígio.


‘Natália e Brenda, –dois travestis brasileiros que moram em Roma–, são os protagonistas do escândalo que colocou fim à carreira política de Piero Marrazzo, governador da região (estado) italiana Lazio e que tem Roma como capital.


Em entrevista ao Corriere della Sera de hoje, com direito a fotografia, a brasileira Natalia disse : ‘Com Marrazzo sai algumas vezes, mas ele nunca entrou no meu apartamento. Assim, não sou eu aquela que aparece no vídeo divulgado’: o mostrado no You Tube é falso, conforme avisa a polícia italiana.


Para a trans-brasileira, a filmagem teria sido realizada no apartamento da travesti brasileira Brenda, que divide morada com a francesa Michelle. Uma filmagem com celular e feita por pessoa que estava no quarto, mas não percebida pelo governador Marrazzo.


Sobre a acusação, Brenda (com foto no Corriere della Sera na edição de ontem) mantêm-se em silêncio. Só que ela tem um porta-voz, que disparou ataque verbal contra Natalia: – ‘ Natalia é má e invejosa’.


A porta-voz de Brenda é o transsexual conhecido por Thayanna e seria, como escreveu a imprensa italiana, ‘ um veado, como a brasileira Brenda’ .


Marrazzo, em fim de mandato, se auto-suspendeu do cargo e deu posse ao vice-governador.


Como as eleições estão marcadas para 28 e 29 de março de 2010, Marrazzo, — que disse estar envergonhado e querer sumir–, foi orientado pelo seu partido (PD-Partido Democrático) a não renunciar.


A renúncia levaria à imediata eleição, ou seja, antecipação eleitoral. E isso é tudo que Berlusconi, do PDL, deseja: ele já elegeu o prefeito de Roma, um ex-membro da juventude fascista. Agora, quer um governador direitista para a região (estado).


Tudo começou quando policiais do ROS (Raggruppamento Operativo Speciale) investigavam a potente Camorra napolitana. Mais especificamente, a facção camorrista de Casal di Príncipe: a camorra casalese (Casal di Príncipe) é objeto do primeiro capítulo do meu modesto livro A Criminalidade dos Potentes, já esgotado nas livrarias).


Numa das interceptações telefônicas realizadas com autorização judicial, colheu-se o relato de que quatro carabineiros (policiais militares) estavam a chantagear o governador Marrazzo e usavam uma filmagem de encontro sexual dele com travestis, em quarto onde havia carreiras de cocaína em cima de uma mesa.


Para os quatro policiais militares (carabinieri), conforme investigação do ROS e da magistratura do Ministério Público, Marrazzo forneceu três cheques de 20 mil euros (R$60 mil). Era o primeiro preço de uma chantagem sem fim.


Os quatro policiais militares, –já presos preventivamente–, tentavam negociar os vídeos com a revista italiana ‘Chi’ (‘ Quem’) e com o grupo Modatori, de propriedade do premier Silvio Berlusconi.


Marrazzo, –casado com uma jornalista e pai de duas filhas dessa união–, não foi perdoado pela esposa, fato que aumenta a dramaticidade e o coloca no ‘fundo do poço’. Ele teve a dignidade de assumir a transgressão.


O escândalo em questão, pois houve vazamento e os jornais noticiaram, abalou Roma. Mais do que os escândalos imperiais e os contos e pinturas eróticas com ninfas e faunos.


Pelo que se percebe, o problema é que o ocorrido não é visto apenas como algo pertencente à esfera privada.


Como lembrou Massimo D´Alema, ex-comunista e ex-premier, ‘ o comportamento privado de um homem público tem relevância pública. É um princípio que vale para todos’.


De se acrescentar que D´Alema é um dos líderes do partido democrático, ao qual pertence Marrazzo.


Os encontros amorosos filmados, por incrível, deram-se em prédio de apartamentos localizado na via Gradoli, 96 (Roma-norte).


Nesse mesmo prédio, há mais de 30 anos, as Brigadas Vermelhas mantiveram em cárcere privado o sequestrado Aldo Moro, ex-primeiro ministro e presidente do então partido democrata cristão. Moro foi lá julgado e executado pelos terroristas brigadistas.


PANO RÁPIDO. Ao ministério público, a ‘traveca’ brasileira Natalia disse ser a ‘fidanzata’ (noiva-namorada) do governador Marrazzo.


Há pouco, o premier Berlsuconi anunciou que o seu grupo editorial (Mondatore) havia sido procurado e a ele ofertado um segundo vídeo sobre Marrazzo. Tal vídeo ainda não foi apreendido pela polícia e ainda não foi exibido.


O intermediário da oferta de venda do primeiro filme à imprensa teria sido, segundo noticiado, o fotógrafo Massimo Scarfone.


Coube a Scarfone fotografar o ministro-segretário do ex-premier Romano Prodi. Isto quando o ministro Silvio Sircana, dentro do seu automóvel, acertava um ‘programa’ com uma travesti brasileira.


Em Roma, os ‘trans’, conforme matérias jornalísticas, mudaram do parque de Vila Borghese para as vias Gradoli e Del Due Ponti e o largo Sperlonga. Cada ‘programa’, sem cocaína, custa 1.500 euros.


Como dito por um entrevistado pelo jornal La Repubblica de domingo, os ‘veados’ brasileiros são os mais requisitados e isto por serem mais desinibidos.’


 


COISA DE MUSEU
Paulo Nassar


Para não deixar esquecer


‘O Newseum é, hoje, o mais importante museu de Jornalismo do mundo. Localizado em Washington, EUA, é permanentemente notado por quem legisla, executa e julga as diversas questões da vida, a partir da capital norte-americana.


Do seu prédio monumental, significativamente branco como outras grandes construções do poder da capital avistam-se o Capitólio e a Casa Branca e o Newseum parece fazer corpo-a-corpo com outros Poderes, para afirmá-los ou contrapor-se a eles. Um exemplo da arquitetura que lembra o quarto poder e suas mensagens imanentes, como a liberdade de expressão.


No Newseum a Imprensa mostra suas armas e seu protagonismo nas grandes narrativas e no seu papel no cotidiano do mundo. Mostra suas origens, heróis e vilões, mártires e tycoons. Mostra a evolução da tecnologia em coleções de periódicos e primeiras páginas de revistas fundadoras de estilos jornalísticos como a Time ou a Life. Mostra biografias de seus criadores, como a de Henry Luce (1898-1967). Mostra as primeiras páginas diárias, on-line, dos principais jornais regionais e nacionais, arquivos quase infinitos de imagens e sons, de todos os lugares do mundo, ao alcance dos fones de ouvidos e moderníssimas telas.


O Newseum demonstra, por meio de instalações que, queiramos ou não, algumas notícias estão impressas em nossas almas: nascimentos e perdas, vitórias e derrotas. Acontecimentos dos quais é inútil tentar escapar e, se possível, nos esvaziaria.


Um memorial homenageia jornalistas vítimas da intolerância. E ali, longe do Brasil, a principal instituição da memória do jornalismo mundial não deixou cair no esquecimento um dos maiores crimes cometidos contra jornalistas no período da ditadura militar brasileira: o assassinato de Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, em uma cela da Operação Bandeirante (OBAN), em São Paulo. A ver como o fato, ocorrido há 34 anos, será lembrado pela imprensa brasileira nos próximos dias.


Dentro do Newseum encontra-se um fragmento do Muro de Berlim, em cuja instalação experimenta-se o autoritarismo do que foi aquele lugar. De um lado, ocidental, os grafites preservados e do outro, oriental, a aridez da expressão nenhuma. E também uma madeleine amarga, que guarda restos retorcidos de uma antena de transmissão de televisão instalada no World Trade Center, de Nova Iorque, destruído em 11 de setembro de 2001. As paredes da sala estampam as primeiras páginas da cobertura do atentado terrorista, produzidas por jornais do mundo todo.


Um museu, como lugar de culto, pode ser vazio e desalmado, depósito de fantasmas e efemérides, perdido no tempo, sem significado e depressivo. Mas, longe disso, o Newseum é lugar de ação, exemplo de organização de memórias afetivas e lobby do jornalismo, da liberdade de imprensa e da democracia, em um dos mais importantes centros políticos mundiais.’


 


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