Domingo, 30 de Abril de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº941

MONITOR DA IMPRENSA > TV RECORD

Um show de horror

Por Luciana Rodrigues em 20/06/2011 na edição 647

Todos os dias, casos de agressões a professores e alunos são registrados nas escolas e delegacias. Em um país que não respeita devidamente seus professores, que não os remunera bem, que deixa alunos expostos ao tráfico de drogas dentro de escolas e tantas outras condições desfavoráveis a uma boa educação, agressões e violência não chegam a ser novidade.

São muitos os problemas relacionados à educação e, todos nós sabemos, pelo menos na teoria, os que afligem educadores e estudantes. Desvios de verbas para a compra da merenda, carteiras quebradas, falta de material de trabalho e, claro, a má remuneração dos professores. Nada é novidade, nem mesmo a violência dentro das escolas, seja ela pública ou particular.

O programa Altas Horas, do apresentador Serginho Groisman, desde 2010 desenvolve uma campanha contra o bullying. A ideia surgiu depois que Felipe Matos, que estava na plateia, narrou as diversas formas de agressões que sofria na escola. Surgia a campanha “Altas Horas contra o bullying”. Uma atitude louvável que faz um bom uso de uma concessão pública, que é a televisão.

Segunda-feira feira, dia 13 de junho de 2011, enquanto descansava um pouco a mente depois de horas de estudo, resolvi ligar a TV e zapear os canais a fim de encontrar algo bom. Comecei a assistir ao Show do Tom e o quadro intitulado “Revoltados”, uma paródia de Rebeldes, uma novelinha apresentada também pela Record. Depois de assistir ao quadro, eu, professora, cidadã e estudante de Jornalismo, tive vergonha.

Humor já teve funções mais nobres

O programa que retrata uma escola parece não ter um redator. Parece ser improvisado dentro do mais baixo nível de insultos e palavrões. Os alunos agridem verbalmente o diretor-professor que revida as ofensas com mais ofensas. Em um dos momentos de horror, o diretor pede que uma das alunas agrida uma colega de classe com três pancadas na cabeça e depois que os outros alunos arremessem algo também. Qual a função social disso tudo? Alguém com o mínimo de esclarecimento consegue ver humor em tudo isso? Em outro momento uma aluna, interpretada por Tom Cavalcante, chefia o jogo do bicho dentro da escola. Os alunos começam a apostar no veado e dizem que é em homenagem ao professor. O professor pede 60% de tudo o que for arrecadado para que o jogo continue. A aluna diz que se ele continuar importunando, chamará sua gangue para resolver o problema.

Outro detalhe importante: um dos personagens da paródia de horrores é interpretado por Tiririca, deputado federal mais votado do Brasil nas eleições 2010 e que integra a Comissão de Educação e Cultura. Educação? Cultura? Isso mesmo. Para aqueles que pensam que voto de protesto serve para alguma coisa. Agora já estão sabendo para que serve.

Depois de rever o vídeo para ter certeza que não estava ouvindo e vendo errado e depois de escrever este texto, sinto-me enojada. O mínimo que um programa deve ter é um roteirista e uma direção que filtre certas imbecilidades. Parabéns ao Altas Horas e sua campanha contra o bullying. E, lembrando uma outra escolinha com frases bem mais inocentes e mundialmente reconhecidas como engraçadas, cito uma frase do personagem Chaves dita toda vez que alguém errava alguma pergunta do professor Girafales na escola: “Que burro da zero pra ele!” É assim que vejo o “humor” praticado nesse absurdo televisivo. Uma pena, o humor já teve funções bem mais nobres do que incitar à violência.

***

[Luciana Rodrigues é estudante de Jornalismo e formada em Letras pela UFPI, Teresina, PI]

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